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Cante com Sade: supereu em tom menor

Élida Biasoli Lenci
Coordenadora da Comissão de Acolhimento e Festa das XIV Jornadas da EBP-SP

Jefferson Nascimento
Participante da Comissão de Acolhimento e Festa das XIV Jornadas da EBP-SP

A nossa festa já tem nome: Cante com Sade. A psicanálise nos ensina, desde Freud, a levar a sério a dimensão do chiste e as peças que a homofonia nos prega, como no divertido deslizamento do nome do escrito lacaniano Kant com Sade[1] para um inusitado Cante com Sade.

Retomemos brevemente esse texto lacaniano de 1966. Nele, Lacan demonstra que a lei moral kantiana e o imperativo sadeano compartilham a mesma espinha dorsal lógica: ambos exigem a submissão incondicional do sujeito a um mandamento que opera no absoluto, completamente descolado do bem-estar, da utilidade ou do princípio do prazer. Kant revela a forma pura do dever. O Marquês de Sade, por sua vez, explicita a verdade obscena que sustenta essa exigência. É a partir desse desvelamento que podemos situar a injunção paradoxal nomeada por Freud como supereu[2]. Ao contrário do senso comum que o reduz a um mero agente castrador, o supereu não se contenta em dizer «não goze». Sua verdadeira face é feroz e afirmativa. Como formula Lacan no seminário 20, o supereu é o imperativo que ordena: “Goza!”[3], uma voracidade estrutural da qual o sujeito é presa.

Tomemos o exemplo da cantora e compositora nigeriana-britânica, Sade Adu, que construiu sua estética em um registro vocal e instrumental marcado pela suavidade e por uma atmosfera de intimidade e autenticidade. Como ela mesma declara em uma entrevista amplamente divulgada na internet, ela “canta o que vive, porque qualquer outra coisa seria falsa.”.

Em canções como No Ordinary Love, a letra carrega uma radicalidade que rompe com qualquer cálculo de benefícios: “I gave you all the love I got”[4]. Há nessa insistência amorosa uma obstinação que permanece apesar da dor. Seria uma fidelidade a um imperativo de gozo que se configura como uma submissão ao excesso mortífero? A voz doce presentifica, ao mesmo tempo, um dever impossível de abandonar. Em vez do estrondo do trovão moral ou do grito do tirano, deparamo-nos com o que poderíamos chamar de um supereu em tom menor. É precisamente nessa torção que vale ressaltar que o imperativo superegóico não é tratado pela via da domesticação – uma tarefa fadada ao fracasso, posto que o supereu se nutre das próprias renúncias do sujeito[5] -, mas sim pela via de interrogar o que fazer com a pulsão que nos comanda para além do princípio do prazer. É aí que a via da sublimação atua: em vez da fixação na pura devastação, o sujeito engaja-se em transmutar essa lei insensata, deslocando o gozo para a construção de uma obra viva.

É apostando no furo dessa lei insensata, e extraindo dela a sua face sublimatória e festiva, que lançamos aqui a festa das XIV Jornadas: Cante com Sade. Afrouxem o cerco da culpa, deixem o fardo da razão prática na chapelaria e venham dar corpo e voz a uma satisfação possível. Vocês estão todos intimados a comparecer. E, desta vez, ceder a esse empuxo será o nosso melhor sintoma.

Anotem aí:

➤ A festa será na Casa Bartira, dia 17 de outubro de 2026, rua Bartira, 625, das 20h às 02:00h.

➤ Com música boa, comidas e bebidas à vontade (Em breve, lançaremos o cardápio).

Valor do ingresso:

  • Até dia 15/09 – R$230,00
  • Após dia 15/09 – R$250,00

➤ Pagamento só no Pix: CNPJ 02.252.068/0001-93, Escola Brasileira de Psicanálise Seção São Paulo. Depois é só mandar um e-mail pra gente com o comprovante de pagamento e seu nome. Aí aguarde um pouquinho que em breve você receberá um e-mail com a comprovação.

e-mail: festa.jornadas.ebpsp@gmail.com

➤ Cheguem cedo, uma SURPRESA aguarda vocês às 21h!

 

[1]  LACAN, J. Kant com Sade (1966). In: LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

[2]  FREUD, S. O eu e o id (1923). In: FREUD, S. Obras completas, v. 16. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

[3]  LACAN, J. O Seminário, livro 20: Mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

[4]  SADE. No ordinary love. Intérprete: Sade. Compositores: Sade Adu e Stuart Matthewman. In: Love Deluxe. [S.l.]: Epic Records, 1992. 1 faixa de áudio. Disponível em: https://music.youtube.com. Acesso em: 23 jun. 2026.

[5] FREUD, S. O mal-estar na cultura (1930). In: FREUD, S. Obras completas, v. 18. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 13-122.

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