
Sonho de uma sessão líquida
Christianne Alcântara
Era uma vez uma terra chamada Brasil, onde os habitantes eram acometidos de um delírio coletivo chamado futebol. Eles cresciam convencidos de que a vida se resumia a dez pessoas correrem atrás de uma bola sobre um gramado verde, enquanto outras dez tentavam tomá-la para levá-la à rede adversária. O objetivo era o mesmo: colocar a bola dentro da rede (protegida por uma outra pessoa, além dos dez) e ganhar. Embora ninguém soubesse exatamente o quê. Cada torcedor simbolizava a seu modo a perseguição incessante daquela bola de couro, um verdadeiro objeto a, causa de um desejo que nenhuma vitória poderia aplacar.
De quatro em quatro anos, o delírio se intensificava: colocar a bola na rede virava questão de vida ou morte – a própria definição de uma Copa do Mundo (torneio mundial de futebol). Cabia a onze corpos salvarem os brasileiros vestidos de verde e amarelo, gritando em uníssono a palavra que organizava o caos social daquela terra — “Gol!”, significante-mestre ao qual se amarravam, como para garantir, presos à linguagem, alguma sobrevivência diante do abismo do Real.
Uma noite sonhei que era brasileira. Diante do espelho, vestindo verde e amarelo, vejo Menino entrar no meu quarto sem pedir licença. Deita-se na cama com uma intimidade que eu desconhecia, já uniformizado — em poucas horas estaria em campo.
— O que você está fazendo aqui?
— Não sei. Só sei que vim parar neste quarto.
— Você precisa ir pro campo agora.
— Não sei o que fazer lá. São todos loucos. Querem que eu garanta o hexa. Mal consigo me levantar desta cama.
Lembrei Lacan: “todo mundo é louco, isto é, delirante”[i]. Pensei que Menino, ali, não passava de um delirante, corporificando o sintoma de um país inteiro. Amedrontada e não menos delirante — minha vida parecia depender daquele corpo —, arrisquei:
— Mas o que você quer?
Ele me ignorou. E foi no silêncio dele que ecoou naquele quarto a pergunta clássica do desejo — Che vuoi? — que acabava de lhe dirigir.
— Você precisa ir embora. Nunca vi você assim, ao vivo. Sempre vejo você brigando, caindo ou chorando em campo.
Tentei arrastá-lo pelo braço; era maior e mais pesado que eu. De menino, Menino nada tinha — sua presença impunha-se ali como matéria bruta, desprovida da ilusão televisiva.
— Não vou fazer mais nada. Não faz sentido pra mim.
Senti a cabeça rodar e delirei sobre o sentido (ou o sentido é um delírio em si mesmo?), enquanto ele continuava:
— Não vê que é loucura? Como posso ganhar o hexa[ii]? Isso é obsessão. Além do mais, se ganhássemos…
Ele fez uma pausa dramática, os olhos fixos nos meus, como quem está prestes a revelar a verdade última da estrutura neurótica daquela nação:
— O que seria do Brasil se eu desse aos seus habitantes o que eles dizem desejar?
Acordei com essa pergunta ainda dissolvendo os contornos entre o quarto e o campo, entre torcedora e analista, entre Menino e sintoma — tudo escorrendo um no outro, como só numa sessão pode escorrer o que a vigília insiste em separar.
Posfácio
Naquele ano, Menino até foi pro campo, mas o Brasil perdeu. Reza a lenda que Menino nunca mais jogará. A grande vencedora foi a Espanha para delírio geral das brasileiras e brasileiros que, no dia da grande final, vestiram vermelho e amarelo.
