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Para instigar

Dentre as inúmeras pérolas recolhidas no trabalho de pesquisa da Comissão de Referências, destacamos algumas para uma pequena intervenção em forma de comentário acerca de algumas passagens cruciais em Freud, Lacan e Miller que remetem ao tema da nossa Jornada. Entregamos a primeira delas, para instigar outras elaborações.

Cassandra Dias
Coordenadora da Comissão de Referências

Rosemarie Mooneyhan
Comissão de Referências 

Freud, em ‘Recomendações ao médicos que praticam a psicanálise’ (1912) nos presenteia com uma citação brilhante e atual: “O médico deve ser opaco para o analisando, e, tal como um espelho, não mostrar senão o que lhe é mostrado.” ¹ Nesse texto, ele oferece regras técnicas, baseadas em sua trajetória de longos anos de experiência. Especificamente com relação à citação destacada, a recomendação é a de que o analista evite oferecer ao analisante sugestões ou respostas que venham tamponar as construções do próprio analisante. É importante que o analista sustente uma presença com a escuta atenta aos ditos e formações do analisante. “Ser opaco”, não significa estar ausente, e sim, uma maneira de se abster de ocupar o lugar de saber sobre o falasser, sustentando o lugar de objeto a causa do desejo, para que o mesmo possa produzir algo de singular.

A recomendação de Freud de que o analista seja “opaco” e funcione como um espelho adquire um relevo particular ao pensarmos a questão da interpretação. Ao não oferecermos um saber pronto ao analisante, o analista evita que a interpretação se degrade em sugestão ou em imposição de sentido. Essa posição é decisiva sobretudo diante do delírio, tal como Freud o aborda no caso Schreber: “o que consideramos produto da doença, a formação delirante, é na realidade tentativa de cura, reconstrução.” ² Se o analista abandona a opacidade e se coloca como aquele que sabe, corre o risco de entrar na lógica delirante, seja confirmando-a, seja combatendo-a, em ambos os casos, dando consistência. A opacidade recomendada por Freud, ao contrário, sustenta um lugar onde a palavra do analisante pode se desdobrar sem ser capturada, permitindo que a interpretação incida não como explicação, mas como corte, deslocamento ou pontuação. A interpretação não visa revelar um sentido oculto, mas operar sobre o gozo.

Referências
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2. FREUD, Sigmund. (1912) Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia (dementia paranoides) relatado em autobiografia. Obras completas, volume 10: Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia: (“O caso Schreber”) artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). Tradução Paulo César de Souza. 1. Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. P. 94

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FREUD, Sigmund. Moisés e o monoteísmo [1937]. In: ______. Moisés e o monoteísmo, Compêndio de psicanálise e outros textos (1937-1939). Obras completas. v. XIX. Tradução de Paulo César de Souza. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p-13-188.

FREUD, Sigmund. (1940) Compêndio de psicanálise [1940]. In: ______. Moisés e o monoteísmo, Compêndio de psicanálise e outros textos (1937-1939). Obras completas. v. XIX. Tradução de Paulo César de Souza. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 189-273.

Liana Feldman

“Com a oferta, criei a demanda”, diz Lacan ao concluir o item 7 do texto A direção do tratamento e os princípios de seu poder, nos Escritos. Com a oferta de falar, o sujeito demanda a cura, o conhecimento da psicanálise, “mas ele sabe muito bem que isso seriam apenas palavras”. P. 623

Lacan se opõe às inserções de sentido numa análise. Não atenderá à essa demanda imaginária curativa. Prescinde da tradição da psicologia com os jogos de palavras e protocolos, e sugere que a escuta do analista seja para-além do discurso, podendo ouvir o indizível. A interpretação reside nisso que surge sem-sentido, apontando com o corte o núcleo do gozo, em vez de dissertar supostas elucidações a respeito do sujeito.

Assim, Lacan difere o caminho de ouvir e de auscultar. Essa ausculta que tenta traduzir, com base no imaginário do analista, somente dá força ao eu do analisante, e no que confirmamos em nossa prática atual, também ao sintoma. Para explicar a escuta do indizível, ele sintetiza: “o que escuto é por ouvir”, P. 622. E logo em seguida lança: “ouvir não me força a compreender.” P. 623.

A frase soa enigmática. É uma redução que se faz aforismo, e Lacan explica: o que se ouve é um discurso, mesmo que seja uma interjeição ou qualquer outra parte com efeitos de sintaxe numa língua determinada. Dessa maneira, as sutilezas são ouvidas numa análise, ainda que indizíveis ou incompreendidas. Um barulho da língua, um ponto de real.

Lacan acrescenta que, se compreende algo, tem a certeza de estar enganado. Por quê? Como ele se afasta da interpretação enquanto tradução ou sentido, prescindindo do imaginário do analista, abre o campo da escuta para o que ressoa do real. O para-além do discurso que aproxima o sujeito da verdade e provoca as nossas reflexões: “será esse o procedimento da análise, um progresso da verdade?” P. 622. Uma análise que preserva o indizível. 

Referência:
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