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Quando o céu não responde

Liège Uchôa (EBP/AMP)

 

Mesmo passados alguns anos, essa imagem continua me visitando. Talvez porque tenha condensado, como poucas, a atmosfera política dos nossos dias.

Numa praça de Porto Alegre, já noite fechada, dezenas de pessoas, em círculo levantavam os celulares para o céu. As lanternas piscavam em sincronia. Alguns acenavam. Outros esperavam. Havia quem pedisse um sinal. Não de Deus. Não da Justiça. Nem das instituições democráticas. Segundo as notícias, esperavam que seres de outro planeta interviessem no resultado das eleições.

Era difícil não rir. A internet fez o que costuma fazer: transformou a cena em meme, vídeo curto, comentário espirituoso. Mas, como acontece com certas imagens, o riso foi ficando pequeno diante da pergunta que ela insistia em fazer.

O que acontece quando alguém precisa recorrer ao céu para continuar acreditando que o mundo faz algum sentido?

Talvez aquela imagem diga menos sobre extraterrestres do que sobre nós.

Vivemos cercados de versões, notícias fabricadas e algoritmos que devolvem apenas aquilo em que já estamos dispostos a acreditar. As referências simbólicas vacilam, a confiança nas instituições se desgasta e as palavras deixam de sustentar um terreno comum. Quando esse chão cede, cresce a tentação de procurar um Outro capaz de restaurar a ordem.

Lacan escreveu, em um de seus últimos momentos de ensino, que “todo mundo é louco, ou seja, delirante”. A frase desloca o delírio do campo da exceção. Sem um saber definitivo sobre a existência, cada um inventa as ficções que tornam a vida habitável. O delírio pode ser também uma tentativa de dar alguma consistência ao que ameaça se desfazer.

Foi assim que aquela praça deixou de me parecer apenas uma curiosidade política. Hoje penso naquelas lanternas como pequenos pedidos de amparo. Os celulares voltados para o céu lembravam menos uma convocação extraterrestre do que cartas enviadas a um Outro que já não respondia.

Mas havia algo mais naquela cena. Não era apenas a dificuldade de suportar uma perda. Era a recusa de um resultado democrático que contrariava uma expectativa profundamente investida. Parecia mais suportável imaginar um Outro capaz de desfazer a realidade. Qualquer Outro. Mesmo vindo das estrelas.

Nenhuma nave apareceu.

O céu permaneceu silencioso.

Talvez o mais inquietante nunca tenha sido a espera por extraterrestres. Foi assistir ao instante em que a realidade compartilhada deixou de bastar. Quando a fantasia exige que o mundo confirme aquilo em que acreditamos, o delírio deixa de operar apenas como resposta singular ao impossível e pode passar a ameaçar o próprio laço social.

É aí que a psicanálise talvez tenha algo a dizer. Não para distribuir certificados de lucidez nem para reduzir a política à psicopatologia, mas para perguntar como cada época fabrica suas ficções e por que algumas conseguem transformar a recusa da realidade em projeto coletivo.

Talvez seja por isso que essa imagem continue voltando. Não porque revele a loucura de alguns, mas porque insiste numa pergunta que permanece aberta: o que acontece com uma democracia quando uma parte de seus cidadãos já não suporta que o real tenha a última palavra?

 


Referência
LACAN, Jacques. Transferência para Saint-Denis? Lacan a favor de Vincennes! In: Correio: Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, n. 65, abr. 2010.
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