
Guardar um cavalo: cavá-lo até o furo
DELÍRIOS COTIDIANOS
Wilker França – EBP/AMP
Guardo alguns poemas. Um guardar que, como nos ensina Antonio Cícero (1996/2025), não se confunde com esconder na gaveta ou tirar de vista. Guardar é manter à disposição. É conservar vivo. Alguns poemas permanecem assim: à espreita, rondando e retornando quando menos espero. Um deles é este, de Ana Martins Marques (1995, p 63):
É mais difícil esconder um cavalo do que a palavra cavalo
É mais fácil se livrar de um piano do que de um sentimento
Posso tocar o seu corpo mas não o seu nome
É possível terminar uma frase com um beijo assim como é possível
encerrar subitamente uma dança com uma palavra
seria preciso então entender o beijo como um elemento gramatical
acrescentar as palavras entre os movimentos básicos da dança
Quanto do desejo mora
na palavra desejo?
Durante algum tempo, pensei que o poema falasse apenas da estranha sobrevivência das palavras. Um cavalo pode morrer, fugir ou desaparecer atrás de um muro. A palavra cavalo continua atravessando livros, poemas e conversas. Nenhum estábulo consegue contê-la. A palavra guarda a ausência da coisa. Estamos no registro das palavras como representações: a palavra mata a coisa e carrega sua falta.
Foi a psicanálise, porém, que me fez escutar outra coisa. Miller (1999), com os elementos da biologia lacaniana, já apontava o que só depois eu poderia experimentar no corpo, em análise. A palavra não apenas guarda a ausência. Ela também faz surgir outra coisa. É viva! Cavalo torna-se cavá-lo. Logo aparece uma cova. O cavar já não procura o cavalo escondido. Procura um furo. A interpretação, como pensou Lacan, também não escava um sentido oculto; ela cava até onde o sentido falha. A palavra já não serve apenas para representar algo. Ela incide sobre um corpo. Ela delira.
Talvez seja esse o guardar de que fala Antonio Cícero (1996/2025). Guardar uma palavra não é conservá-la intacta, mas deixá-la correr solta, indomável, e, nesse cavalgar da língua entre ruídos e equívocos, tropeçar num céu e voar para além da boca. O próprio poema parece fazer isso. Um beijo deixa de ser apenas um gesto amoroso para tornar-se um elemento gramatical. A dança já não é interrompida por uma palavra; passa a incluí-la entre seus movimentos.
Há interpretações que buscam aquilo que a palavra quer dizer, o que esconde, a que objeto remete. Lacan, sobretudo em seu último ensino, desloca essa aposta para o instante em que uma palavra encontra um corpo e faz alguma coisa com ele. Às vezes, basta um silêncio. Um ruído. Uma pausa. Uma palavra dita na hora certa. Um pequeno clarão do real.
O poema termina perguntando quanto do desejo mora na palavra “desejo”. Não sei responder, porque nem tudo do desejo cabe na palavra. Resta sempre um excesso, algo que continua pulsando mesmo quando é nomeado. Volto então ao verso: “Posso tocar o seu corpo, mas não o seu nome.” Hoje já não consigo lê-lo da mesma maneira. Talvez eu não possa tocar um nome. Mas um nome, quando encontra sua hora, nos toca. É justamente aí, nesse intervalo entre o que a palavra representa e o que ela faz acontecer, que uma análise encontra sua possibilidade de interpretação.
A melhor maneira de guardar um cavalo é deixá-lo correr. Talvez interpretar seja isso: pegar a pá-lavra. Como escreve Flávia Cêra (2026), a interpretação “não pretende um esclarecimento” (p. 93) e busca que “a língua não se feche sobre si mesma” (p. 94), para que uma palavra possa “soar outra coisa que o sentido, mais perto do que faz a vida pulsar” (p.94) . Talvez seja esse o modo mais vivo de guardar uma palavra: deixá-la livre até encontrar seu furo e, por um instante, fazer ressoar um corpo. Um corpo que goza.
