Notas sobre um trabalho em andamento

Por Andrea Vilanova
Cartel: Corpo, imagem e tecnologias: (re)leituras do Estádio do Espelho entre arte e psicanálise.
Cartelizantes: Andrea Vilanova (mais-um), Carla Sá Freire Cunha, Cristina Bezerril e Fabiano Fernandes.

 “Aquele que produz uma obra, seja esta uma obra de arte ou não, articula os três registros.”
Stella Jimenez (1997)

A pandemia nos expropriou de nosso cotidiano, subverteu nossos laços, exigindo distanciamento, novos hábitos e muito mais. O trabalho de cartel que seguimos construindo ao longo dos últimos meses nasce dessa experiência de ruptura, mas também de uma convocação a tomar de modo não apenas pragmático o uso dos recursos audiovisuais e a presença das telas em nosso cotidiano.  São muitas vias possíveis de interrogação dentro desse oceano digital. Continue lendo “Notas sobre um trabalho em andamento”

A anarquia individual

Por: Denise Henriques
Cartel: Amor na psicanálise
Cartelizantes: Ana Maria Ferreira da Silva; Denise Ávila; Denise Henriques e Cristina Duba (mais um).

Os estudos do Cartel “Amor na Psicanálise”, formado por mim, Ana Maria Ferreira da Silva, Denise Ávila e Cristina Duba (mais um), conduziu a uma pesquisa sobre o gozo no ensino de Lacan, a partir do interesse pela conexão entre amor e pulsão. Esta me permitiu ampliar o campo de visão e me fazer perceber em outras leituras o que apreendi das facetas do amor.

Nesse trabalho, particularmente, recorto o que pude recolher sobre a questão da não relação sexual no conto “O banqueiro anarquista” de Fernando Pessoa.

O conto é uma crítica à realidade de diversos movimentos sociais e organizações políticas. Uma sátira aos que se agarram a um posicionamento ideológico apenas na teoria, mas não conseguem praticá-la totalmente. O próprio título do conto indica essa contradição, esse paradoxo: como pode um anarquista ser banqueiro, justamente aquele que concentra muito poder, representante-mor do sistema capitalista?

O personagem banqueiro, que se diz anarquista, aponta as falhas da dificuldade de se alcançar plenamente a doutrina em sua análise que prova que ele é, verdadeiramente, um anarquista e os outros anarquistas não o são. A escolha da profissão do personagem, um banqueiro, auxilia no tom satírico do contrastante ideal dele, de ser anarquista vivendo numa sociedade capitalista com a tirânica opressão financeira, onde o dinheiro é tratado como a mais importante das ficções sociais. Chegando a concluir que somente tornando-se rico, pode se tornar livre da força opressiva do capitalismo. O que traduz o sonho universal, um ideal de todos. Continue lendo “A anarquia individual”

Cartel Psicose Ordinária – atravessamentos e dissolução

Por Doris Rangel Diogo – Membro da EBP/AMP

Compartilho uma experiência no cartel Psicose Ordinária, inscrito em 2019 na rubrica “Clínica: teorias e práticas”. A contingência da pandemia favoreceu encontros dos participantes, impulsionando o cartel, embora a modalidade de reunião virtual já tivesse sido experimentada.
Cada cartelizante vinha desenvolvendo sua pesquisa e os encontros eram frequentemente atravessados por casos clínicos dos participantes ou publicados, e também por textos em torno do tema. No início de 2021, uma cartelizante que estava trabalhando acontecimento de corpo na psicose ordinária interveio com um recorte clínico que despertou vivo interesse nas demais participantes. Naquele momento, o cartel estava se dedicando ao tema do corpo no ensino de Lacan, a partir do incorporal, em Radiofonia. O caso se impôs com uma questão do analisando, que fez com que a pesquisa se voltasse para os limites do binarismo sexual orientado pelo falo como significante da diferença sexual, a favor da pluralização dos modos de gozo. Interrogando o trans, o cartel se transformou e a mesma cartelizante apresentou o trabalho na Jornada de Cartéis, em março, para o qual contribuiu o entusiasmo, não sem o sinthoma, de cada cartelizante. Os efeitos da Jornada, a contingência de um debate sobre o fenômeno trans no XXIII Encontro Brasileiro, bem como a transmissão nas escolas da AMP em torno da assunção da designação//nomeação trans, contribuíram para uma elaboração provocada que levou à reconfiguração do cartel em torno desse tema que, a cada dia, vem ganhando mais fôlego, tanto em sua dimensão clínica quanto epistêmica e política.
Na função de mais um, interroguei o rumo do cartel cujos temas se deslocaram para os modos de gozo, binarismo e pluralismo, feminização da cultura. Em encontro recente, concluímos que o cartel sofreu um reviramento e que, assim sendo, na função de mais-um, propus sua dissolução, não sem o convite para que cada uma decantasse um produto sobre Psicose ordinária para a próxima Jornada. No momento de selar a dissolução, que implica em perdas, houve um movimento entre nós para dar continuidade ao cartel com outro nome, já que o desejo de trabalhar permanecia vivo entre nós. Diante da demanda, advoguei pela dissolução do cartel e, como ato contínuo, pela destituição do mais-um, o que não impediu que outro cartel viesse, imediatamente, a se anunciar com os mesmos participantes sendo que, para a função do mais um, outro cartelizante foi convidado. Aliás, esta passagem também foi alvo de interrogação sobre os critérios de escolha do mais-um, pois, neste cartel, dos 5 participantes, apenas 2 são membros da EBP.
Apreciando o ocorrido, destaco que o cartel Psicose Ordinária realizou uma trajetória, possibilitando uma elaboração provocada e a transmissão da psicanálise, e que sua dissolução incidiu como um ponto de basta.

PSICOSE ORDINÁRIA
• Rubrica: Clínica: teorias e práticas

o Doris Rangel Diogo (Mais-Um) – Membro EBP/AMP – Psicose ordinaria – uma hipótese a partir da transferência
o Mirta Fernandes – Cartelizante – Incidências do acontecimento de corpo na clínica psicanalitica
o Vera Davet Pazos – Cartelizante – Como operar na transferência na psicose ordinária – o lugar da escuta na neotransferência
o Vanda Almeida – Membro EBP/AMP – Das externalidades ao gozo do Um e o operar do analista
o Romana Costa – Cartelizante – Psicose ordinária e amor louco

Rio de Janeiro, 8 de setembro de 2021.

Cartel Psicose Ordinária – um revirão.

Por Mirta Fernandes

Um caso clínico em torno da questão de gênero, uma interrogação sobre a hipótese diagnóstica de uma possível psicose ordinária e uma convocação provocada pelo burburinho das questões de gênero, que vem se fazendo presente no âmbito de nossa contemporaneidade, trazem muitos pontos de discussão para o cartel. Provoca no cartel um certo rebuliço ao interrogar e mobilizar todos os participantes em torno dessa questão. De certa forma, esse mergulho desviava cada um de sua formulação inicial de pesquisa e do texto base do cartel, introduzindo novas e até então inéditas pesquisas e leituras, num trabalho conjunto, instigante, fazendo arder a chama do desejo num trabalho de cada uma para todas. “O que desse caso, ou da questão colocada fez essa engrenagem se movimentar intensamente e estar aí pulsando de uma forma que nunca havia vivido numa experiência de cartel?” – uma pergunta que me faço. “Aconteceu uma surpresa para todas” – fala de uma cartelizante. O cartel se TRANSforma, ganha nova vida. A apresentação do caso na última Jornada de Cartéis coroa esse revirão, abrindo outro caminho de pesquisa para um novo cartel.

Rio, 29 de agosto de 2021

Comentários provocados pelos textos-produtos do cartel composto pela Diretoria da EBP-Rio entre 2019-2021

Maricia Ciscato

Me foi designada esta interessante função de um “mais-um ad hoc”, um mais-um “para esta finalidade”, a desta mesa. Se cabe ao mais-um fazer circular o efeito de sujeito no cartel, como afirma Miller, ele não o faz sem também se colocar a trabalho na questão que o cartel lhe provoca.

Miller nomeia o produto de um cartel como uma “elaboração provocada”.[1] Trata-se aí da proposta de trabalhar para a extração de um pequeno naco de saber, de uma elaboração que permita a cada um seguir avançando em seu percurso. Para mim, é um privilégio estar sendo provocada então, a elaborar, a partir dos produtos do cartel realizado por esta diretoria. Os textos de vocês me produziram questões, que retorno à mesa, não como perguntas a serem respondidas, mas, na melhor das hipóteses, para seguirem sendo trabalhadas por cada um, inclusive por mim.

 

O AE e o ódio à democracia

Começo com um ponto levantado no texto de Paulo. Paulo retoma a radicalidade da proposta de Lacan na “Proposição…” no que diz respeito ao lugar do AE. Diz Paulo: “O AE pode advir do tempo 0”, pois Lacan desfaz os supostos degraus a serem escalados um a um até uma imaginária ascensão a uma posição superior (AP, AME, AE). Isso provocou intestinas reações à época, pois, nas palavras de Paulo, introduziu uma pequena “catástrofe” na ordem vigente das sociedades psicanalíticas: a de que qualquer um (não importa quem) pudesse se autorizar analista, precisando, para isso, apenas testemunhar sobre a conclusão de seu percurso de análise.

Essa forma de Paulo apresentar a pequena catástrofe na ordem hierárquica, que Lacan instaurou no coração da Escola, ressoou em mim de várias formas. Numa delas, levou-me a outras áreas, ao me fazer recordar o argumento central de Jacques Rancière em seu livro “O ódio à democracia”. Rancière argumenta que há um ódio à democracia que decorre da radicalidade de seu princípio: a de que a qualquer um cabe a legitimidade política – sem garantias prévia a sinalizarem o merecimento de um lugar a partir de um conhecimento prévio (ciência) ou de uma determinada condição financeira (riqueza) – ou ainda, acrescento diante do nosso caos atual, dos designíos de um Deus.

Entender a democracia tal como Rancière a interpreta significa, segundo ele: “entender a batalha que se trava nessa palavra: não simplesmente o tom de raiva ou desprezo que pode afetá-la, mas, mais profundamente, os deslocamentos e as inversões de sentido que ela autoriza ou que podemos nos autorizar a seu respeito.”[2][3]

Me parece que essa proposta poderia se aproximar da chave de leitura a que Paulo nos apresentou o lugar do AE na Escola, ou seja, em seu âmago, a democracia “implica catastroficamente que cada um (não importa quem)”, sem dinheiro, ciência ou Deus, possa ocupar um lugar fundamental no contexto político. Você, acha, Paulo, que poderíamos pensar a Escola, neste sentido estrito em que Lacan lança o AE ao seu cerne, como uma experiência radicalmente democrática, na acepção trabalhada por Rancière?[4]

 

Escola oásis

Seguindo com meu breve retorno à Rancière, me deparei novamente com um pequeno texto de Miller, que circulou nas vésperas das eleições francesas, em 2017, sobre um livro de Rancière intitulado “Em que tempo vivemos?” – o texto de Miller se chama “Jacques Rancière, uma política dos oásis”. Retorno, então, mais uma vez – movida pelo belo título do texto de Paulo, “Modifiquei o deserto do Saara” (o qual quero retomar ao final), e pela instigante proposta do texto de Andréa Reis –, aos oásis.

Aliás, Andréa, devo à sua retomada da ideia dos oásis mais uma volta minha em torno da diferença entre “esperança e aposta”, conversa nossa antiga. Você ressalta em seu texto que os oásis definitivamente não são lugares de esperança. Eu concordo, mas isso só agudiza seu valor da aposta, necessária, de seguirmos abrindo brechas no presente, para respirarmos no agora, e não no amanhã, não acha? É a própria ideia do túnel que você retoma. A esperança visaria à luz no fim do túnel e a aposta à luz no túnel? Seria possível fazer, do túnel, oásis?

Na leitura de Rancière, assim como na nossa, no tempo em que vivemos, o capitalismo “mais do que um poder se tornou um mundo”, não se trata mais apenas de um jogo de poderes, pois vivemos, andamos e respiramos nesse meio.[5] “Só digo [diz ele] que uma política de emancipação existe sob a forma da interrupção de um tempo normal ou talvez também de uma fenda, de uma ilha ou oásis que se faz dentro do tecido normal das relações sociais.”[6]

Em seu comentário, Miller afirma, como vimos com Andréa, que a “seu oásis, Lacan o chamava Escola”.[7] E retoma o Ato de Fundação, em que Lacan afirma sobre o termo Escola: “Ele deve ser tomado no sentido em que, em tempos antigos, significava certos lugares de refúgio, ou bases de operação contra o que já então se podia chamar de mal mal-estar na civilização”.[8]

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O trabalho de Escola em tempos de travessia: exílios, abrigos, oásis.

Por Andréa Reis Santos

“Seu oásis, Lacan o chamava de uma Escola”1

Iniciamos esse cartel para estudar a lógica de Escola, como antídoto ao automaton que poderia advir da rotina institucional. As eleições presidenciais tinham acabado de acontecer e o clima era de apreensão com a perspectiva de tempos sombrios para o país. Nesse cenário queríamos acima de tudo trabalhar para manter um ambiente propício à lógica anti-segregativa da psicanálise, propício ao tanto de vida e de desejo que a sua experiência pode produzir, na contramão da desesperança generalizada que reinava em torno.

Começamos pela Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola2, texto de virada, onde um Lacan vivíssimo e herético subverte completamente a lógica da formação do analista. Texto que tem efeito de ato. Interpreta a Escola, tira tudo do lugar quando desloca do centro da formação a figura do analista experiente e põe em destaque o AE, fruto da experiência de análise. Gosto muito de um texto de Romildo3, onde ele afirma que a Proposição é uma proposta institucional, que sua marca essencial é a articulação entre o funcionamento da instituição de psicanalistas e a experiência analítica, ou entre a instituição e o discurso e, que essa articulação resulta em um equilíbrio nada estável. 

É justamente essa instabilidade que nos leva a perguntar sobre como orientar o trabalho de Escola para que a psicanálise possa vez ou outra se hospedar ali. Que tipo de casa é capaz abrigar uma Escola? Naquela época sonhávamos com uma “Escola Oásis”, tomando emprestado essa imagem forte de Hanna Arendt4 que tinha sido usada em belos textos de Maricia Ciscato5 e Paulo Vidal6. Sonhávamos com uma Escola que servisse de abrigo, ponto de parada e de respiro em uma travessia que não parecia nada promissora.

Não imaginávamos a dimensão e a aridez do deserto que nos aguardava. A busca pelo asilo, um abrigo, é uma questão mais que atual. A pandemia e a imposição do isolamento interromperam qualquer projeto de ocupação de territórios concretos em sintonia com a premissa freudiana do inconsciente, de maneira propícia, por exemplo, à circulação do múltiplo, lugares anti-segregativos.

Foi nesse cenário que nos engajamos no desafio de conversar sobre os exílios, tema que foi crucial para não perdermos o rumo. Exílios, no plural, nos conduziu a um enlace com outros saberes: Exílios fala de segregação, fala de fronteiras, de racismo, de território e de extimidade . Se partimos do nosso solo mais familiar, que é o campo da psicanálise, nos encontramos às voltas com o sujeito que é exilado por natureza, que não tem lugar garantido, que precisa pedir abrigo, encontrar meios de habitar um corpo, uma língua, um lugar na relação com o outro. Precisa achar meios de fazer caber no mundo o singular de sua existência e com ele criar laços no coletivo.  

Isso já está esboçado em Freud, com o descentramento do eu. Lacan o traz para o centro da cena quando toma Joyce como o exemplo encarnado do exilado na relação única que estabelece com a língua, e Miller7, por sua vez, quando destaca de Lacan e transforma em conceito o termo extimidade que serve pensar o exílio, mas não só. Êxtima é a posição do analista na experiência da clínica, é também a natureza própria do sujeito do inconsciente, da sua constituição em relação à alteridade do Outro, do sujeito frente ao real da diferença sexual, exilado fora de si, fora de sua humanidade. 

Essa lógica, que é a nossa lógica, de “todos exilados”, carrega uma verdade, mas ela requer de nós o cuidado de não deixar com que absorva completamente, que encubra o que há de particular em cada forma de exílio8. Principalmente em um momento no qual o termo exilado passou a encarnar mais do que nunca os efeitos de segregação e de desigualdade social produzidos pela lógica feroz e desumana do capitalismo. 

Trabalhamos em torno dessa afirmação forte: “o real se dispõe, não no começo ou no fim, mas na própria travessia”. Avesso da fantasia neurótica, de que a vida para valer está sempre por vir ou fica presa atrás em um passado, seja traumático, seja idílico. É na travessia que os encontros capazes de produzir efeito de acontecimento e de presença se dão. É no durante que as coisas acontecem. 

É o que diz Miquel Bassols9:  ao invés de esperar a luz no fim do túnel, esperar o fim da pandemia, a vacina, a tão proclamada “volta ao normal”, o que ele sugere é ficar por ali se arranjando com o que há, sem esperar a saída. Virando-se dentro do túnel. 

É assim que está sendo o trabalho de Escola nesses tempos de travessia. Estamos às voltas com os arranjos coletivos em um trabalho sem garantias, seguindo em frente sem nenhuma pista do fim do túnel. Os tempos prometem um futuro mais que sombrio para o nosso país e, para pensar em um modo de funcionar no mundo quando o mundo se apresenta na sua face de horror, na sua face mais dura e árida, voltamos a apelar para a figura forte do oásis, novamente os oásis, não como lugar de repouso, de relaxamento, destinado à esperança, mas como base de operação contra o mal-estar na civilização10, espaços que têm o poder de inverter a lógica mortífera da segregação. A pergunta se mantém mais forte que nunca: seria demais pensar em uma Escola capaz de produzir e manter oásis, como um espaço de autonomia e de resistência? Uma Escola que sustente acontecimentos capazes de criar vida pulsante na aridez do deserto e, agora além disso, na escuridão do túnel?

Notas

  1. Miller J.A Jacques Ranciére, uma política dos Oásis. 2017 (dica preciosa da Maricia a quem agradeço muito)
  2.  Lacan, J Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola In Outros Escritos 
  3.  Romildo do Rêgo Barros A proposição é uma proposta Institucional In Correio 81
  4.  ARENDT, H. De deserto e de Oásis. Em: O que é Política? – Fragmentos das Obras Póstumas Compilados por Úrsula Ludz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
  5.  CISCATO, Maricia. Os oásis nossos de cada dia. Disponível em: <https://loucuraseamores2017.wordpress.com/2017/10/31/os-oasis-nossos-de-cada-dia/>.
  6. VIDAL, Paulo. Provocado pelo Corpo Elétrico. Disponível em:  <https://loucuraseamores2017.wordpress.com/2017/11/08/provocado-pelo-corpo-eletrico/>. 
  7. Miller, J. A. (2011a). Extimidad. Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós.
  8.  Marcus André Vieira insistiu nessa advertência durante os encontros do cartel que coordenou as Jornadas sobre Exílios: sintoma corpo e território.
  9.  Bassols, M. https://zadigespana.com/2020/04/05/coronavirus-que-nos-podemos-encontrar-al-final-del-tunel/
  10.  Miller J.A Jacques Ranciére, uma política dos Oásis. 2017

Amarrações no trabalho de Escola: consentir com o que há, saber perder o que não está

Por Renata Martinez

Posso dizer, agora com um tanto de certeza, que a lógica de funcionamento do cartel foi uma das apostas fortes dessa diretoria. Esse trabalho no pequeno grupo, com tempo e número de participantes limitado, onde é preciso dar de si – solitariamente –, mas entre alguns, foi inventado por Lacan e nomeado como “orgão de base”1 na refundação de sua Escola. Reiteradas vezes, Miller sublinhou a importância do cartel, destacando que seu trabalho “é congruente com o trabalho da Escola”2.

O trabalho da Escola, com artigo definido – fazer viva a causa analítica na civilização -, pode-se delimitar numa preciosa citação do Ato de Fundação3,  mas também é preciso derivá-lo de inúmeras maneiras, expandi-lo pelas mais diversas tarefas exigidas pelas instâncias e cargos que fazem consistir esse Outro-Escola. Quando assumi a Diretoria de Tesouraria e Secretaria, esse era o meu imbróglio: sabia dos riscos implicados no império da burocracia sobre o desejo, mas como escapar disso?  Como furar o já constituído do funcionamento da instituição sem desfazer completamente o arranjo fundamental e necessário para que o trabalho aconteça?

Entendi ou apenas acreditei que o cartel poderia cuidar para que eu não fosse tragada pelas planilhas e números, e nem afogada pelo transbordamento das águas. Entre repetição e contingência, nesse funcionamento em tensão, havia muito trabalho a fazer.

Do funcionamento de um cartel, Lacan também diz que “não se espera nenhum progresso além daquele de uma exposição periódica, tanto dos resultados quanto das crises de trabalho”4. Assim, a partir da provocação à elaboração que partiu da atual Diretora de Cartéis para estarmos hoje aqui, me coloquei a pensar sobre esses dois anos de entrelaçamento do cartel e da diretoria e o quanto disso poderia recolher como “resultado”, mas também e, principalmente, como “crise”, tentando elaborar um tanto de saber com a experiência atravessada.

Partimos da Proposição5 rumo ao desconhecido e nos permitimos seguir um fluxo de leitura bastante errático. Os textos apareciam conforme a necessidade da vez. Nossos encontros eram marcados um a um, com espaços de tempo muito irregulares, chegando a ficar 5 meses sem acontecer. As desmarcações eram frequentes, pois muitas vezes nos víamos engolidas por atividades ou situações emergenciais na Seção. Enfrentamos também, cada uma a sua maneira, um certo imperativo superegóigo sobre o texto não lido, o dever não cumprido… Com a chegada da pandemia e a presença maciça do “on-line”, os encontros passaram a acontecer sempre colados às reuniões de Diretoria e não era raro o mais-Um entrar e ainda continuarmos por algum tempo com questões levantadas anteriormente. Assim, nesse amálgama diretoria/cartel, descompletado pelo êxtimo, nasceu a ideia do formato das XXVII Jornadas da Seção Rio e, a partir daí, nos vimos por meses fazendo parte do cartel ampliado.  O cartel no cartel, entretanto, não se dispersou, ganhou novos contornos e nos trouxe até aqui.

Fiquei pensando sobre o que possibilitou, apesar de tantos percalços, que construíssemos esse caminho. Foi então que recuperei, graças a Arquivos 16, os textos de Rodrigo Lyra6 e Nohemí Brown7 da última Jornada de Cartéis. Ao relê-los, entendi que, de fato, ao longo desses dois anos, colocamos o dispositivo à prova e verificamos seu uso. 

Na lida tenaz com a precariedade em jogo, fizemos um movimento do Ideal à realidade efetiva (Wirklichkeit), possibilitando assim o movimento. Ao mesmo tempo que consentimos com algo que estava ali (uma marca singular, um real?), soubemos perder o que acreditávamos que poderia estar.  

Com bastante alegria, posso afirmar que nesse trabalho, a causa analítica foi, em si mesma, uma abertura ao real que tocou e fez vibrar o laço singular de cada um com sua Escola.

Notas

1. Lacan, J. D’Écolage. In: Manual de Cartéis. Belo Horizonte: EBP e Scriptum. 

2. Miller, J-A. Novas reflexões sobre o cartel. In: Manual de Cartéis. Belo Horizonte: EBP e Scriptum

3. – “[trabalho] que, no campo aberto por Freud, restaure a sega cortante de sua verdade; que reconduza a práxis original que ele instituiu sob o nome de psicanálise ao dever que lhe compete em nosso mundo; que, por uma crítica assídua, denuncie os desvios e concessões que amortecem seu progresso, degradando seu emprego”. 
Lacan, J. “Ato de Fundação”. In: Outros Escritos. Ruo de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, pg. 235.

4. Lacan, J. D’Écolage. Op.cit

5. Lacan, J. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editora, 2003.

6. Lyra, R. A lucidez atual do cartel. In: Arquivos da Biblioteca n.16. Rio de janeiro: EBP Seção Rio. Dezembro 2020.

7. Brown, N. O cartel e seu funcionamento na lógica de Escola. In: Arquivos da Biblioteca n.16. Rio de janeiro: EBP Seção Rio. Dezembro 2020.

Quando a Escola acontece

Por Andrea Vilanova 

Este é um momento para celebrarmos nosso trabalho de Escola, a partir do alcance da máquina de guerra que é o cartel, nas palavras de Lacan. Vou me servir do significante “ancoragem”, que reverberou na primeira mesa da manhã, para destacar o alcance do trabalho de Escola – na perspectiva do que pode oferecer a cada um e a todos nós aqui reunidos – frente à dureza e à truculência desses tempos que vivemos.

Este esforço de redução, convocado pela diretoria de cartéis e intercâmbio, é fruto de um trabalho realizado ao longo dos dois anos de atividade em nossa diretoria. Pude recortar aqui uma questão que acompanha meu trânsito e que encontrou na realização do cartel com minhas colegas de diretoria Andréa Reis, Ana Tereza e Renata, tendo Paulo Vidal como mais-um, uma chance de dizer algo mais. No caminho, o território da OL foi ganhando cartografias múltiplas, a partir de diferentes experiências de Escola. E, a cada vez, me sustento do que me surpreende nesses passos. 

A Escola, que não se confunde com a instituição na forma de estatutos e afins, emerge como acontecimento, alojando aquilo que aí colocamos de nossa transferência com a OL. Para que haja Escola, não basta estarmos protegidos e acolhidos em um sentimento de pertencimento a um grupo determinado, sob a lógica do reconhecimento. Isso não sustenta Escola, seu avesso não tarda, já sabemos.

O trabalho de Escola, a partir da sustentação de uma posição institucional, ancora-se num desejo que, não sendo anônimo, dá ao cargo uma cara e um estilo. A permuta nos cargos – tempo determinado para esse exercício –, cumpre uma função central para a Escola e, também, para cada um que empresta sua presença a essas funções que constituem a armação que sustenta a existência da Escola, uma estrutura que precisa ser habitada.

Como essa engrenagem não se reduz à burocracia? Como torna-se possível a cada um entrar no jogo como singularidade e daí produzir-se um enlace com os outros? Advertidos de que é a partir daquilo que não se compartilha que algo pode se coletivizar, proponho retomar o Witz como matriz de leitura para uma hipótese de trabalho em torno do acontecimento Escola. 

Entre a solidão do Um e o laço com alguns outros, a cada vez, a Escola acontece. A perspectiva do Witz aponta para isso que acontece, surpreende, irrompe na cena da enunciação em presença de alguns outros, que sancionam uma mensagem que dá corpo ao Outro que se renova em sua inconsistência. São grãos de satisfação, grãos de real que sempre brotam de onde não se espera, e iluminam por instantes um certo saber-se da paróquia, não sem a ironia que isso comporta. 

“Modifiquei o deserto do Saara”*

Por Paulo Vidal

Por deslocar e atualizar incessantemente conceitos e palavras, o ensino de Lacan é quando muito localmente sistemático, como se nota rastreando o título AE, que surge na ata de fundação da EFP (1964). Nesta, a formação inclui 3 tempos: T1, ser membro; T2, ser AME e T3, ser intitulado AE. Conclusão da formação do analista, o AE é o titular, como se diz professor titular na hierarquia universitária. Na primeira versão da proposição, a nomeação AME é convite para se apresentar à qualificação AE, e persiste a ideia da formação de um analista cuja competência seria verificável. Publicada logo depois, a segunda versão disjunta AME e AE, o AE pode advir num T0. O que ocorreu entrementes? Durante a discussão da primeira versão, Valabrega objetou que o passe assim “instalará o não analista no coração da experiência analítica”, que o aforismo central da proposição “o psicanalista só se autoriza dele mesmo”, implica catastroficamente que “cada um (não importa quem) pode se autorizar a ser analista”. Lacan responde “que quer colocar não analistas no controle da experiência analítica”, só que não analista não equivale a não analisado. O passe é passagem a analista e não analista, ao analista em intensão corresponde na psicanálise em extensão o não analista, analisante por exemplo. Quem se apresente na extensão como “eu não penso”, cai no ridículo. Na lógica, intensão é a compreensão de um conceito, extensão designa os objetos que caem sob o conceito. Qual seria a extensão de “o psicanalista”? Questão que motiva a escola, ou seja, temos um analista, outro analista, mas nenhuma propriedade universal os subsome numa categoria. Pelo contrário, cada AE modifica a classe já existente dos AE, transmuta inclusive o sentido do termo. Basta que mude “um fio de cabelo” (Lacan). O que faz jus à distinção entre hierarquia e gradus: na Antiguidade, gradus (passo) designava o manual de prosódia do qual o sujeito se servia no difícil passo da criação poética. Quanto à hierarquia, conduz a categorias superiores os passos do sujeito que preenchem as demandas institucionais.

* Frase pronunciada por Jorge Luis Borges quando, em visita ao deserto do Saara, deixou escorrer
pelos dedos o punhado de areia que recolhera na mão.

Cartel e ensino, um enlace entre forma e conteúdo

Por Ana Teresa Groisman

 “A razão por que jamais atacarei as formas instituídas é que elas me asseguram sem problemas uma rotina que gera minha comodidade”[1]. Essa frase irônica, recolhida por Lacan de um psicanalista americano, encerra a “Proposição de 09 de Outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”, texto em torno do qual iniciamos o trabalho em Cartel que acompanhou nossa diretoria até aqui.

O caráter chistoso da frase resulta da proposição feita que subverte, inteiramente, tudo o que balizava as instituições de psicanálise até então. O que era instituído, é posto abaixo e o novo se institui no funcionamento da Escola e na formação que ela dispensa.

A Escola foi criada para que o ensino de Lacan encontre um lugar. No entanto, para que ele aconteça, não basta um lugar que o acolha, é necessário assegurar para os psicanalistas as estruturas asseguradas para a psicanálise[2].

Orientada pelo texto e pela subversão que ele propõe, penso que a psicanálise se estrutura a partir dos três registros que acompanham e orientam o ensino de Lacan desde seus primórdios: o Real, o Simbólico e o Imaginário são elementos que organizam uma leitura clínica, teórica e política da psicanálise.

Se as sociedades da época se mantinham sob estruturas rígidas e lugares imaginariamente instituídos, a Escola de Lacan coloca em seu centro o real como impossível sobre o qual se fundam as sociedades de psicanálise. As questões imaginárias exigirão seu deslocamento simbólico para que o real em jogo possa ser tratado.

A proposta do passe exemplifica essa virada e restitui o lugar analisante como fundamental, na construção teórica de Freud. E o Cartel surge como um dispositivo privilegiado para tratar simbolicamente os entraves imaginários que tamponam o real da experiência. “Os que desejam se aproximar da Escola serão admitidos com base em um projeto de trabalho”[3]. O Cartel se alia ao ensino, na medida em que acolhe a pergunta de cada um que se aproxima. Questões sobre a formação do analista são sustentadas no laço transferencial com o pequeno grupo e encaminhadas de tempos em tempos à Escola.

Outra afirmação do texto que nos colocou a trabalho, diz que: “A Escola pode (e deve) garantir a relação do psicanalista com a formação que ela dispensa”[4] como cada um de nós enquanto membro de Escola, pode garantir que essa relação se faça? Vivemos um momento de dispersão e mais do que nunca precisamos cuidar dessa relação. Isso não deve se confundir com um controle, pois cada um vai construir seu percurso de forma singular, contudo é fundamental que possamos (enquanto membros de Escola) garantir que os efeitos de formação tenham lugar e se enlacem no marco Escola. Há um ir e vir permanente, do psicanalista em formação para a formação de analistas.

A Escola acontece em seus efeitos de formação, uma formação que não visa um fim, mas que tem como finalidade manter-se viva e vivificante nas marcas que produz em seus membros e é produzida por eles.

O encontro de Cartéis pode ser um bom momento de recolher, decantar e alinhavar o que cada um pode elaborar sobre o indizível da formação do analista, e de acolher os efeitos de ressonância dessas elaborações em outros corpos e lugares de ensino.


[1] Lacan, J.: Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola, in: Outros escritos, 2003- JZE, Rio de Janeiro, p. 264

[2] Idem, p. 248

[3] Idem, p. 249

[4] Idem, p. 249

Rolar para o topo