Gustavo Ramos (EBP/AMP) - Diretor de Biblioteca da Seção Sul da EBP A atual gestão…
Que partenaire hoje?
Paula Nathalie Nocquet

Uma pergunta me retornou ao participar da tarde de Biblioteca com Domenico Cosenza sobre seu livro, a Clínica do Excesso, uma pergunta que costumo me fazer em supervisão com inícios de tratamento é: que partenaire possível para cada paciente? Quer dizer, com quem jogamos a partida numa análise?
Cosenza, longe de qualquer discurso saudosista ou fatalista, mas com entusiasmo, nos transmite a necessidade de o analista estar mais vivo hoje na clínica. Se todos estamos casados com algo, é preciso buscar com o quê; buscar o partenaire.
Revisitar um texto, por vezes permite relê-lo com novos matizes. Ocorreu-me recentemente com Lacan, em A direção do tratamento e os princípios de seu poder[1], que em certa medida, podemos dizer que traz uma perspectiva da ação do analista, e das decisões que o analista precisa tomar na direção da cura. O que faz um analista? Nesse texto, contesta um livro que compilava diversos trabalhos de seus colegas da IPA sobre a psicanálise daquele período, diferencia entre o exercício de um poder e o de sustentar uma prática, assim como não se trata de dirigir um paciente, mas sim de dirigir a cura.
O analisante se põe a trabalho, mas o analista dirige a cura, faz o ato analítico e é disso que ele é responsável. Ou seja, não é apenas o analisante que paga, o analista também tem que pagar. Paga com suas palavras devido ao efeito que pode haver de interpretação destas quando proferidas, paga com sua pessoa e com o juízo mais íntimo de seu ser.
Para isso, podemos dizer que o analista também precisa consentir num início de tratamento. A que ele consente? À transferência, a ser tomado como objeto – na melhor das hipóteses hoje em dia, em que às vezes é preciso fazer um esforço a mais para isso. Se seguimos as distintas formulações durante o ensino de Lacan em relação ao analista, é possível ler que há um vaso conector desde a via do tao, do jogo de bridge, dos discursos – para citar alguns – e que o analista não é um sujeito, mas isso não quer dizer que nada faz.
Ao analista não lhe cabe dirigir-se à adaptação da realidade dizendo, por exemplo não, eu não sou seu pai, você está me colocando como tal, mas de consentir a esse lugar e depois na direção da cura será questão de ver como manobrar com isso. Por isso coloca a transferência como uma estratégia na qual o analista não é muito livre, devido ao lugar que o analisante lhe confere. A partir disso se joga a partida, ali localiza-se a ação do analista.
Miller elucida que recorrer ao analista é de certa maneira “introduzir um partenaire suplementário na partida que joga o sujeito com um partenaire, até tal ponto que poderíamos dizer, ainda que é mais complexo, que o que chamamos a clínica, seria o partenaire”.[2] E, talvez, possamos inverter a questão, como traz Graciela Brodsky[3]: quem é o partenaire do analista? A quem dirigimos a interpretação? Seria o eu? O desejo? O sujeito? Ainda que dependa do momento do ensino de Lacan que falamos, responde que, no último ensino, o partenaire do analista deixa de ser o sujeito para então ser o gozo.
A clínica do partenaire, em que o gozo se apresenta como sintoma, abre um espaço para elaboração, para pensar a clínica, como no seminário 23, em termos de suturas, emendas e arranjos?
Deslizo minha pergunta inicial a uma outra questão, uma de Lacan, do texto acima mencionado; quem analisa hoje? Talvez possamos tomá-la como um convite para trazê-la em discussão, em um relevo distinto.
[1] LACAN, J. A direção do tratamento e os princípios de seu poder (1958). Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998, pp.591-652.
[2] MILLER, J-A. El Otro que no existe y sus comités de ética. con la colaboración de Éric Laurent. Texto establecido por Graciela Brodsky. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Paidós, 2018, p.283.
[3] BRODSKY, G. La táctica de la interpretación. Em: La Cura Psicoanalítica: su Lógica y su Dirección. GLM. Buenos Aires: Grama, 2015.
