O cartel para fazer Escola. Uma experiência.

Por Maria Antunes

Agradeço a Maricia Ciscato diretora de cartéis e intercâmbios pelo convite para participar do trabalho nesta comissão. Agradeço também a Cristina Duba que através do trabalho de mais um do cartel, provocou um trabalho instigante . Por fim agradeço a Renata Martinez, Sandra Landim e Ana Luiza Rajo pelo rico trabalho que as leituras e discussões produziram.

Quero começar destacando que decidimos por um trabalho de cartel ao mesmo

tempo que o trabalho da comissão de Cartéis e Intercâmbio, foi se desenvolvendo e isso teve, para mim, um efeito de experiência.

Só agora, no a posteriori, pude me dar conta que esse trabalho de comissão produziu uma pequena lanterna na escuridão, na qual nos encontrávamos, quando iniciamos o cartel.

Naquele momento foi fundamental, para mim, desenvolver um trabalho de cartel para pensar o trabalho da comissão.

Estávamos sofrendo as repercussões das atrocidades de um governo genocida. A leitura dos textos e as discussões sobre a invenção de Lacan do cartel como ”

máquina de guerra ” para combater os ideais e os universais que produzem violência e segregação, me fez sair da paralisia, provocada pelo horror e pelo medo, e me colocou aos poucos em movimento. Poder pensar, ouvir e trocar com as colegas do cartel, promoveu uma abertura, onde pude contar com a transferência de trabalho que se estabeleceu, reconectando meu trabalho na Escola.

Essa dobradiça trabalho da comissão articulado ao tema, ” O cartel e a guerra ” provocou em mim uma forma inédita de experimentar a invenção do funcionamento de um pequeno dispositivo de quatro mais um, que se apoia numa transferência horizontal e que se deixa furar pelo ponto de não saber de cada um, e assim relançou meu desejo de fazer Escola.

Hoje, ao escrever esse pequeno retorno do trabalho para vocês, o que ressoa em mim, é a voz da Gal , cantando a frase do Caetano : ” é preciso estar atento e forte , não temos tempo de temer a morte.”

Então, outro aspecto que pude recolher desse trabalho de comissão, é como a invenção de Lacan do objeto a , nos serve de bússola contra os universais da nossa época e por isso é uma munição preciosa.

A invenção do objeto a, é também o motor do cartel, deste pequeno dispositivo que está na fundação mesmo da nossa Escola mantendo viva a psicanálise à partir do que descompleta, separa, ao furar o saber, dando lugar a leitura singular de cada um.

Estar atento ao funcionamento do cartel que faz a Escola acontecer, foi para mim, discutir os textos epistêmicos, e também, acolher, ler, fazer a jornada de cartéis, ser um momento rico de discussão, de trocas , mesmo que na modalidade online. Recebemos um grande número de trabalhos de pessoas que, pela primeira vez, endereçaram, seu trabalho de cartel à Escola, furando assim a aridez da violência da pandemia.

Participar do dispositivo procura – se cartel, foi também muito interessante, para poder pensar como acolher as dificuldades de quem está se aproximando da Escola, e se depara como a questão de como fazer para formar um cartel na modalidade a distância, escolher um mais um, sem estarmos lá na Escola, no corpo a corpo que favorece a aproximação, enfim fazer laço nas conversas de corredor.

Por fim gostaria de destacar como foi rico o trabalho na jornadas da Secao-Rio, nas rodas de leitura dos Grãos, visando fazer valer uma lógica de discussão e elaboração

 

que se deixa guiar pelo ponto de não saber, para extrair um produto com alguns pontos em construção.

No que me concerne , ficou como ponto de trabalho em construção a partir do trabalho da comissão,

retomarmos a proposta do cartel como “Máquina de Guerra”. Podemos pensar que sua força é a possibilidade de tratar o real a partir de uma transferência de trabalho muito particular, que é horizontal e que visa um produto que também é particular por ter a materialidade de escrita.

Poderíamos então pensar, à partir desse ponto, se a dimensão da dignidade está na transferência de trabalho, por se tratar de uma lógica que trata o gozo, que faz Um para cada sujeito ao visar um produto que o descompleta ?

Sendo assim é uma máquina que trata do imperativo do gozo supergoico ?

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