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A parceria sintomática por uma escrita plena

Fernanda Marra
dizamarra@gmail.com
(62) 98143-0493

À leitura das cartas de Joyce para Nora, vem se juntar esta outra: a carta que André Gorz, escritor vienense, filho de mãe católica e pai judeu, escreveu à esposa inglesa, Dorine, após 58 anos ao seu lado. A carta é uma elaboração acerca dessa parceria amorosa e longeva, que o escritor foi capaz de fazer ao fim da vida, quando reconhece que não apenas viveu um encontro amoroso, mas que ele foi para si a causa.

Antes de Dorine, o desejo de André estivera ancorado na fantasia de escrever para não existir. O autor explicita a opção que fizera pelo uso da terceira pessoa em seus textos: “A terceira pessoa me mantinha à distância de mim mesmo, me permitia elaborar, numa linguagem neutra, codificada, um retrato quase clínico do meu jeito de ser e de funcionar”[1]. A carta a Dorine é um ponto de inflexão dessa escrita, cuja forma exige que o sujeito se implique no dizer. Dizer “eu” é possível na medida em que o autor está diante dessa outra, sua parceira no sintoma e na vida.

Reconhecendo os revezes e revezamentos que fazem consistir esse relacionamento, a carta sobrevive ao casal e nos chega noticiando o encontro que se escreveu a despeito da não-relação sexual. Para o homem, Dorine é a estrangeira que o faz se sentir em casa: “Com você, eu estava em outro lugar; um lugar estrangeiro, estrangeiro a mim mesmo. Você me dava acesso a uma dimensão de alteridade suplementar”[2]. Por outro lado, a mulher parece haver encontrado no parceiro silencioso e obcecado pela escrita a liberdade para se exprimir e transitar pelo mundo dedicando-se ao teatro, às leituras, ao trabalho de secretariá-lo e acompanhá-lo ativamente pelo mundo.

Vale conferir a história desse amor pelas linhas que o escritor deixou como um testemunho de que o encontro sim escreve.

 

[1] GORZ, André. Carta a D.: História de um amor. Trad. Celso Azzan Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. 65-66.
[2] Ibid, p. 16.

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