Notas sobre um trabalho em andamento

Por Andrea Vilanova
Cartel: Corpo, imagem e tecnologias: (re)leituras do Estádio do Espelho entre arte e psicanálise.
Cartelizantes: Andrea Vilanova (mais-um), Carla Sá Freire Cunha, Cristina Bezerril e Fabiano Fernandes.

 “Aquele que produz uma obra, seja esta uma obra de arte ou não, articula os três registros.”
Stella Jimenez (1997)

A pandemia nos expropriou de nosso cotidiano, subverteu nossos laços, exigindo distanciamento, novos hábitos e muito mais. O trabalho de cartel que seguimos construindo ao longo dos últimos meses nasce dessa experiência de ruptura, mas também de uma convocação a tomar de modo não apenas pragmático o uso dos recursos audiovisuais e a presença das telas em nosso cotidiano.  São muitas vias possíveis de interrogação dentro desse oceano digital. Continue lendo “Notas sobre um trabalho em andamento”

No Umbigo da Noite (Com Flávia Cêra e Eliane Dias)

(conversa a partir do conto “Na vastidão, o céu da noite” de Itamar Vieira Junior – leia aqui – imagem do episódio de Flavio Pessoa)

Em toda história que se conta, há silêncio. Nem todo o vivido pode passar para o dizer. Às vezes, o que se experimenta é por demais insuportável e banido. Outras vezes, será esquecido apenas por não ter cabimento. A vida é assim: se escreve, também, pelo não-dito.

Não-ditos nunca são apenas feitos de vazio. São detalhes enigmáticos: um pequeno gesto de mão perdido no ar, um sorriso quase triste, o som de uma bofetada do outro lado da porta, um olhar de cumplicidade. Continue lendo “No Umbigo da Noite (Com Flávia Cêra e Eliane Dias)”

Que liberdade? (com Adriano Lourenço e Luis Rodrigues)

O psicanalista tende a se ver em exterioridade com relação à cidade – como se pudesse erigir seu consultório em um lugar atópico, o de um intelectual estrangeiro, por exemplo. Age como aquele que estaria sempre em outro mundo, ou ainda em um espaço zen, extraterritorial, termo de J. Lacan para ironizar esse ponto de onde o analista assistiria ao mundo, nos domingos da vida.

Apesar disso, porém, na prática analítica não há como estar de fora. O material que se apresenta nas histórias que nos contam os analisantes não tem unidade o bastante para estabilizar de modo firme um dentro-fora. Afinal, dos personagens de minhas narrativas em análise, quais fazem parte de mim? Quem é propriedade de minhas memórias? Apenas os que conheci? Ou devo incluir os parentes, mesmo os de gerações passadas de quem só ouvi falar? E os personagens marcantes de ficção lida, ouvida ou assistida? Dito de outro modo, quais as fronteiras de minha cidade psíquica? Estamos bem distantes da ideia de um porão ou baú de memórias em que ainda se teima em meter o inconsciente freudiano. Continue lendo “Que liberdade? (com Adriano Lourenço e Luis Rodrigues)”

«Uma mulher bem calçada» – a mascarada de Maurice Bouvet*

Por Ana Martha Wilson Maia (EBP/AMP)

A sexualidade feminina foi o tema que esteve no centro dos debates entre os analistas nos anos 20-30, como introduziu Ângela. Esse movimento que chamamos hoje de «A querela do falo» resultou na produção de uma série de publicações de casos clínicos e de elaborações teóricas que se encontram como referência na obra freudiana e no ensino de Lacan.

Ao investigar as teorias sexuais infantis, Freud (1908) inicialmente sugere a teoria da universalidade do pênis como único órgão sexual existente. Ele abandona esta teoria em 1923, quando substitui a primazia dos órgãos genitais por um elemento simbólico: o falo.

Assim, podemos considerar que seus textos de 1931 e 1933 – «A sexualidade feminina» e «A feminilidade» – são uma resposta aos analistas que insistiram em ler pênis no lugar do falo.

A referência a esses autores aparece muitas vezes no primeiro Lacan. Em sua proposta de retorno ao texto freudiano, ele aponta momentos de ruptura, desvios teóricos que acabaram por distanciar os pós-freudianos da teoria de Freud, sobretudo quanto à sexualidade feminina. No Seminário 4, a relação de objeto, a mulher está entre as questões que aborda, quando afirma a falta de objeto. «O objeto genital, para chamá-lo por seu nome, é a mulher. Então, por que não chamá-lo pelo seu nome? Portanto, foi com um certo número de leituras sobre a sexualidade feminina que eu me gratifiquei» (p.24) – ele diz. Continue lendo “«Uma mulher bem calçada» – a mascarada de Maurice Bouvet*”

A anarquia individual

Por: Denise Henriques
Cartel: Amor na psicanálise
Cartelizantes: Ana Maria Ferreira da Silva; Denise Ávila; Denise Henriques e Cristina Duba (mais um).

Os estudos do Cartel “Amor na Psicanálise”, formado por mim, Ana Maria Ferreira da Silva, Denise Ávila e Cristina Duba (mais um), conduziu a uma pesquisa sobre o gozo no ensino de Lacan, a partir do interesse pela conexão entre amor e pulsão. Esta me permitiu ampliar o campo de visão e me fazer perceber em outras leituras o que apreendi das facetas do amor.

Nesse trabalho, particularmente, recorto o que pude recolher sobre a questão da não relação sexual no conto “O banqueiro anarquista” de Fernando Pessoa.

O conto é uma crítica à realidade de diversos movimentos sociais e organizações políticas. Uma sátira aos que se agarram a um posicionamento ideológico apenas na teoria, mas não conseguem praticá-la totalmente. O próprio título do conto indica essa contradição, esse paradoxo: como pode um anarquista ser banqueiro, justamente aquele que concentra muito poder, representante-mor do sistema capitalista?

O personagem banqueiro, que se diz anarquista, aponta as falhas da dificuldade de se alcançar plenamente a doutrina em sua análise que prova que ele é, verdadeiramente, um anarquista e os outros anarquistas não o são. A escolha da profissão do personagem, um banqueiro, auxilia no tom satírico do contrastante ideal dele, de ser anarquista vivendo numa sociedade capitalista com a tirânica opressão financeira, onde o dinheiro é tratado como a mais importante das ficções sociais. Chegando a concluir que somente tornando-se rico, pode se tornar livre da força opressiva do capitalismo. O que traduz o sonho universal, um ideal de todos. Continue lendo “A anarquia individual”

“Leituras em Cena – Conversa sobre Sísifo – Texto de abertura.”

Do que não cessa

Por Maricia Ciscato – Pelo coletivo do “Leituras em cena”

Em 2015, fui atravessada pelo livro “Rio – Histórias de vida e morte”, de Luiz Eduardo Soares. A arte literária contrastada com a violência de nossa cidade misturou-se às minhas próprias experiências na tentativa de contribuir com a modificação da devastação que é a política de segurança pública do Rio de Janeiro. Esse livro me lançou a uma pergunta que até então eu não ousava formular: Como é possível, depois de (muitos) fracassos recorrentes, persistir?

Em 1930, Freud já nos dava, com sua clareza explosiva, o fim da esperança de uma sociedade feliz. Ele escreveu:

“(…) o que há de realidade negada de bom grado é que o ser humano não tem uma natureza pacata, ávida de amor e que no máximo até consegue defender-se quando atacado, mas que, ao contrário, a ele é dado o direito de também incluir entre as suas habilidades pulsionais uma poderosa parcela de inclinação para a agressão. Em consequência disso [segue Freud], o próximo não é, para ele, apenas um possível colaborador e um objeto sexual, mas é também uma tentação, de com ele satisfazer a sua tendência à agressão, de explorar sua força de trabalho sem uma compensação, de usá-lo sexualmente sem o seu consentimento, de se apropriar de seus bens, de humilhá-lo, de lhe causar dores, de martirizá-lo e de matá-lo. Homo homini lúpus [o homem é o lobo do homem] (…)”[1]

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