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Prá poesia que a gente não vive transformar o tédio em melodia1

Vânia Ferreira

 

                                                              A vida humana- na verdade toda a vida – é poesia.

Lou Andreas-Salomé

O que pode fazer a poesia? Transformar o tédio em melodia? Essa seria uma resposta possível do poeta.

Cazuza, por meio desse fragmento poético, demonstra a potência criativa e interpretativa da poesia.  O poeta rompe com o sentido literal e faz um equívoco apontando para o que na Orientação lacaniana chamamos de Real.

Em Freud e também em Lacan a literatura e a poesia perpassaram toda a obra de ambos desde o início até o final. Desde Sófocles, com o mito de Édipo, Freud se serviu dos maiores escritores da humanidade, a exemplo de Goethe, Dostoiévski, Shakespeare e tantos outros que o ajudaram a compreender o inconsciente. Além de trabalhos que contemplaram os poetas e escritores como no texto Escritores criativos e devaneios de 1908, já no início da sua obra, Freud faz uma recomendação muito importante diante dos limites da psicanálise: deixa ao encargo dos poetas e escritores a tarefa do entendimento humano.

Lacan continuou nessa trilha, dando um lugar privilegiado a poesia, inserindo-a como estrutural no inconsciente. O inconsciente é estruturado como uma linguagem diz o Lacan dos anos 50. O inconsciente é estruturado como um poema, diz Lacan no final do seu ensino.

Será que podemos articular a poesia com os dois significantes que regem a nossa jornada? Delírio e Interpretação?

A poesia, pelo seu efeito de equivocação, vai se aproximar do inconsciente real de lalíngua. Diante do impossível de dizer a verdade toda, a poesia na contramão do sentido, elucida a verdade sempre não toda para tocar o real. Para tocar o impossível de suportar.

No seminário Lìnsu que sait de L´une-bévue s`aile mourre, Lacan vai trazer a interpretação pela via poética para justamente alcançar esse efeito de furo. Pois a interpretação vai pela via de um esvaziamento de sentido.

Na letra de Cazuza, a palavra poética, na sua dimensão metafórica e sonora ¨ transformar o tédio em melodia ¨ pode fazer algo com a dureza da vida (com o Real) pois que diante do ¨céu e inferno de todo dia¨ é ¨ preciso ser artista no nosso convívio¨.

Já Caetano Veloso, na sua genial Língua, além da metáfora e da brincadeira sonora: ¨Gosto do Pessoa na pessoa/ do rosa no Rosa, ainda traz a ironia, como outro recurso poético: ¨Sejamos imperialistas! Sejamos imperialistas!2 Num claro protesto aos regimes autoritários.

Lacan foi estudar a escrita poética chinesa instigando os psicanalistas a se inspirarem em algo da ordem da poesia. Nesse mesmo seminário, no capítulo intitulado A Varidade do Sintoma diz: ¨O sentido tampona. Mas com a ajuda do que chamamos de escrita poética, vocês podem ter a dimensão do que poderia ser a interpretação analítica…Estar eventualmente inspirado por algo da ordem da poesia para intervir como psicanalista? É exatamente em direção a isso que é preciso orientá-los…¨4. Interpretação e poesia aparecem aqui absolutamente imbricados uma vez que os recursos poéticos quais sejam:  a metáfora, a ironia, a homofonia, o jogo sonoro, o equívoco…seriam os mesmos utilizados pela interpretação analítica apontando para uma mesma orientação: O Real

Não sem uma quota de delírio que todo poeta, todo artista e todo humano precisa para construir sua obra, pois somos todos loucos, ou seja, delirantes!

A poesia, se localiza na dimensão do não há, da inexistência da relação, pois trata dos restos que sobraram da operação significante, dos barulhos de lalíngua, de um impossível de dizer, daquilo que escapa à simbolização.

E que por isso mesmo possa fazer furo, fazer novos arranjos, inventar um novo significante, onde no sem sentido haja um despertar! Rumo a um significante novo, como propôs Lacan no seminário XXIV, coloca em ato os efeitos de uma análise quando o sintoma dá lugar à criação, a um saber-fazer. Servindo-se da palavra poética, a Psicanálise toca o indizível, o inefável, o que não tem nome nem nunca terá.

 


Referências:
  • Todo amor que houver nessa vida, composição de Cazuza e Roberto Frejat.
  • Língua, composição de Caetano Veloso.
  • Lacan, Jacques: L`insu que sait de L`une-bevue S`aile à mourre. Seminário XXIV (tradução não comercial de Wilson Lima disponibilizada para um cartel sobre esse seminário).
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