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A evaporação do pai
Camila Popadiuk (Membro da EBP e da AMP)

“Isso que não desaparece e continua produzindo efeitos” é uma maneira de expressar o que Lacan anunciou em 1968 como “a cicatriz da evaporação do pai”, algo que, em última instância, recebe o nome de segregação.[1] Sabemos que o enfraquecimento da função paterna, característica da sociedade contemporânea, é consequência do discurso da ciência e de sua aliança com o capital. Claramente, Miller indica em seu texto “O pai tornado vapor”[2] a relação direta entre o declínio do pai e a crescente força do capitalismo, ao afirmar que “o capitalismo superou o patriarcado, ou que, pelo menos, iniciou seu declínio.”[3]
Esse declínio consiste na perda da eficácia do pai como função simbólica organizadora do laço social. A potência do pai, enquanto função, estruturava a sociedade em torno de uma lei, que, por sua vez, regulava o desejo e interditava o gozo. Hoje, no lugar dessa ancoragem simbólica, observa-se, como afirma Miller, “uma grande desordem no real,”[4] na qual o objeto-mais-de-gozar é o agente discursivo que determina as relações dos sujeitos, impondo-lhes um imperativo de gozo.
A decadência do pai gera, portanto, uma organização social na qual o gozo prevalece como regulador dos modos de vida, e o surgimento de coletivos e novos agrupamentos sociais passa a se fundar sobre o registro da identificação a um determinado modo de gozar. A reivindicação do direito ao gozo também se apresenta em primeiro plano nessas comunidades. Mas, como o gozo é algo inassimilável, isso aumenta os processos de segregação, na medida em que esse gozo é, primordialmente, rejeitado. Nesse sentido, o outro passa a encarnar esse gozo desconhecido e se torna um objeto rejeitado, pois ele não goza como eu.[5]
Sabemos que, muitas vezes, são as mulheres que encarnam essa diferença radical própria ao gozo, ou seja, essa alteridade estrangeira que habita todo ser falante. Elas acabam se tornando objetos de desmedidas hostilidades. Diversas são as expressões de ódio contra as mulheres, sendo o feminicídio sua maior manifestação. É nesse contexto que o movimento MeToo surge como uma maneira de combater a opressão às mulheres e também como um movimento de luta por seus direitos. As mulheres passaram a tomar a palavra publicamente para denunciar os abusos e violências sofridos, reivindicando justiça e reparação. Nesse sentido, o MeToo produziu uma importante transformação na maneira como a fala e o corpo passaram a se articular nos espaços públicos. Como diz Miller, ele é o “verdadeiro algoritmo do neofeminismo contemporâneo – mais uma, mais uma, mais uma.”[6] Embora seja um discurso que fale em nome de todas as mulheres, Miller afirma que ele se inscreve na lógica do não-todo, pois “trata-se de um todo em formação, que se constitui por meio de uma adição sequencial e indefinida de elementos.”[7] Seria ele, assim, uma das formas de manifestação dessas “bolhas efervescentes”?
Os efeitos desse vapor que permanecem no ar e recaem sobre a instância da mãe podem ser percebidos, por exemplo, na instauração de “um querer ser mãe generalizado,”[8] ocasionado tanto pelos avanços da tecnologia, que oferecem diversas práticas de reprodução, quanto pelas novas configurações familiares juridicamente constituídas nos dias de hoje. Inclusive, isso faz com que o termo parentalidade se torne “um significante-mestre de nossa civilização […] um equivalente da palavra ‘família.’”[9] Conforme afirma Christiane Alberti, há um aumento considerável de demandas por filhos endereçadas à ciência, “implicando uma maternidade em peças soltas […] [assim], a clássica atribuição ao pai da função da lei e à mãe da função do cuidado está definitivamente abalada.”[10]
[1] LACAN, J. Nota sobre o pai. Opção lacaniana, n. 71. São Paulo: Eolia, p. 7, 2015.
[2] MILLER, J.-A. O pai tornado vapor. Opção lacaniana, n. 88. São Paulo: Eolia, 2024.
[3] Ibid., p. 18.
[4] MILLER, J.-A. “Um real para o século XXI”. SCILICET: um real para o século XXI. Belo Horizonte: Scriptum, 2014. p.23.
[5] LAURENT, E. Racismo 2.0. Disponível em: O racismo 2.0 – II Jornada da EBP Seção Nordeste. Acesso em: 25 set. 2024.
[6] MILLER, J.-A. O pai tornado vapor. Opção lacaniana, n. 88. São Paulo: Eolia, p. 20, 2024.
[7] Ibid.
[8] ALBERTI, C. Être mère. Quelle question ! Disponível em: Être mère. Quelle question ! – Ecole de la Cause freudienne. Acesso em: 26 set. 2024. (Tradução nossa).
[9] LAURENT, E. Racismo 2.0. Disponível em: O racismo 2.0 – II Jornada da EBP Seção Nordeste. Acesso em: 27 set. 2024.
[10] ALBERTI, C. Être mère. Quelle question ! Disponível em : Être mère. Quelle question ! – Ecole de la Cause freudienne. Acesso em: 26 set. 2024. (Tradução nossa).
