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Ao ritmo da vida

Priscila Brennand de Carvalho Fernandes

“Mas e a vida
Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é? O que é?
Meu irmão”

(O que é, o que é? – Gonzaguinha, 1982)

A copa do mundo levou a agitação para todas as partes: a seleção chegou! O passinho do Jamal ganhou o mundo! Em paralelo, um terremoto assolou a Venezuela deixando incontáveis mortos e desaparecidos. Rolando o feed do insta vejo: bebês sendo retirados dos escombros, Virgínia aparece no castelo alugado por Vini Jr. e um comediante com suas pegadinhas nas ruas, faz graça. Muita informação difusa e desconexa, até você anda louco, algoritmo?

Frente a tanta disparidade, escuto em minha cabeça a canção de Tim Maia que diz: “…mas na vida a gente tem que entender que um nasce pra sofrer, enquanto o outro ri.” (Azul da cor do mar – Tim Maia, 1970). Me perdoe, Tim Maia, mas isso é coisa difícil de entender.

O capitalismo nos situa diante dessas contradições: bilhões investidos em propagandas de bets, jogadores, estádios… enquanto aspectos tão básicos de higiene, alimentação e escolaridade de nossa sociedade seguem fracassando.

Que loucura é essa que me leva a parar o trabalho para vibrar com uma bola entrando por entre uma barra telada, enquanto pessoas buscam corpos vivos ou mortos embaixo de entulhos? Sai Tim entra Lenine e eu escuto a música que ressoava na minha cabeça, durante o período de internação do meu pai “…enquanto todo mundo espera a cura do mal, e a loucura finge que isso tudo é normal, eu finjo ter paciência” (Paciência – Lenine e Dudu Falcão, 1999).

Pois bem, PACIÊNCIA! A vida é isso: uns largam tudo para ajudar as vítimas das tragédias, outros viajam para ver a copa presencialmente, outros focam no trabalho para pagar as contas, alguns focam no trabalho em busca da cura dos males que nos assombram, enquanto dirigentes focam em desviar dinheiro. Gritamos pelo Brasil, ao tempo em que o Real, o imprevisível, se presentifica em outro país e nos faz deparar com a morte assim: sem mais nem menos. Os delírios da humanidade seguem firmes. Mas verdade seja dita: sem uma dose de delírio ninguém segura esse rojão.

Por fim, Chico: “Aqui na terra tão jogando futebol. Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll. Uns dias chove, noutros dias bate Sol. Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta. Muita mutreta pra levar a situação. Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça. E a gente vai tomando que também, sem a cachaça, ninguém segura esse rojão.” (Meu Caro amigo – Chico Buarque e Francis Hime, 1976)

Enquanto a música me ajuda a sobreviver as contradições, o delírio me faz suportar o Real e a análise, ah… esse espaço onde crio a minha letra e danço ao meu ritmo em um belo descompasso.

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