Uma diferença sutil de grande alcance

Por Ana Tereza de Faria Groisman

Boa noite.

Minha contribuição diz respeito a dois pontos que destacamos do caso de Lucia Tower: o inconsciente do analista e o desejo do analista; dois pontos que podem ser lidos num mesmo eixo. 

Lucia nos ensina sobre o deslocamento, num percurso de formação, do desejo de tornar-se analista para o Desejo do analista; desejos quase antinômicos entre si e que, ao mesmo tempo, mantém uma relação paradoxal. Se de início poderíamos supor que logicamente um levaria ao outro, afinal, busca-se uma formação a partir do primeiro, logo percebemos que um é entrave para o outro. Jacques Alain Miller nos adverte que o desejo de ser analista é, no fundo, de qualidade bem duvidosa1.

Quando Lucia nos revela que o que a orientava era uma “atitude terapêutica desejável de infinita paciência e esforço de compreensão”, percebemos que tal atitude não estava aberta à contingência do encontro com a paciente; era um ideal terapêutico que a impedia de escutar algo da transferência. A reação contra-transferencial do acting out coloca em evidência sua porção de resistência ao tratamento. Mas, num movimento freudiano, Lucia não recua diante disso. Ao contrário, tira consequências daquilo que aparece como rasura no tratamento, como o que, ao se apagar, destaca a presença do inconsciente na cena. O que nos pareceu interessante de destacar nesse caso diz respeito ao fato de que, ao contrário dos teóricos da contratransferência, ela não vai buscar em sua paciente os motivos para seu esquecimento, mas sim em seu sintoma infantil, em sua histoeria. Esse acting faz irromper por trás da “atitude terapêutica desejável” uma “resistência prolongada ao abuso”, que não contribuía em nada para que a paciente se deslocasse de sua posição raivosa e paranóica junto a ela e possivelmente junto aos outros. Debruçar-se sobre seu esquecimento, fez vir à tona uma série de afetos até então desconhecidos por Lucia, possibilitando-lhe se retificar na cena analítica.

Continue lendo “Uma diferença sutil de grande alcance”

As mulheres são melhores analistas? Em torno do caso de Lucy Tower

Por Ana Beatriz Freire

Trabalho resultado do Cartel para o primeiro encontro do Seminário Clínico 2021, formado por Ana Beatriz Freire, Ana Tereza de Faria Groisman, Marcia Zucchi, Maria Corrêa de Oliveira, Maria Silvia Hanna, Vânia Gomes (mais um).

Na “Conferência em Genebra” Lacan afirma: “Deve-se julgar isso entre as mulheres analistas. As mulheres analistas são as melhores. São melhores que o homem analista”1. Como observa Elisa Alvarenga sobre essa passagem em seu artigo2 “As mulheres analistas”: “É curioso notar que ele diz mulheres analistas, no plural, e homem analista, no singular”. Mais tarde, em 1980, Lacan dirá sobre as mulheres que são “[…] as melhores analistas, quando não as piores”.3

Sabemos que quando falamos de mulheres é sempre uma a uma, e no homem podemos, através da referência fálica, agrupar em um todo, em um conjunto que se forma pela exceção. Também sabemos que para Lacan, homem (no singular) e mulheres só podem ser situados na sua particularidade pelas fórmulas da sexuação, pelas posições sexuadas e não apenas pelo sexo anatômico como tal. A questão que podemos colocar com Elisa Alvarenga seria: como o significante falo, como significante concebido como semblante, é abordado por Lacan nessa distinção homem/mulher? Ou melhor, haveria diferentes semblantes que distinguiriam o homem das mulheres e que pudessem diferenciá-los na função de analista?

Nesse Seminário livro 10, interrogamos o que nos toca particularmente nos seguintes termos: será que há distinção entre homem e mulher na posição do analista? E, mais ainda, o que as teóricas da contratransferência nos ensinam?

Utilizamos o termo “teóricas” no feminino e no plural, pois como afirma Lacan no Seminário livro 10: “[…] se há pessoas que disseram alguma coisa sensata sobre a chamada contratransferência, elas foram unicamente mulheres […]. Foram as mulheres em sua maioria esmagadora, que ousaram falar da coisa e disseram coisas interessantes”.4

Continue lendo “As mulheres são melhores analistas? Em torno do caso de Lucy Tower”

Lucia Tower, transferência e desejo do analista

Por Maria Corrêa de Oliveira

A partir do caso de Lucia Tower, o cartel esboçou uma pergunta:

Quem é o caso?

O relato e o endereçamento das questões relativas ao processo analítico da paciente de Lucia Tower ou o próprio relato de seus impasses e entraves?

Recorremos ao belo texto da segunda lição do livro “Perspectivas dos Escritos” para nos determos no que Miller destaca sobre a fineza capturada na aprendizagem com o inconsciente. Uma fineza que também recobre a atenção aos detalhes, às sutilezas que comparecem, por exemplo, naquilo que poderia ser considerado uma singela escorregadela. 

Miller chama a atenção para a importância do analista se manter em contínua aprendizagem com a presença de seu inconsciente uma vez que “com esse nunca se está em dia”1. Uma posição advertida, que requer a humildade de um eterno aprendiz.

Freud é o mestre que nos ensina a nos determos a aprender com as sutilezas de um ato falho. Seguir aprendendo com seus lapsos mas, sobretudo, poder testemunhar sobre suas consequências e efeitos. Não seria essa uma das posições valiosas que se espera de um analista?

Com essa orientação é importante destacar o material que Lucia Tower disponibiliza ao se deter em seus tropeços.  Não se furta em dar seu testemunho, ilumina seus equívocos e os submete ao investigá-los. 

Partimos dessas ofertas, dos impasses de Lucia Tower, com um pequeno recorte que pudemos extrair sobre o desejo do analista.

Retomarei muito rapidamente a noção de contratransferência somente para ser uma via de passagem com a transferência e com o desejo do analista.

A crítica de Lacan ao conceito de contratransferência, denominada no Seminário 10 como “autocrítica interna”2, diz respeito à valorização excessiva no eixo transferencial do registro imaginário. Referendada no eu, a análise das resistências estava se apresentando como um parâmetro da técnica analítica, um cenário que serve como empuxo para que Lacan proponha a resistência como sendo do analista, e não do analisante.

O passo importante nesse cenário onde se dá a reviravolta lacaniana é a atenção dada por Lacan ao par transferência-contratransferência, no que essa duplicidade abarca: interesses narcísicos, identificação imaginária, relações pautadas no amor e no ódio.

Elementos que por si só já se apresentam como obstáculos ao processo analítico.

Serge Cottet, em seu brilhante livro “Freud e o desejo do psicanalista”3, dá a justa medida do quanto a concepção da contratransferência pode induzir ao que ele chama de “desvios” no sentido de uma identificação do analista com seu analisante. Uma identificação que pode, sobretudo, escamotear a responsabilidade do analista no que importa efetivamente ao processo analítico.

Fazendo referência à contratransferência como “a soma dos preconceitos, das paixões, dos embaraços e desconhecimentos do analista”4, Lacan sublinha que o que deve ser valorizado como função do analista em resposta ao amor transferencial da parte do analisando é o seu desejo. Desejo de que uma análise se oriente não somente com o firme propósito de seguir em seu curso, mas que siga, sobretudo, mediante o desejo que se orienta pelo que causa, tirando proveito do sintoma, das repetições e atualizações que comparecem no fenômeno da transferência. Desejo do analista que acompanha as entrelinhas dos significantes, rastros e pistas para o encontro com algo muito singular que comparece sempre de esgueira, algo como “encontrar a senha do sintoma”5.

No texto A direção do tratamento e os princípios de seu poder, de 1958, Lacan afirma o que já havia abordado no Seminário I: “não há outra resistência à análise senão a do próprio analista”6. Ao indicar que só há uma resistência em questão, Lacan também parece sustentar que o fenômeno a ser privilegiado no manejo clínico é só um, a transferência.

Continue lendo “Lucia Tower, transferência e desejo do analista”

Lucia Tower, a contratransferência e o desejo do analista

Por Marcia Zucchi

Uma questão contextual: conforme se lê no próprio texto de Lucia Tower1, a discussão em torno da contratransferência se intensifica nos anos 40, e basicamente é compreendida como “reações transferencias que os analistas poderiam ter em relação a seus pacientes”. De todo modo seu relato era então tomado como “indecoroso”, “embaraçoso”, “repreensível” (Tower, 1956-2004).

Como ela própria lembra, Freud já se referira à contratransferência, em 1910, mas orientando os analistas praticantes a ultrapassá-la: “Tornamo-nos cientes da contratransferência, que, nele, surge como resultado da influência do paciente sobre os seus sentimentos inconscientes e estamos quase inclinados a insistir que ele reconhecerá a contratransferência em si mesmo, e a sobrepujará.”(Freud, 1910)2 

O texto de Lucia Tower é riquíssimo na orientação a respeito dos primeiros debates em torno da própria transferência e da análise do analista, nos primeiros anos pós Freud. 

Mas destaco aqui um aspecto que me pareceu importante, levantado por Carlos Augusto Nicéas no seu artigo “Contratransferência. Psicanálise e Psicoterapia”3. Nesse artigo Nicéas comenta textos não de LT, mas de Margareth Little, outra das autoras mulheres que se dedicaram ao tema da contratransferência, destacando que esses textos eram tentativas de resposta às demandas  e sintomas da época.

Continue lendo “Lucia Tower, a contratransferência e o desejo do analista”

“Contratransferência” de Lucia Tower

Por Vânia Gomes

O artigo “Contratransferência” de Lucia Tower foi publicado no IV volume do “The Journal of the American Psycho-Analytic Association” em 1956. 

No seminário X, Lacan faz referência a esse artigo de Lucia Tower para avançar na formulação do campo do desejo e do objeto a. Ao longo de sua articulação faz elogios a Tower, fala de um frescor, de que ela entra em cheio no cerne da questão… e que é de uma coragem especial. 

Lacan evidencia que algumas mulheres analistas ensinam sobre o que mais adiante em seu ensino vai formular como a parte feminina do ser falante.

Citação dele:

(…) Retomo as coisas por nossa Lucia Tower, que me ocorreu tomar como exemplo, por uma vertente do que chamarei de facilidades da posição feminina quanto à relação com o desejo. O termo “facilidades” tem aqui um caráter ambíguo. Digamos que uma implicação ínfima nas dificuldades do desejo permitiu-lhe raciocinar, na posição psicanalítica, senão de maneira mais sadia, ao menos mais livremente, em seu artigo.

Escolhemos apresentar o primeiro caso desse artigo de Tower. Não foi este o caso que Lacan privilegiou no seminário X, mas o escolhemos porque trazia o percurso e questões que avançamos no cartel.

No artigo, Lucia Tower se pergunta: Qual a relação do analista com seu inconsciente numa análise? 

Vamos segui-la… 

Este é o fragmento que Tower traz:

Começarei com um exemplo de uma reação contratransferencial com acting-out. Há muitos anos, uma paciente, após uma reação próxima da psicose, foi encaminhada a uma “análise” com alguém sem formação, e estava furiosa por sua frustação com esse terapeuta prévio. Semana após semana, mês após mês, ela se enfurecia comigo de um modo agressivo, apesar da grande paciência que tinha com ela. Suportei dela um abuso sem antecedentes com outros pacientes. Às vezes, esse abuso me irritava, mas na maioria das vezes gostava muito da paciente, e estava muito interessada em ajudá-la e de certa forma, fiquei surpresa com a minha habilidade de controlar minha irritação com ela. Finalmente, entendi que aquela atitude terapêutica desejável, representava uma complicação contratransferencial. O seguinte episódio chamou a minha atenção quanto a esse problema.

Continue lendo ““Contratransferência” de Lucia Tower”

A madame saiu: Lélia Gonzales e a subversão do sujeito

 Conversa com Danielle Menezes e Geisa de Assis, que pode ser ouvida em:

Como resgatar uma história não apenas perdida, mas sobre a qual incidiu um silenciamento radical? Radical, por visar todo um mundo de gente fadada à exploração e à inexistência. E como minar esse racismo estrutural que segue vigente nos corações e corpos de todos nós? Lélia Gonzales o faz “numa boa”, como diz. Não é exatamente uma ação revolucionária, no sentido de sonhar com a substituição de uma estrutura nefasta por outra melhor. Também não busca a destruição desse mundo, mas muitas vezes produz sua mudança por dentro, que Lacan chamou de subversão. A subversão se faz pelas falas de sujeito, falas de uma singularidade que perturba uma situação viciada semeando a possibilidade de uma mudança. Essas falas não vêm do céu, mas, para Lélia, da lata de lixo, retomando o que propõe Miller para o fazer do analista. Lélia anuncia seu programa: “o lixo vai falar, e numa boa”. O lixo não é alguém, mas, sim, os restos, em alguém, do que não se chegou a dizer. A esse lixo não será preciso conceder lugar de fala, mas ele próprio criará seu lugar. 

É fazer valer a potência subversiva do que é silenciado, mas, que, nem por isso, deixa de agir. Pelo contrário. Isso, inclusive, força passagem em nossa língua através das marcas, das cicatrizes e dos destroços que não puderam ser eliminados. Nesse sentido, por exemplo, Lélia resgata tudo o que foi dito, um dia, a respeito da figura da mucama para reler a falsa oposição entre a mulata hipersexualizada e a dócil empregada. Ela conta, ainda, ao modo do chiste, como respondeu ao entregador que toca à campainha e pergunta: “A madame está?” E ela diz: “Não, a madame saiu”. Em vez de conscientizar o entregador de que a madame não existe e nem deve existir, ela o força a lidar com o paradoxo de uma “dona” negra.

Como o silenciado é feito de memória, fragmentos de cenas, palavras, cheiros e sons perdidos, seu impacto é estranho. E, às vezes, o essencial é apenas uma dobra na língua. Para alguns, no exemplo de Lélia, a tendência a falar Framengo, em vez de Flamengo, pela impossibilidade de em algumas línguas banto articular o fonema “fla, ou o “ble” de problema.

É sua tese de base: nosso mundo tem em grande parte ossatura negra, assim como indígena, que reverbera. Basta alguém enunciar Oxalá, por exemplo. As ressonâncias vão longe. Aposto que nem mesmo os donos do agronegócio ou os empresários paulistanos são insensíveis aos ecos do tupi ou do iorubá de nossa conversa de todo dia. É o pretuguês, de Lélia. A língua brasileira, ou melhor, das terras de uma “Améfrica ladina”, expressão resgatada por ela do psicanalista MDMagno. O pretuguês é o português que se deixa atravessar pelo que de sua história foi, mais que rechaçado, estraçalhado. Suas marcas, porém, estão no ar, na argamassa do que nos constitui. Somos filhotes da cultura, feita não apenas do que se vê e sente, mas também do que se pressente na ponta da língua, desses restos linguageiros que Lacan chamou lalíngua.

Que a leitura de Lélia possa ser usada não apenas pelos calados por um silêncio assassino, para encontrarem um caminho de fala e transformação. Mas, também, para que se aquilate como a interpretação psicanalítica se utiliza da lalíngua do analisante para fazer o novo falar. Aprendemos com ela sobre o modo como o analista pode, com sorte e muita transpiração, fazer valer, em uma vida, o lixo como abertura a um novo horizonte.

Marcus André Vieira

O trabalho de Escola em tempos de travessia: exílios, abrigos, oásis.

Por Andréa Reis Santos

“Seu oásis, Lacan o chamava de uma Escola”1

Iniciamos esse cartel para estudar a lógica de Escola, como antídoto ao automaton que poderia advir da rotina institucional. As eleições presidenciais tinham acabado de acontecer e o clima era de apreensão com a perspectiva de tempos sombrios para o país. Nesse cenário queríamos acima de tudo trabalhar para manter um ambiente propício à lógica anti-segregativa da psicanálise, propício ao tanto de vida e de desejo que a sua experiência pode produzir, na contramão da desesperança generalizada que reinava em torno.

Começamos pela Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola2, texto de virada, onde um Lacan vivíssimo e herético subverte completamente a lógica da formação do analista. Texto que tem efeito de ato. Interpreta a Escola, tira tudo do lugar quando desloca do centro da formação a figura do analista experiente e põe em destaque o AE, fruto da experiência de análise. Gosto muito de um texto de Romildo3, onde ele afirma que a Proposição é uma proposta institucional, que sua marca essencial é a articulação entre o funcionamento da instituição de psicanalistas e a experiência analítica, ou entre a instituição e o discurso e, que essa articulação resulta em um equilíbrio nada estável. 

É justamente essa instabilidade que nos leva a perguntar sobre como orientar o trabalho de Escola para que a psicanálise possa vez ou outra se hospedar ali. Que tipo de casa é capaz abrigar uma Escola? Naquela época sonhávamos com uma “Escola Oásis”, tomando emprestado essa imagem forte de Hanna Arendt4 que tinha sido usada em belos textos de Maricia Ciscato5 e Paulo Vidal6. Sonhávamos com uma Escola que servisse de abrigo, ponto de parada e de respiro em uma travessia que não parecia nada promissora.

Não imaginávamos a dimensão e a aridez do deserto que nos aguardava. A busca pelo asilo, um abrigo, é uma questão mais que atual. A pandemia e a imposição do isolamento interromperam qualquer projeto de ocupação de territórios concretos em sintonia com a premissa freudiana do inconsciente, de maneira propícia, por exemplo, à circulação do múltiplo, lugares anti-segregativos.

Foi nesse cenário que nos engajamos no desafio de conversar sobre os exílios, tema que foi crucial para não perdermos o rumo. Exílios, no plural, nos conduziu a um enlace com outros saberes: Exílios fala de segregação, fala de fronteiras, de racismo, de território e de extimidade . Se partimos do nosso solo mais familiar, que é o campo da psicanálise, nos encontramos às voltas com o sujeito que é exilado por natureza, que não tem lugar garantido, que precisa pedir abrigo, encontrar meios de habitar um corpo, uma língua, um lugar na relação com o outro. Precisa achar meios de fazer caber no mundo o singular de sua existência e com ele criar laços no coletivo.  

Isso já está esboçado em Freud, com o descentramento do eu. Lacan o traz para o centro da cena quando toma Joyce como o exemplo encarnado do exilado na relação única que estabelece com a língua, e Miller7, por sua vez, quando destaca de Lacan e transforma em conceito o termo extimidade que serve pensar o exílio, mas não só. Êxtima é a posição do analista na experiência da clínica, é também a natureza própria do sujeito do inconsciente, da sua constituição em relação à alteridade do Outro, do sujeito frente ao real da diferença sexual, exilado fora de si, fora de sua humanidade. 

Essa lógica, que é a nossa lógica, de “todos exilados”, carrega uma verdade, mas ela requer de nós o cuidado de não deixar com que absorva completamente, que encubra o que há de particular em cada forma de exílio8. Principalmente em um momento no qual o termo exilado passou a encarnar mais do que nunca os efeitos de segregação e de desigualdade social produzidos pela lógica feroz e desumana do capitalismo. 

Trabalhamos em torno dessa afirmação forte: “o real se dispõe, não no começo ou no fim, mas na própria travessia”. Avesso da fantasia neurótica, de que a vida para valer está sempre por vir ou fica presa atrás em um passado, seja traumático, seja idílico. É na travessia que os encontros capazes de produzir efeito de acontecimento e de presença se dão. É no durante que as coisas acontecem. 

É o que diz Miquel Bassols9:  ao invés de esperar a luz no fim do túnel, esperar o fim da pandemia, a vacina, a tão proclamada “volta ao normal”, o que ele sugere é ficar por ali se arranjando com o que há, sem esperar a saída. Virando-se dentro do túnel. 

É assim que está sendo o trabalho de Escola nesses tempos de travessia. Estamos às voltas com os arranjos coletivos em um trabalho sem garantias, seguindo em frente sem nenhuma pista do fim do túnel. Os tempos prometem um futuro mais que sombrio para o nosso país e, para pensar em um modo de funcionar no mundo quando o mundo se apresenta na sua face de horror, na sua face mais dura e árida, voltamos a apelar para a figura forte do oásis, novamente os oásis, não como lugar de repouso, de relaxamento, destinado à esperança, mas como base de operação contra o mal-estar na civilização10, espaços que têm o poder de inverter a lógica mortífera da segregação. A pergunta se mantém mais forte que nunca: seria demais pensar em uma Escola capaz de produzir e manter oásis, como um espaço de autonomia e de resistência? Uma Escola que sustente acontecimentos capazes de criar vida pulsante na aridez do deserto e, agora além disso, na escuridão do túnel?

Notas

  1. Miller J.A Jacques Ranciére, uma política dos Oásis. 2017 (dica preciosa da Maricia a quem agradeço muito)
  2.  Lacan, J Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola In Outros Escritos 
  3.  Romildo do Rêgo Barros A proposição é uma proposta Institucional In Correio 81
  4.  ARENDT, H. De deserto e de Oásis. Em: O que é Política? – Fragmentos das Obras Póstumas Compilados por Úrsula Ludz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
  5.  CISCATO, Maricia. Os oásis nossos de cada dia. Disponível em: <https://loucuraseamores2017.wordpress.com/2017/10/31/os-oasis-nossos-de-cada-dia/>.
  6. VIDAL, Paulo. Provocado pelo Corpo Elétrico. Disponível em:  <https://loucuraseamores2017.wordpress.com/2017/11/08/provocado-pelo-corpo-eletrico/>. 
  7. Miller, J. A. (2011a). Extimidad. Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós.
  8.  Marcus André Vieira insistiu nessa advertência durante os encontros do cartel que coordenou as Jornadas sobre Exílios: sintoma corpo e território.
  9.  Bassols, M. https://zadigespana.com/2020/04/05/coronavirus-que-nos-podemos-encontrar-al-final-del-tunel/
  10.  Miller J.A Jacques Ranciére, uma política dos Oásis. 2017
Rolar para o topo