
Pequenos delírios de menina
Marina Fragoso (EBP/AMP)
Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Ciranda da Bailarina – Chico Buarque
Lembro que, quando pequena, olhava com muita admiração para as mulheres da família que tinham joanetes. Constituía-se aí um dos meus primeiros delírios infantis sobre o que era uma mulher. Lembro de torcer para que os meus crescessem logo e eu pudesse colocá-los à mostra em uma plataforma Dijean, recobrindo a castração. Afinal, como diria Lacan: “Entre o ser e o ter, a gente escolhe, mas é a isso que se chama castração”[1]. Uns anos depois, fui inventando que ser mulher tinha a ver com ter um cadeado no diário, uma mochilinha de couro, uma saia plissada, um tamanco da Tiazinha e até mesmo a boina da Kelly Key. Os semblantes acompanhavam as teorias infantis que eu criava sobre o sexual. Os adereços iam se pendurando como pequenos penduricalhos ali onde não há; uma colcha de retalhos que passou pelos tênis com saia de Lily Allen e até mesmo pelo batom de Marilyn Monroe.
Lacan afirma que “A relação sexual implica a captura pela imagem do outro. Em outros termos, um dos domínios aparece aberto à neutralidade da ordem do conhecimento humano, o outro parece ser o próprio domínio da erotização do objeto. É isso que, à primeira vista, se manifesta para nós”[2]. Como poderíamos pensar o lugar disso, uma vez que a incompatibilidade entre o ser e o ter já não se apresenta da mesma maneira?
Navegando pelos reels, o Instagram deparo-me com a notícia: “Influencer adere à cirurgia para mudança na cor dos olhos”. Isso é possível?! Como faz?? Sobre o que delira uma pequena menina quando constrói suas fantasias infantis na atualidade, em um tempo em que as soluções vêm pela via das intervenções cirúrgicas, e não mais dos penduricalhos? Modifica-se a cor dos olhos, preenchem-se os lábios, desenham-se barrigas com uma lipo LAD. As soluções no real do corpo parecem saber, veementemente, na literalidade da carne, o que é A mulher, pergunta que só se pode responder pela via do delírio. Uma vez que “Somente a máscara ex-sistiria no lugar de vazio em que coloco A mulher”[3], quando tudo o que a bailarina tem é ofertável, que lugar resta ao impossível na formalização de um enigma para uma menina?
Em tempos de bets e harmonização, precisamos nos orientar não pela desesperança, mas por nossa aposta ética de saber que há algo que não se harmoniza. “Significa que a desarmonia é originária, que o som de lalíngua jamais é harmônico, que não sintoniza com ninguém”[4]. Mesmo que o mercado sempre oferte um objeto sob a promessa da harmonia, é a desarmonia desse arranjo que escutamos em nossos consultórios: a relação dos sujeitos com seu impossível.
Lembro-me de outra cena. Ainda pequena, com o cabelo na altura do queixo, olho para minha mãe e digo: “Gostaria de cortar ele aqui”, apontando para a cintura. Ao que ela me responde: “Minha filha, isso é impossível!”. Arrasada, eu não podia acreditar: era impossível! Ufa! Ainda bem. Só assim pude formular meus pequenos delírios de menina.
