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Escolhendo sempre o mesmo look

Paulo Medeiros

Eu sou completamente entusiasta de maratonar séries e ficar comentando sobre elas com minhas amigas. Uma delas, por muito tempo, ocupou o lugar de minha favorita: Sex and the City. Eu adorava acompanhar a vida das quatro protagonistas falando sobre os encontros amorosos, a carreira e, claro, a moda! Porém, uma personagem em especial sobressaía em relação às outras para mim: Carrie Bradshaw. Morando em Nova Iorque, Carrie trabalhava como escritora de uma coluna de jornal sobre seus relacionamentos amorosos. A cada episódio, por meio de suas “crônicas delirantes”, a personagem narrava seus questionamentos diante dos homens com quem se envolvia.

Apesar de buscar parceiros diferentes, todos eles tinham algo em comum: uma dificuldade diante de uma mulher. Escritores, advogados, professores, arquitetos, empresários… não importava a profissão, a idade ou a aparência. Algo em suas escolhas insistia em se repetir. Ou, talvez mais precisamente, algo em sua posição permanecia o mesmo. Depois de uma intervenção de suas amigas, Carrie decide buscar uma analista para tratar esse movimento. Porém, ao chegar à análise, acaba conhecendo, na sala de espera, um paciente da mesma analista, e os dois acabam se envolvendo. Depois de ficar com ele, a personagem descobre que sua nova paixão frequentava a análise justamente para tratar de uma dificuldade diante das mulheres: não conseguir amá-las.

Se pensarmos nesse momento a partir do último ensino de Jacques Lacan, em que cada um faz consistir seu mundo de um modo singular (todo mundo delira), Carrie deixa de ser uma personagem em busca de uma explicação para seus desencontros amorosos e passa a interessar pelo modo singular como constrói uma interpretação capaz de sustentar sua relação com o amor. Antes que a analista possa intervir, a personagem já responde à sua pergunta segundo a lógica que organiza seu modo de fazer laço amoroso. Carrie encontra, mais uma vez, um homem cuja dificuldade com as mulheres reinscreve a lógica de seus encontros anteriores. O parceiro muda, a leitura que organiza sua experiência amorosa permanece.

Nessa cena, a repetição não está no parceiro escolhido, mas na posição a partir da qual a personagem faz existir o amor. O delírio de Carrie talvez não consista em acreditar no homem certo, mas em insistir numa mesma leitura do amor, que faz cada novo encontro parecer uma oportunidade inédita de encontrar aquilo que, até então, sempre lhe escapou. Lacan, no Seminário 23: O sinthoma, afirma que “é unicamente pelo equívoco que a interpretação opera” (p.18). O equívoco, aqui, não é um erro a ser corrigido, mas uma torção capaz de desalojar o sujeito da interpretação que ele já faz de sua própria história.

Carrie procura a analista perguntando por que escolhe sempre o homem errado. No entanto, antes que sua pergunta possa ser atravessada por esse equívoco, ela encontra um novo parceiro que confirma a lógica de seus encontros anteriores. Sua narrativa permanece intacta. Não deixa de ser curioso que a personagem procure uma analista justamente quando sua própria escrita já não basta para dar conta da repetição que insiste em retornar. Suas crônicas organizam sua experiência, mas não a deslocam.

Na série, a personagem abandona o processo analítico, interrompendo justamente a possibilidade de que sua própria interpretação sobre o amor seja colocada em questão. Talvez a pergunta de Carrie nunca tenha sido, de fato, “por que escolho sempre o homem errado?”. Talvez a questão seja outra: o que, em sua maneira de ler o amor, precisa permanecer o mesmo para que cada novo encontro possa ser vivido como uma promessa inédita? É justamente aí que a interpretação analítica pode operar, não oferecendo uma resposta, mas introduzindo um equívoco naquilo que parecia evidente ao sujeito.

 

Referências
LACAN, Jacques. Do uso lógico do sinthoma ou Freud com Joyce. In: LACAN. O Seminário: livro 23, o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. p. 11-26.
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