
Um acordo com o tempo?
Cláudia Formiga (EBP/AMP)
Com o convite para escrever uma das “crônicas delirantes” da VI Jornada Delírio e interpretação, passei a prestar atenção às notícias e aos pequenos acontecimentos do cotidiano, à procura de algo que me permitisse articular interpretação, delírio e real.
Foi numa conversa com amigos que encontrei o tema sobre o qual escrever. Alguém comentou sobre uma notícia de jornal, que a mim pareceu saída de um texto de realismo fantástico: falava da existência da Fundação Cacique Cobra Coral, uma instituição que existe há décadas e cuja missão é negociar com o tempo e controlar o clima. Entre seus interlocutores estão até prefeituras, que a ela recorrem com o fim de afastar a chuva de grandes eventos como Carnaval, Réveillon…
Como se dá essa negociação? Segundo a notícia, funciona assim: uma médium incorpora o espírito de um índio, o cacique Cobra Coral, entre cujos poderes está “minimizar os estragos causados por desastres naturais”.
Minha primeira reação foi de espanto.
A segunda me veio sob a forma de uma lembrança: Eu devia ter uns nove ou dez anos quando, num domingo nublado, desenhei com um giz amarelo no cimento da calçada um sol enorme, com muitos raios…
Não sei exatamente se acreditava que aquilo faria mudar o céu. Mas ali havia uma espécie de “acordo silencioso” que eu fazia com o tempo. Eu queria ir à praia e, diante da ameaça de chuva, tentei fazer existir alguma mediação entre o meu desejo e as nuvens.
A notícia sobre a Fundação Cobra Coral me interessou menos pelo que ela diz sobre o clima e mais pelo que revela sobre a nossa relação com o imprevisível. Em um mundo que calcula, prevê e monitora quase tudo, ainda encontramos no céu um ponto de opacidade.
O que procurariam aqueles que recorrem a uma instituição cuja missão é conversar com as nuvens?
O clima talvez seja um dos nomes mais antigos do real. Freud já observava que a humanidade produziu seus deuses para domesticar as forças da natureza. Danças da chuva, preces, oferendas e sacrifícios foram artifícios com que, sem terem o domínio do céu, os homens tentavam negociar com ele. Hoje, serviços de meteorologia até podem predizer o tempo, mas não impedir uma tempestade.
Lacan nos ensina que diante do que escapa à simbolização, os seres falantes não cessam de produzir sentido. E que o delírio é uma construção de sentido diante de um ponto de irrupção do real. O real do clima não está em que a chuva caia, mas em que ela caia indiferente à nossa vontade, sem nenhuma intenção ou destinatário. O que o delírio produz é justamente um destinatário, uma intenção. E a chuva, de acontecimento meteorológico, passa a algo com que podemos negociar.
E por que a ideia de negociar com as nuvens continua a fazer sentido pra nós?
Penso que a existência, hoje, de uma instituição cuja missão é controlar o tempo encarna uma versão contemporânea dessa antiga tentativa de interpelar o real.
Seja sob o nome da ciência, da religião, da política ou da magia, continuamos procurando alguém que nos garanta que não vai chover justamente no dia do casamento ao ar livre ou quando tudo que queremos é pegar uma praia.
A Fundação Cobra Coral parece oferecer uma interpretação para aquilo que de outro modo permaneceria entregue ao acaso. E, dessa forma, uma mediação entre o humano e o real sem lei.
E sempre que o real se mostra indiferente aos nossos cálculos, reaparece em nós o desejo de que exista alguém com quem ainda seja possível negociar.
Nem que seja com uma nuvem.
