Fernanda Marra dizamarra@gmail.com (62) 98143-0493 À leitura das cartas de Joyce para Nora, vem se…
O real é a nossa aspiração (PARTE II)
Pierre Sidon
Alienados e separados
Para J.-A. Miller, o gozo tem a estrutura da toxicomania: “A linguagem introduz neste registo de gozo […] a repetição do Um que celebra uma irrupção inesquecível de gozo. O sujeito vê-se, então, preso a um ciclo de repetições […] cujas experiências nada lhe ensinam. É o que chamamos hoje de adicção […] porque as experiências não se adicionam.” (20) O que é este Um que a experiência da adicção revela? Trata-se da ubiquidade do desprezo e está a céu aberto. A dimensão melancólica é universal, nestes casos, e não depende das modalidades práticas da adicção, do produto consumido ou da atividade compulsiva em questão: a verdade está no sujeito, não no produto. Há bem pouco sujeito, é muito mais um objeto dejeto, que é o que a adicção ajuda a conseguir numa diversão inicial que acaba por acelerar o seu destino fatal.
As modalidades de desprezo podem ser decompostas segundo as nuances da língua: ter sido desprezado, no sentido de abjeção, ou ignorado corresponde às modalidades de rejeição que determinaram as circunstâncias de acolhimento do sujeito na vida. As posições clínicas relativas ao lugar no discurso do Outro situam-se neste continuum: entre o objeto do fantasma, na melancolia – que faz dela a raiz da paranoia, que ela testemunha um esforço de reação – e o abandono radical, na esquizofrenia.
Mas se, para Jacques-Alain Miller, “Lacan apresenta a sua articulação da alienação e da separação, isto é, da alienação simbólica e da separação real, da separação pulsional” (21), a petrificação do desprezo testemunha uma não-separação do gozo: a alienação encontra, aí, a sua razão e esta escolha “insondável”, e “a escolha da psicose”, diz Jacques-Alain Miller (…) é a escolha (…) de um sujeito que faz objeção à falta a ser que o constitui na linguagem. É uma escolha que é exatamente uma des-escolha.” (22) Des-escolha, livre, “livre como uma queda”, como diz Jean-Claude Milner. (23) O adicto está alienado, alienado ao gozo. Simplesmente tentou substituí-lo, não sem alguns efeitos de separação, alguma prática compulsiva, algum expediente: um falso real… efeitos não menos reais: por vezes para pior.
Todos alienados
A “chuva de objetos”, como escreve Jacques-Alain Miller (24), submerge os corpos de próteses, latusas, dos quais é impossível escapar. A técnica é o câncer do real. É assim que somos todos obrigados, de uma forma ou de outra, a estarmos preparados para isto. O marketing e a publicidade fazem de tudo para sugerir práticas que podem ser enxertadas no aparelho de realidade de cada um de nós. É “a mentira da civilização, escreve Éric Laurent, nesta troca entre a singularidade da extração [do objeto a] e o que é oferecido industrialmente”. (25) Algumas pessoas entregam-se ao entretenimento da promessa, enquanto, na ausência da intercessão do fantasma ou de uma suplência sólida, outras sucumbem à adicção na medida dos efeitos de alívio que dela obtiveram.
Na teorização de Lacan, as fórmulas dos Discursos sucedem ao par alienação-separação. A nova escrita teoriza, agora, a fórmula do fora do discurso inscrita pelo Discurso Capitalista: o curto-circuito entre $ e a indica a não separação dos sujeitos do gozo e a depreciação do circuito da fala: “Nós vivemos numa zona de civilização onde, como se diz, a fala é livre, o que significa que nada do que se diz pode ter consequências.” (26)
É também uma teorização muito mais convincente da intuição genial de Marx concernente à alienação à mercadoria: a identificação ao objeto produzido, nos Manuscritos, de 1944, e a elevação do objeto contra o seu produtor, em A Ideologia Alemã. É também mais convincente que as dos seus sucessores, filósofos sociais da Escola de Frankfurt, cujo mérito não é menor que o de terem, mesmo assim, popularizado os significantes da reificação e do desprezo, que são metonímicos. Em consequência, também, surge a cota de arrogância do wokismo e dos prides (orgulhosos) que são a sua formação reativa. Nas adicções, as comunidades de Anônimos destacaram, de forma conclusiva, a necessidade de lidar com o orgulho, que é também uma emanação. Mas, também aqui, é preciso notar, pela primeira vez, a ênfase de Lacan ao desprezo como “rejeição do ser”, na sua lição de 20 de março de 1973, no Seminário Mais Ainda (27), que Jacques-Alain Miller comentou nas suas Cartas à opinião esclarecida (28). O que é que Freud, Marx, Lénin e Lacan têm em comum quanto ao desprezo? A orientação para o real.
O desprezo é generalizado no discurso capitalista: onde cresce o real, cresce também a alienação… mas não apenas em relação às mercadorias. Os “monumentos de debilidade mental”, para usar a expressão de Serge Cottet, encontram aí seu combustível. As consequências são os impasses políticos e o confronto generalizado. O capitalismo terá que integrar, como fez no século XIX com a medicina do trabalho, os efeitos devastadores que gera e que o ameaçam. Há uma outra ecologia: a do falasser.
Libertar o real?
Para Goodman, a ideia de perda de controle faz parecer atraente um tratamento simples que poderia ser simplesmente aplicado… por simples operadores. As fast-thérapies (terapias-breves), que não escapam ao mercado do bem-estar, ao “mercado do mental”, como diz Jacques-Alain Miller (29), prosperam com esta esperança de recuperar o controle. Thomas Insel – que deixou o NIMH e depois a Alphabet para fundar a sua própria start-up com o objetivo de criar um aplicativo para smartphone – não traz, com isso, um sintoma menor, pois, a inteligência artificial poderia ser suficiente se a causalidade fosse linear e simples: A è B. Entretanto, na prática não é assim, pois não é um pensamento que passa ao ato, mas um real que performa, ataca. Aqui, o eixo imaginário a-a’, outrora em causa no confronto especular, revela-se real: é o dejeto, a vítima, que ataca. A atualidade ilustra isso claramente.
O simbólico, que engolfa o obsessivo, só é performativo no seu limite, onde entra em contato com o real, como significante sozinho, no real: “o ato tem sempre lugar de um dizer. Isto significa que não basta um fazer para que haja ato, não basta que haja movimento, ação, há de haver também um dizer que enquadre e fixe esse ato (30). Quando este dizer está impregnado de imaginário, como nota Clérambault a propósito da erotomania, “a intensidade afetiva é menos intensa, ele apresenta ao sentimento todas as degradações da paixão; o desenvolvimento lógico é também, nestes casos, menos implacável, a passagem aos atos menos imperiosa, a evolução menos rigorosa” (31). É, de fato, a oposição entre o real e o semblante (imaginário e simbólico) que melhor exemplifica a performatividade do real, pois trata-se de um furo — como nos explica Lacan: “Trata-se de partir da ideia de furo, de dizer não “fiat lux”, mas “fiat furo”, e pensem que Freud, ao avançar a ideia de inconsciente, não fez outra coisa. Muito cedo, ele disse haver algo que faz furo e à sua volta se reparte o inconsciente. E este inconsciente tem a propriedade de não ser mais que aspirado por esse furo, tão bem aspirado que não se tem o hábito – cabe dizê-lo – de reter sequer um pedacinho dele, ele se safa por completo dentro desse furo.” (32)
Se a civilização não é aquilo que se agrega a uma religião, como afirmava idealmente Malraux, mas a “evacuação da merda” (33) e o “esgoto” (34), como Lacan o formulava de maneira inaudita no final dos anos 1970, então é a vergonha que acompanha o indivíduo contemporâneo como a sua sombra e indexa o dejeto que o caracteriza. As chamadas identidades que invadem a política são assim afins à injúria que prolifera e se conjuga com a identificação dos seres a seus corpos, uma vez que o des-ser dos indivíduos, no Discurso Capitalista, os priva de “terem” seus corpos (35). Outra forma de dizer que estão alienados.
Daí o clima de melancolia que caracteriza a nossa época. Vejamos a recente necessidade de inscrição – no Direito, do Conselho Constitucional (36) – do princípio constitucional da salvaguarda da dignidade da pessoa humana contra todas as formas de escravatura e degradação (37): quando o axioma já não é óbvio, precisa de ser escrito.
Lacan nos ensina que o ato analítico, à semelhança da passagem ao ato, também extrai uma energia, tal como a nuclear, do real (38). O ódio e a loucura do laço social são, assim, o efeito do empowerment (empoderamento) desse real, continuamente alimentado pela ciência e pela técnica (39). A psicanálise propõe um tratamento totalmente diferente deste real: enquanto os prides procuram positivar o dejeto que subiu ao zénite da civilização sob o estatuto de vítima, o psicanalista usinou longamente a “sujeira” íntima percebida na sua própria análise. O núcleo incurável que disso lhe resta, refinado, reduzido, circunscrito, talhado e comprimido, é o diamante negro que alimenta a força do seu ato. Ele o desaloja do “saldo cínico” (40), da “solidão subjetiva da relação à Coisa” e impulsionando-o “de novo para o Outro, como experiência feita de sua própria falha.” (41)
Será que estamos à altura do real que nos aspira? Esperamos que sim.
Tradução: Anna Rogéria N. de Oliveira (EBP/AMP)
Primeira revisão: Juliana Bressanelli Lóra
Revisão final: Bartyra Ribeiro de Castro (EBP/AMP)
20 Miller J.-A., “L’orientation lacanienne. L’Un tout seul“, conferência proferida no departamento de psicanálise da Universidade de Paris 8, 23 de março de 2011, inédito.
21 Miller J.-A. Cours l’orientation lacanienne, realizado no âmbito do Departamento de Psicanálise da Universidade de Paris 8, 1612.98, inédito.
22 Miller J.-A., “Produire le sujet?”, Actes de l’ECF, revue de psychanalyse No. 4, maio de 1983: “La clinique psychanalytique des psychoses”, p. 50.
23 Milner J.-C., Le juif de savoir, Verdier, Grasset, 2007 p. 204.
24 Miller J.-A., “Tombeau de l’homme-de-gauche“, Le Monde, 3 de dezembro de 2002.
25 Laurent É., “Métamorphose et extraction de l’objet a“, La Cause freudienne, n° 69, setembro de 2008, p. 43.
26 Lacan J., O seminário: o ato psicanalítico (1967-1968). Livro 15. (s.d., versão anônima)
27 Lacan J., O seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
28 Miller J.-A. Cartas à Opinião Esclarecida (trad.), de Jacques-Alain Miller (2000).
29 Miller J.-A., “Autodialogue imaginaire sur la vraie question des thérapies comportementales”, Rebonds, Journal Libération, 28 de setembro de 2005, página 32.
30 Miller J.-A., “Lacan, remarques sur son concept de passage à l’acte Mental”, n° 17, abril de 2006, p. 25.
31 Clérambault G.-G., Œuvre psychiatrique, PUF, Tomo 1, 1942, p. 400.
32 Lacan J., Encerramento das Jornadas de Estudos de Cartéis da Escola Freudiana, in https://pharmakondigital.com/encerramento-das-jornadas-de-estudos-de-carteis-da-escola-freudiana/
33 Lacan J., Mon enseignement, Paris, Seuil, 2005, p. 82-85.
34 Lacan J., “Lituraterre”, Autres écrits, Paris, Seuil, 2001, p. 11.
35 Lacan J. “Joyce le symptôme”, Autres écrits, Paris, Seuil, 2001, p. 565.
36 “A dignidade humana só recentemente surgiu como conceito no direito positivo. Como vimos, o termo “dignidade” não aparece nas declarações adoptadas pelos Estados Unidos e pela França no final do século XVIII, nem nos textos subsequentes durante quase dois séculos. Tradicionalmente, as cartas e as declarações de direitos baseavam-se mais nas noções de liberdade e de igualdade do que na dignidade”, in “La dignité en Droit : un axiome”, Fabre-Magnan M., Revue interdisciplinaire d’études juridiques, 2007/1 (Volume 58), pp. 1-30.
37 Decisão “Bioética” de 27 de julho de 1994, na Internet: https://www.conseil-constitutionnel.fr/la-constitution/la-dignite-dela-personne-humaine
38 Cf. Miller J.-A., “Jacques Lacan, remarques sur son concept de passage à l’acte”, Mental n°17, 2006.
39 Lacan J., Le Séminaire, livre xi, Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse, Paris, Seuil, 1973, p. 232.
40 Lacan J., “L’acte psychanalytique. Compte rendu du Séminaire 1967-68” (1969), Autres écrits, Paris, Le Seuil, 2001, p. 380.
41 Miller J.-A., L’orientation lacanienne, Extimité, conferência proferida no departamento de psicanálise da Universidade de Paris VIII, curso de 15 de janeiro de 1986, inédito.