
Influencers e “obedienters”
Mª Cristina Maia Fernandes (EBP/AMP)
Há uma obediência que não precisa de ordens. Ela acontece devagar, quase em silêncio. Primeiro, olhamos para o outro. Depois, nos olhamos. E, quando percebemos, já não sabemos muito bem onde termina a vida do outro e onde começa a nossa. Ambas se misturam.
Talvez seja disso que fala Clarice Lispector no conto Os Obedientes[1]: de pessoas que aprenderam a viver conforme aquilo que delas se esperava. Gente aparentemente comum, cumprindo pequenos deveres de uma existência também aparentemente comum. Nada de grandes tragédias. Apenas aquela neurose nossa de todos os dias.
Hoje, porém, a obediência ganhou uma tela.
O influencer não precisa dizer: “seja como eu”. Basta mostrar. Mostra o corpo, a casa, a viagem, o relacionamento, a roupa, o café da manhã. Mostra o cachorro, o filho, o pôr do sol e, se possível, uma xícara de café estrategicamente posicionada ao lado de um livro que certamente nunca sequer abriu. Mostra uma vida pronta para ser cobiçada. E quem olha, começa, sem perceber, a comparar. A própria vida começa a parecer menor, aquém, quando colocada ao lado daquela cuidadosamente escolhida para aparecer… perfeita!
É como se, diante da tela, o sujeito não apenas olhasse o outro, mas passasse também a se olhar a partir desse outro olhar. Com Lacan, dizemos que o sujeito não simplesmente vê, ele também se vê vendo, constrói uma imagem de si sob a perspectiva de um olhar que o antecede. No estádio do espelho, a imagem devolvida pelo outro participa da constituição do eu. Nas redes sociais, esse espelho se multiplicou. Não temos mais apenas o espelho do banheiro que devolve a cara amassada de quem acabou de acordar. Temos milhares de espelhos: curtidas, comentários, seguidores, visualizações, números. Espelhos que não só refletem, mas avaliam. O pior é que começamos a nos arrumar para eles.
Surge, então, uma nova forma de obediência: a um padrão.
Ninguém nos obriga a ter determinado corpo, nem bate à porta exigindo uma roupa tal, nem uma viagem internacional ou um relacionamento digno de postagem. Tampouco há leis dizendo que precisamos ser felizes às seis da manhã, de preferência em uma varanda ensolarada.
Mas existe uma força invisível que vem da tela, dos algoritmos, das tendências, dos comentários, das imagens que se repetem até parecerem naturais, que vai nos dizendo – sem dizer – o que é bonito, o que é sucesso, o que é felicidade e até como devemos parecer felizes… E talvez o mais danoso seja começar a obedecer sem perceber…
Em Os Obedientes, a aparência de normalidade esconde o que existe por dentro. Nas redes sociais, ao contrário, constrói-se uma aparência de felicidade para que ela seja vista pelos outros. Mas o que é mostrado, obviamente, não é o que se vive. Não mostramos necessariamente o que vivemos, mas aquilo que gostaríamos que acreditassem que vivemos.
Talvez o casal do conto, se vivesse hoje, também tivesse uma tela. Talvez obedecesse aos mesmos padrões, apenas com outras roupas. Talvez descobrisse que é possível passar a vida inteira tentando parecer feliz e, ainda assim, nunca se perguntarem se o são. Estaria inscrito na ordem dos “obedienters” também.
Cabe aí a pergunta: quando estamos escolhendo nossa vida e quando estamos apenas aprendendo a obedecer, nos deixar influenciar?
Os influencers mudaram os modelos, mas não necessariamente a necessidade do sujeito de se inserir, de pertencer. Antes, obedecia-se à família, ao casamento, aos costumes, como no conto. Hoje, a “obediência” é aos números, aos comentários, às tendências, à imagem de uma “felicidade” que insiste em aparecer nas telas, vinda sabe-se lá de onde…
Afinal, talvez o problema não seja seguir influencers.
Mas esquecer de si mesmo exatamente por seguir sem medida, submeter-se…
Ser demasiado “obedienter”…
