No Umbigo da Noite (Com Flávia Cêra e Eliane Dias)

(conversa a partir do conto “Na vastidão, o céu da noite” de Itamar Vieira Junior – leia aqui – imagem do episódio de Flavio Pessoa)

Em toda história que se conta, há silêncio. Nem todo o vivido pode passar para o dizer. Às vezes, o que se experimenta é por demais insuportável e banido. Outras vezes, será esquecido apenas por não ter cabimento. A vida é assim: se escreve, também, pelo não-dito.

Não-ditos nunca são apenas feitos de vazio. São detalhes enigmáticos: um pequeno gesto de mão perdido no ar, um sorriso quase triste, o som de uma bofetada do outro lado da porta, um olhar de cumplicidade. Continue lendo “No Umbigo da Noite (Com Flávia Cêra e Eliane Dias)”

Que liberdade? (com Adriano Lourenço e Luis Rodrigues)

O psicanalista tende a se ver em exterioridade com relação à cidade – como se pudesse erigir seu consultório em um lugar atópico, o de um intelectual estrangeiro, por exemplo. Age como aquele que estaria sempre em outro mundo, ou ainda em um espaço zen, extraterritorial, termo de J. Lacan para ironizar esse ponto de onde o analista assistiria ao mundo, nos domingos da vida.

Apesar disso, porém, na prática analítica não há como estar de fora. O material que se apresenta nas histórias que nos contam os analisantes não tem unidade o bastante para estabilizar de modo firme um dentro-fora. Afinal, dos personagens de minhas narrativas em análise, quais fazem parte de mim? Quem é propriedade de minhas memórias? Apenas os que conheci? Ou devo incluir os parentes, mesmo os de gerações passadas de quem só ouvi falar? E os personagens marcantes de ficção lida, ouvida ou assistida? Dito de outro modo, quais as fronteiras de minha cidade psíquica? Estamos bem distantes da ideia de um porão ou baú de memórias em que ainda se teima em meter o inconsciente freudiano. Continue lendo “Que liberdade? (com Adriano Lourenço e Luis Rodrigues)”

Pajubá e a Fulô de Lalíngua

Quantas línguas há na nossa língua mãe? Além daquela do pai, da norma culta; e a da mãe, de ternuras ancestrais, há ainda, muitas mais, muito mais no cristal da língua, nesse mosaico em constante mudança que nos constitui. Nele, cabem até mesmo os brados raivosos dos paranoicos no poder. Boas mesmo são as línguas que trazem fragmentos de um passado perdido, de indefiníveis certezas. Somos transportados a uma zona da memória impossível de localizar. São elas que habitam a tendência irresistível para alguns de fazer, de uma flor, fulô e para outros, para quem flor é flor, ainda assim de bater com o pé no chão quando ouvem “pisa na fulô, pisa na fulô…

 Que memória é essa? A mesma que Proust nos leva a sentir, mesmo não tendo ideia do que seja uma Madeleine. Basta mergulhar nossos fragmentos sonoros no caldeirão da língua quando dizemos, meu dengo, meu araçá.

Para Freud, a memória não tem fim. Melhor, não tem limites. A ideia de um estoque finito, como pensa a neurologia, mostra seu caráter de ilusão quando a mesma ciência não cessa de destacar como as conexões neuronais são incontáveis por se fazerem e refazerem sem cessar. Freud não se interessa pelo arquivo morto. Que nossa biblioteca de memórias seja enorme, de acordo. Mas o que conta, o que desperta e faz sonhar são as memórias do esquecido. Valem as que não se encaixam no verbo da cidade, andarilhas errantes, mais neuras que neuros.

Para tudo que não coube na língua pública e nem na privada, mas apenas ficou como ressonância, ritmo, cor, Lacan inventa um nome, fazendo cantarolar sua langue com o termo lalangue. Na nossa língua um tanto dessa vibração se vai, mas que seja, digamos em português lalíngua. É com ela que em última essência lida o psicanalista ao fazer os fragmentos de história fora da história de cada um falar.

Quanto de alfabestização é preciso para que falemos em bom português, valorizando os encontros consonantais em chiados e erres prolongados? Quanto se encolhem nossas vogais quando dizemos “dentro de mim” em vez de “dendimim”? “Muito prazer” em vez de “ôba!” e assim por diante?

Nessa distância entre lalíngua e a língua oficial brotam dialetos. Vivi um deles por anos, o dialeto médico, com seu jargão entre radicais gregos e latinos, tendo um termo para qualquer evento a fim de evitar que o paciente saiba que dele falam como de uma coisa. De “hanseníase” para lepra ou do atual “cuidados paliativos” para fim de linha, o jargão médico sempre me deu a impressão de um modo pretensioso de esconder a morte ao preço de uma mortificação da linguagem.

Esse número do Radar do analista cidadão busca o encontro com outro dialeto, quase o avesso daquele do médico, o pajubá. É o dialeto dos trans e de sua rua, reinjetando lalíngua na língua oficial, sexualizando a linguagem e falando a seu modo da vida e da morte.

A ideia partiu de Maricia Ciscato, mais especificamente de seu encontro com as falas de Amara Moira que é, ela própria, ponto de encontro entre o pajubá a experiência trans da rua, prostituta que é ao reverberar na ponta de sua língua, tanto o pajubá das ruas quanto, em sua tese de doutorado, as onomatopeias de Joyce.

Conversando com Maricia e com Veridiana Marucio, vimos como podemos aprender com o pajubá um modo de articular passado, presente, interdito e dito e, talvez, alguma coisa do que ocorre em nossa clínica se ilumine por ele. Basta que se ouça Amara em pajubá para que sejamos transportados a essa periferia da língua em que localizamos nosso trabalho e onde ecoam os terreiros, talvez de modo próximo e distinto daquilo que Lélia Gonzalez chama de pretuguês.

Além do dialeto médico, tenho vivido há um bom tempo no lacaniano. A trama de palavras pacientemente tecida por Lacan ao longo dos anos para nos levar o mais próximo do calor dos acontecimentos, pegou muita friagem no caminho ao vir para nossas terras, não apenas perdeu sabor, mas ganhou uma ossatura que mimetiza demais a do francês, nos levando a dizer coisas estranhas como “da ordem de…”, ou “objeto pequeno a” com a maior naturalidade. Meus votos são os de que esse Radar abra os ouvidos dos que usam os termos de Lacan como usavam os médicos de meu passado, para a força e virulência que tinham em seu tempo, como os termos do pajubá têm, hoje, no nosso. 

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A madame saiu: Lélia Gonzales e a subversão do sujeito

 Conversa com Danielle Menezes e Geisa de Assis, que pode ser ouvida em:

Como resgatar uma história não apenas perdida, mas sobre a qual incidiu um silenciamento radical? Radical, por visar todo um mundo de gente fadada à exploração e à inexistência. E como minar esse racismo estrutural que segue vigente nos corações e corpos de todos nós? Lélia Gonzales o faz “numa boa”, como diz. Não é exatamente uma ação revolucionária, no sentido de sonhar com a substituição de uma estrutura nefasta por outra melhor. Também não busca a destruição desse mundo, mas muitas vezes produz sua mudança por dentro, que Lacan chamou de subversão. A subversão se faz pelas falas de sujeito, falas de uma singularidade que perturba uma situação viciada semeando a possibilidade de uma mudança. Essas falas não vêm do céu, mas, para Lélia, da lata de lixo, retomando o que propõe Miller para o fazer do analista. Lélia anuncia seu programa: “o lixo vai falar, e numa boa”. O lixo não é alguém, mas, sim, os restos, em alguém, do que não se chegou a dizer. A esse lixo não será preciso conceder lugar de fala, mas ele próprio criará seu lugar. 

É fazer valer a potência subversiva do que é silenciado, mas, que, nem por isso, deixa de agir. Pelo contrário. Isso, inclusive, força passagem em nossa língua através das marcas, das cicatrizes e dos destroços que não puderam ser eliminados. Nesse sentido, por exemplo, Lélia resgata tudo o que foi dito, um dia, a respeito da figura da mucama para reler a falsa oposição entre a mulata hipersexualizada e a dócil empregada. Ela conta, ainda, ao modo do chiste, como respondeu ao entregador que toca à campainha e pergunta: “A madame está?” E ela diz: “Não, a madame saiu”. Em vez de conscientizar o entregador de que a madame não existe e nem deve existir, ela o força a lidar com o paradoxo de uma “dona” negra.

Como o silenciado é feito de memória, fragmentos de cenas, palavras, cheiros e sons perdidos, seu impacto é estranho. E, às vezes, o essencial é apenas uma dobra na língua. Para alguns, no exemplo de Lélia, a tendência a falar Framengo, em vez de Flamengo, pela impossibilidade de em algumas línguas banto articular o fonema “fla, ou o “ble” de problema.

É sua tese de base: nosso mundo tem em grande parte ossatura negra, assim como indígena, que reverbera. Basta alguém enunciar Oxalá, por exemplo. As ressonâncias vão longe. Aposto que nem mesmo os donos do agronegócio ou os empresários paulistanos são insensíveis aos ecos do tupi ou do iorubá de nossa conversa de todo dia. É o pretuguês, de Lélia. A língua brasileira, ou melhor, das terras de uma “Améfrica ladina”, expressão resgatada por ela do psicanalista MDMagno. O pretuguês é o português que se deixa atravessar pelo que de sua história foi, mais que rechaçado, estraçalhado. Suas marcas, porém, estão no ar, na argamassa do que nos constitui. Somos filhotes da cultura, feita não apenas do que se vê e sente, mas também do que se pressente na ponta da língua, desses restos linguageiros que Lacan chamou lalíngua.

Que a leitura de Lélia possa ser usada não apenas pelos calados por um silêncio assassino, para encontrarem um caminho de fala e transformação. Mas, também, para que se aquilate como a interpretação psicanalítica se utiliza da lalíngua do analisante para fazer o novo falar. Aprendemos com ela sobre o modo como o analista pode, com sorte e muita transpiração, fazer valer, em uma vida, o lixo como abertura a um novo horizonte.

Marcus André Vieira

Apresentação Radar do Analista Cidadão

Por Marcus André Vieira 

Textos, vídeos, resenhas, podcasts, entrevistas e o que mais entrar no radar de minha formação continuada e que me pareça poder servir a outros. Além disso, colegas serão convidados a fazer o mesmo, com o compromisso de que cada um possa dizer de que modo entende o valor, em sua formação, da mídia abordada.

Do que acontece na cidade, muita coisa concerne ao analista. Como cidadão, ele, como tantos, não pode se manter distante do que ocorre em sua época. Mais ainda em um tempo e lugar como os nossos, que caminham tantas vezes em direção ao pior. Algumas das produções da cultura, porém, dizem mais diretamente ao analista por serem afins com a novidade e abertura que o inconsciente pode sustentar. Canções, imagens, filmes, textos e tantas outras produções culturais sempre foram nossos aliados. Resta que é preciso encontrar o que desses objetos nos auxilia mais diretamente em nosso fazer para seguir, mesmo que por outros caminhos, no rastro de Freud e Lacan. É isso que tentaremos trazer aqui, contando também com os objetos de suportes os mais variados que sejam propostos a nosso radar. 

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