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“Objetos em análise”

MARCUS ANDRÉ VIEIRA– (AME-EBP/AMP):

Como é curiosa uma análise: buscamos o segredo de nossa existência como sujeitos, só que a cada vez que encontramos uma lembrança em que vibra a certeza de que ali mais que nunca estávamos vivos, estamos em cena como objeto – cuidados, abusados ou desprezados pelos próximos.

Como nada há que não passe pelo Outro, em vez nos guiarmos por ideais de autonomia e separação, uma análise pode levar a nos apropriarmos de nossa posição viva e concreta de objeto. Para isso, serão fundamentais não apenas os momentos em que fomos objeto, mas igualmente os objetos que pudemos extrair do Outro, tornando-os especiais: um travesseiro sujo, um bichinho de pelúcia etc. Quanto mais inúteis ou desconsiderados, melhor por parecem escapar do Outro – a ponto de Lacan delimitar como resto a figuração maior do real dos objetos de uma análise.[i]

Esses nossos objetos a instauram um espaço ambíguo, de extimidade: nem meu, nem do Outro, seguindo coordenadas fantasmáticas definidas pelo modo como são decaídos. Declinam verdadeiras eróticas distintas. À erótica oral (cospe-engole, tudo ou nada) e à erótica anal (do prazer em reter, circunscrever, colecionar), Lacan acrescenta a do olhar e a da voz. A primeira não é a da visão, mas do arrebatamento por um olhar que toma o corpo. Já a voz, por não respeitar os limites corporais, delimita uma erótica de dissolução subjetiva num uníssono sonoro, por exemplo.

Essa lista de eróticas era, até ontem, submetida à erótica fálica, dita genital – de dois sexos supostamente complementares. Em tempos de ocaso do pai, os objetos ditos pré-genitais se espalham de modo independente e novos objetos vêm ganhar a cena, na qual o falo é apenas um entre outros, não mais o significante do desejo e da partilha sexual.

As análises parecem se mover num campo clássico delimitado pela estrutura da fantasia coordenada ao falo. Ao mesmo tempo, cada análise segue em direção ao atravessamento da fantasia – em nova relação que promova a contingência por esvaziamento do valor de real do falo e dos objetos a.

Por isso, em contraposição ao real da fantasia, podemos falar em invenção. Neste campo, bem mais geral, não há objetos êxtimos ou de exceção. Teremos apenas elementos subjetivos dispersos, “materiais preexistentes” com os quais montam-se arranjos, bricolagens, gambiarras subjetivas para localizar o real com estabilidade e laço.[ii]

O artista, para variar, nos antecede. A arte, dita contemporânea, promove essa multiplicidade do objeto, assim como a implosão do meio, do enquadre. Há uma representatividade múltipla, que se constrói durante o processo de cada montagem. Em vez de experiências singulares pelo encontro com a obra de arte, bricolagem. O artista se esforçou para se libertar dos enquadres da cultura, em busca de um rompimento com o círculo fechado da estética representativa. A distinção entre a obra, como objeto de exposição, e o espectador ainda se mantém, mas se encontra bastante abalada. O objeto artístico torna-se mais maleável, sofre esvaziamento de seu status de excepcionalidade e estilhaça-se. Tudo pode ser arte. Muitas produções optaram por intervenções mais próximas de uma tentativa de construir uma ideia, de produzir uma experiência.[iii]

Se vale destacar, com J. A. Miller, o termo invenção, tomando-o como gambiarra subjetiva, é porque com ele nos deslocamos na clínica psicanalítica de maneira análoga a este campo mais geral das manifestações artísticas.[iv] Podemos opor, por exemplo, o objeto na fantasia e na bricolagem, como faz E. Laurent ao opor obra e instalação.[v] No primeiro caso, destaca-se a produção de um objeto “em torno do vazio”, segundo a definição de Lacan para a sublimação da Coisa, que encontra seu exemplo heideggeriano paradigmático no vaso e seu artífice no oleiro.[vi] O segundo é o da instalação. O gozo do sintoma aqui não se localiza do mesmo modo, não há centro e o real é o do acontecimento contingente mais que o do encontro.[vii]

Chamaremos, então, as invenções de soluções sinthomáticas a partir da ideia de que é possível aproximar a invenção do trabalho de Lacan com Joyce. O modelo aqui é o da trança, base do nó borromeano.[viii] Ninguém inventa uma solução, ao contrário, tece uma trama que cria um sujeito, o que envolve necessariamente a produção de um lugar para si, estável, no Outro que talvez possa ser denominada uma política do sinthoma.[ix]

 

[i] Nossos os objetos a estabelecem todo um jogo de relações entre o eu e o Outro em que a distância não está definida, mas se define no próprio jogo. São objetos que garantem a distância mínima que permite a alguém começar a dizer “eu” e poder importar significados do Outro, que agora virão se instalar no espaço do ego (cf. Vieira, M. A. Restos, Rio de Janeiro Contra Capa, 2009, p. 35).

[ii] Cf. Miller, J.-A. A invenção psicótica, Opção Lacaniana, n.º 36, São Paulo, Eolia, 2003, pp. 7 – 16 e Vieira, M. A. Vieira, M. A. Com quantos elementos se faz uma invenção, Latusa, n. 25 – Impossível tirar o corpo fora: Exílios e confinamentos, EBP-Rio / Contracapa, Rio de Janeiro, 2021, disponível em https://litura.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Com-quantos-elementos-se-faz-uma-invencao.pdf).

[iii] A obra “instalação” é composta de uma disposição de elementos no espaço em relação com aquele que com ela se encontra, seu acontecimento é sua vocação. Para um ensaio preciso sobre o tema, inclusive articulando “instalação” e a leitura do conto “A carta roubada” por Lacan, cf. Krauss, R. Under blue cup, Massachusetts, MIT, 2011. Outra obra indispensável: Mammi, L. O que resta – arte e crítica da arte, São Paulo, Cia das Letras, 2012.

[iv] Cf. Vieira. M. A. art. Cit.

[v] Laurent, E. “Interpretar la psicosis em el cotidiano”, Psicoanalisis y salud mental, Buenos Aires, Tres Haches, 2001 e Laurent, E. “Interpretar a psicose no cotidiano”. In Revista Entrevários (CLIN-a) nº 2. São Paulo.

[vi] Cf. Regnault. F. “Três conferências sobre a arte”, Em torno do Vazio. Rio de Janeiro: Contracapa, 2001.

[vii] Podemos acrescentar a divisão entre finito e infinito. Na criação, o fazer é finito, já o objeto é infinito (no sentido em que ele se presta às mais variadas leituras, inesgotáveis por definição). Na invenção, o fazer é que será infinito, enquanto os materiais-objeto são finitos. Finalmente, na invenção, a ideia de laço é intrínseca, possivelmente pelo fato de ela ser sempre um meio mais que um fim, enquanto o artista típico, oleiro, é aquele cuja obra é o fim. O inventor típico é justamente aquele que faz para o mundo, seja um mundo delirado ou não.

[viii] Como uma segunda teoria da sublimação no ensino de Lacan a partir do conceito de “escabelo” (cf. Miller, J. A. Piezas sueltas, Buenos Aires, Paidós, 2013, cap VI). Para a aproximação entre sinthoma, Arthur Bispo do Rosário e gambiarra cf. Vieira, M. A. art. cit. E Teixeira, A. “A aura da gambiarra”, Mosaico: Estudos em Psicologia, v. 7, n.º 1. p. 45-60, 2020.

[ix] Cf. Miller, J.-A. La experiencia de lo real en la cura psicoanalítica. Buenos Aires: Paidós, 2003, especialmente as aulas XXI e XXII.

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