
Divagalumiando
Socorro Soares
“E um vaga-lume lanterneiro, que riscou um psiu de luz”[1].
Não só fotografava o genocídio em Gaza, tentava capturar beleza infantil. Seleção do Irã exibe mochilas coloridas em repúdio a crianças mortas em uma escola. Notícias que urgem!
Reportam-me a duas obras de arte que comungam da literatura e do cinema em forte projeção biográfica. O Curta-animação (1988) sob direção de Isao Takahata, O túmulo dos vagalumes. A outra, livro de Didi-Huberman, A sobrevivência dos vaga-lumes.
O Curta passeia pelo efêmero e pela tragédia da guerra de 1945, sob perspectiva infantil em metáfora de luzes de vaga-lumes e bombas. Luzes que iluminam seres de curta vida e luzes que encurtam vidas. Luzes que se apagam mortas em si e luzes que apagam vidas. O trágico sob a delicadeza da relação de dois irmãos órfãos, Setsuko e Seita, à travessia da sobrevivência. Encerra com cena “hora de dormir” , iluminados brilhantemente por vaga-lumes, e com o simbolismo de lata de doces a servir de túmulo aos vagalumes e às cinzas de Setsuko.
O livro de Huberman é um passeio pela metáfora do poeta e crítico de arte Pasolini, cito-o: “A dança dos vaga-lumes, esse momento de graça que resiste ao mundo do terror, é o que existe de mais fugaz e frágil”[2]. Trata do sumiço de vaga-lumes articulado ao fascismo, genocídio e enfraquecimento cultural quando intelectuais não viam o apagamento desses seres: “[…]é preciso no presente da sua sobrevivência[…]vê-los dançar vivos no meio da noite, ainda que essa noite seja varrida por ferozes projetores”[3].
Principiei pelas notícias de morte do fotógrafo palestino à captura do belo brincar infantil em meio à guerra, o belo a esconder o horror fundamental, e dos jogadores com mochilas em cores, grito ao horrendo assassinato infantil. Feituras em arte, contornos para lidar com o gozo. Assim como, artes de Takahata e Pasolini, articulando o sumiço de vaga-lumes – erráticos, intocáveis e resistentes – com os holofotes nazifascistas de violência e de destruição de seres minúsculos e frágeis em assombro e ameaça a brilhos coletivos.
Divagalumiando, eis um achado: “O delírio da permissividade que se espalha pelos quatro cantos do mundo[…]impacto de lalíngua sobre o corpo[…]o próprio gozo contém um furo e uma parte de excesso que deve ser subtraída”[4]. Então, possível para um sujeito em situação de guerra, algo que se opere entre significante e desvarios do gozo a subtrair o excedente e preservar o laço social, já que este implica em perda de gozo e acesso à fala?
Sigo por apagamento e sobrevivência e, outro achado: “Mas se a psicanálise tem êxito, ela apagará por ser senão um sintoma esquecido. Logo, tudo depende de que o real insista[…]é preciso que a psicanálise fracasse[…]boas chances de permanecer sintoma. Psicanalistas não mortos, segue carta!”[5].
“O instante-já é um pirilampo que acende e apaga, acende e apaga”[6].
