A madame saiu: Lélia Gonzales e a subversão do sujeito

 Conversa com Danielle Menezes e Geisa de Assis, que pode ser ouvida em:

Como resgatar uma história não apenas perdida, mas sobre a qual incidiu um silenciamento radical? Radical, por visar todo um mundo de gente fadada à exploração e à inexistência. E como minar esse racismo estrutural que segue vigente nos corações e corpos de todos nós? Lélia Gonzales o faz “numa boa”, como diz. Não é exatamente uma ação revolucionária, no sentido de sonhar com a substituição de uma estrutura nefasta por outra melhor. Também não busca a destruição desse mundo, mas muitas vezes produz sua mudança por dentro, que Lacan chamou de subversão. A subversão se faz pelas falas de sujeito, falas de uma singularidade que perturba uma situação viciada semeando a possibilidade de uma mudança. Essas falas não vêm do céu, mas, para Lélia, da lata de lixo, retomando o que propõe Miller para o fazer do analista. Lélia anuncia seu programa: “o lixo vai falar, e numa boa”. O lixo não é alguém, mas, sim, os restos, em alguém, do que não se chegou a dizer. A esse lixo não será preciso conceder lugar de fala, mas ele próprio criará seu lugar. 

É fazer valer a potência subversiva do que é silenciado, mas, que, nem por isso, deixa de agir. Pelo contrário. Isso, inclusive, força passagem em nossa língua através das marcas, das cicatrizes e dos destroços que não puderam ser eliminados. Nesse sentido, por exemplo, Lélia resgata tudo o que foi dito, um dia, a respeito da figura da mucama para reler a falsa oposição entre a mulata hipersexualizada e a dócil empregada. Ela conta, ainda, ao modo do chiste, como respondeu ao entregador que toca à campainha e pergunta: “A madame está?” E ela diz: “Não, a madame saiu”. Em vez de conscientizar o entregador de que a madame não existe e nem deve existir, ela o força a lidar com o paradoxo de uma “dona” negra.

Como o silenciado é feito de memória, fragmentos de cenas, palavras, cheiros e sons perdidos, seu impacto é estranho. E, às vezes, o essencial é apenas uma dobra na língua. Para alguns, no exemplo de Lélia, a tendência a falar Framengo, em vez de Flamengo, pela impossibilidade de em algumas línguas banto articular o fonema “fla, ou o “ble” de problema.

É sua tese de base: nosso mundo tem em grande parte ossatura negra, assim como indígena, que reverbera. Basta alguém enunciar Oxalá, por exemplo. As ressonâncias vão longe. Aposto que nem mesmo os donos do agronegócio ou os empresários paulistanos são insensíveis aos ecos do tupi ou do iorubá de nossa conversa de todo dia. É o pretuguês, de Lélia. A língua brasileira, ou melhor, das terras de uma “Améfrica ladina”, expressão resgatada por ela do psicanalista MDMagno. O pretuguês é o português que se deixa atravessar pelo que de sua história foi, mais que rechaçado, estraçalhado. Suas marcas, porém, estão no ar, na argamassa do que nos constitui. Somos filhotes da cultura, feita não apenas do que se vê e sente, mas também do que se pressente na ponta da língua, desses restos linguageiros que Lacan chamou lalíngua.

Que a leitura de Lélia possa ser usada não apenas pelos calados por um silêncio assassino, para encontrarem um caminho de fala e transformação. Mas, também, para que se aquilate como a interpretação psicanalítica se utiliza da lalíngua do analisante para fazer o novo falar. Aprendemos com ela sobre o modo como o analista pode, com sorte e muita transpiração, fazer valer, em uma vida, o lixo como abertura a um novo horizonte.

Marcus André Vieira

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