Gustavo Ramos (EBP/AMP) - Diretor de Biblioteca da Seção Sul da EBP A atual gestão…
Ressonâncias sobre a atividade da Biblioteca da Seção Sul com Domenico Cosenza
Cynthia Gonçalves Gindro

A atividade da Biblioteca da Seção Sul sobre o livro de Domenico Cosenza: Clínica do Excesso – derivas pulsionais e soluções sintomáticas na psicopatologia contemporânea, chamou minha atenção pelo tema dos sintomas contemporâneos, pela sua incidência na clínica hoje e suas consequências no mal-estar da civilização.
A conversação na atividade foi esclarecendo e precipitando questões em torno da clínica e dos casos, principalmente de adolescentes que chegam ao Hospital-Dia em que trabalho em São Paulo.
O significante excesso aparece como central nessas soluções encontradas para o gozo, como destaca Domenico Cosenza, sendo encontrado nas intervenções um limite em relação à palavra, o que torna ainda mais difícil a prática e a transferência nesses casos. Além de não ser facilitado pelo atravessamento do discurso capitalista e sua parceria com o discurso da ciência moderna, no qual também se faz presente o excesso, quando colocado sempre à disposição da ilusão de uma solução, em que não se perde nada e se resolve tudo. Domenico Cosenza, sobre esse ponto, afirma no seu livro: “onde se assiste, como escreve Lacan em Radiofonia, de 1970, a ‘ascensão ao zênite social do objeto que chamo de pequeno a’. No discurso capitalista, assistimos a um contínuo movimento circular de reciclagem do gozo, em que o sujeito adia infinitamente seu encontro com a castração […]”[1]. Ou seja, trata-se de um impasse que se faz presente, na clínica hoje, de diversas maneiras.
E, para mim, insiste a pergunta, já que os casos chegam ao consultório e às instituições: ainda há um sofrimento; então, qual seria o lugar do analista?
Gustavo Ramos lança uma pergunta sobre a função do analista para a qual, a partir do que Domenico Cosenza diz na atividade, encontro um esclarecimento sobre o lugar do analista como “uma presença viva”[2]. O que também me leva a pensar justamente no que parece central nesses sintomas: uma recusa, que é esse “gozo, levado à sua máxima potência […] coincide com a pulsão de morte”[3]. Devendo, então, essa solução diante do gozo, ser escutada com atenção, já que é uma maneira encontrada pelo sujeito para agir, mesmo podendo levar à morte. Sendo uma solução sintomática de uma resposta à irrupção da angústia, mesmo de uma maneira autodestrutiva, como encontramos nos casos de toxicomanias, de cortes, da anorexia, bulimia etc.
Por isso, é nesse sentido que dificulta o laço, inclusive com o analista e o tratamento nesses casos. Existe um rechaço do Outro nessas soluções, uma dificuldade em suportar o limite do gozo que se encontra no laço; é uma modalidade de gozo que oferece algo irresistível, de “um prazer pleno e sem limites”[4]. Domenico Cosenza afirma: “Somente se o sujeito concordar em perder o gozo ele poderá encontrar um lugar no laço social […] da cessão do objeto a ao campo do Outro […] é justamente uma clínica do impasse desse processo de cessão constitutiva”[5]. Considerando esse impasse, existiria uma abertura possível?
Na atividade da Biblioteca, Domenico diz que, nesses casos, de um certo modo, podemos dizer que a vertente do amor é mais importante na presença do analista, indicando para uma presença que se refere a uma presença real do analista, diferente da vertente do sujeito suposto saber. E parece muito interessante quando diz de uma “prova de fogo”, que se coloca ao analista, para verificar se tem ou não lugar no desejo do Outro. Seria, então, essa a abertura por onde o analista pode entrar para uma transferência ser possível?
Muitos casos, principalmente de jovens, me parecem evidenciar essa clínica do excesso. Mas, um caso de um adolescente, que chega ao Hospital-Dia, coloca algumas dificuldades nesse sentido. Ele faz uso abusivo de substâncias e já esteve internado muitas vezes. O lugar que aparece e dificulta os laços é do “delinquente”, do “ruim” etc., ficando muitas vezes excluído, por se colocar nesse lugar e agir a partir dele, chegando até a dormir na rua. Ao frequentar o Hospital-Dia, tem momentos difíceis com outros pacientes, na instituição e com a família. Em um desses momentos difíceis de brigas entre ele e a mãe, a praticante liga para ele e faz uma intervenção para que ele consiga voltar para a casa da mãe e dormir lá, com o combinado de não usar droga, não brigar e ir ao Hospital-Dia nos dias seguintes. Algo parece mudar na transferência depois disso; ele mesmo se surpreende com a ligação e expressa com agradecimento. Assim, outras possibilidades para ele começam a surgir no tratamento sob transferências: vai frequentemente às terapias e começa a aceitar uma medicação para a redução do uso de droga.
Este caso mostra como a toxicomania pode ser uma solução sintomática encontrada pelo sujeito para não ceder sua posição de gozo, ficando mais uma vez no lugar do “delinquente”, que não tem solução. Localizar essa resposta sintomática, mostra a importância da posição do analista como vivo, para intervir sob esse gozo, para que o paciente possa consentir com a sua presença e ceder, sob transferência algo do seu gozo. Como em se surpreender com algo que não esperava da analista – como uma ligação em um momento difícil de briga com a mãe, o remete também a uma surpresa de si mesmo, e assim, cedendo esse gozo ao consentir em ir ao tratamento e diminuir o uso de drogas, apresenta um indício de como a partir de uma abertura promovida pela presença do analista, se possa promover uma reconfiguração no seu sofrimento.
[1] COSENZA, D., Clínica do excesso: derivas pulsionais e soluções sintomáticas na psicopatologia contemporânea. Tradução: Cinthia Oliveira Demaria. Belo Horizonte. Scriptum, 2024., p. 92.
[2] Ibid., p. 78.
[3] Ibid., p. 71.
[4] Ibid., p. 67.
[5] Ibid., p. 65.
