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Editorial Boletim Mnemis #00

Ary Farias
Coordenador da Comissão de Boletim das V Jornadas SLO

… e o corpo, que é máquina de exílios,
destampa em nós a inundação que é pura sede.
E cada qual bebe o seu rio.
Salgado Maranhão.

Eis aqui o MNEMIS, o Boletim das V Jornadas da Seção Leste-Oeste da Escola Brasileira de Psicanálise. Este encontro terá por tema Corpo e Memória, estratos inerentes ao falasser cujo elo ou amarração tomaremos por Traço. Portanto, corpo—memória.

Nosso boletim ao ser batizado com um significante que alude apenas o viés mnemônico, não constrói uma tendência, uma parcialidade… apenas toma por subentendido que a memória, necessariamente, se ancora num corpo, se espraia em seus tecidos. O corpo compreendido pela psicanálise é o corpo sob os efeitos da infecção da linguagem, logo, dado à rotina do sintoma (memórias seletas) e do gozo.

Se Lacan, no Seminário 4, pôde dizer que “todas as pertinências do corpo entram em jogo e são transformadas por seu advento no significante”, podemos derivar daí também a presença constante da memória, não só como registro fiel dos fatos, mas sobretudo servindo também aos arranjos delirantes com que cada sujeito escreve sua mitologia individual. Nesse sentido, podemos admitir que a memória figura como suporte privilegiado do significante, incluindo aí o S1, que embora inacessível, funciona como projeção retroativa, cálculo e eixo orbital do enxame significante que traduz uma existência. Isso corrobora que mesmo naqueles casos em que a memória eclode como pura ressurreição da cena, mesmo ali, o significante nunca estará alijado, uma vez que ocupa o núcleo estrutural do fenômeno mnêmico.

Assim sendo, o fato memorável ou memorizado resulta de um registro significante operado na esteira da linguagem, ao mesmo tempo em que representa a suspensão da sua existência. Essa coesão íntima entre a contingência, o imaginário e o significante, de algum modo, desconcertam a anatomia e faz pulsar o corpo, esse lugar onde a memória assola e insiste. A essa condição incoercível, sobretudo no obsessivo, Lacan, em dado momento, apontou seus efeitos com o que chamou de “tirania da memória”, estabelecendo aí a condição elementar do que temos por estrutura, ou seja, na reverberação mnêmica, institui-se para cada sujeito um paradigma de gozo e laço.

Enfim, de um modo geral, essa será a perspectiva que reservamos para chamar a comunidade analítica ao trabalho, um modo de convocar uma conversação e alavancar construtos teóricos necessários à prática clínica, que sempre se apresenta com pontos de irresolução candentes. Erige-se dessa condição a necessidade de uma formação permanente, uma vez que devemos dispensar a tentação de que podemos “prevalecer de uma formação acabada”. A psicanálise figura como um contraponto ao imediatismo contemporâneo.

As V Jornadas da SLO acontecerão em setembro na cidade de Vitória, no Espírito Santo.

Adotamos para compor esse boletim, MNEMIS ZERO, além das informações preambulares e a apresentação de todas as pessoas envolvidas nesse trabalho, o texto fundante que é o Argumento produzido por Cláudia Murta, Coordenadora dessas Jornadas. E, como deve ser todo Argumento, um convite e, ao mesmo tempo, uma bússola. Uma proposição que busca envolver e aspira fundar um desejo. No caso, não um desejo qualquer, mas um desejo assinado, fruto de uma transferência de trabalho, um dos nomes do amor.

É isso!

Aqui o MNEMIS ZERO!

Que seus olhos sejam atendidos!

Boa leitura!

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