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Uma escrita delirante

Liana Feldman

 

Num restaurante tradicional do Recife, uma mesa cheia fazia barulho. Com cadeiras extras desencaixadas, havia taças de diversas cores, gestos acalorados e vozes em sobressalto, algo estranho àquele lugar. Até que um garçom se aproximou do grupo.

Eu estava nessa mesa. Julguei que haveria uma intervenção disciplinadora – meus amigos falavam exaltados onde se ouve piano. Mas, para a minha surpresa, o rapaz apenas perguntava o que queríamos. Relativamente constrangida, respondi que nada. Diante do mal-entendido, ele se explicou: alguém levantou os braços, achei que pediriam algo. Sorri, comentei que era somente um debate, ele sorriu também.

Acontecia ali um imenso impasse sobre Mirela, personagem ficcional do livro O copo vazio, de Natália Timerman, que dividia as opiniões. Era uma quinta-feira de clube do livro, momento em que delirávamos juntos sobre os escritores, cenários, personagens, possibilidades nas histórias e nossas próprias ficções. De um lado, a crítica ferrenha e moralizante à jovem que se dedicava intensamente a um rapaz que a deixou. De outro, a compreensão do ilimitado do gozo, de sua busca, e uma tentativa de tradução das atuações do lado feminino – essa personagem que, diante da angústia, correu descalça até machucar os pés, que não se importava com o vexame, não continha os seus excessos, não sabia parar. Imagens tão contemporâneas e ilustrativas da clínica hoje, ali, na página bege de um livro escrito por uma psiquiatra. A fala circulava, os gestos também. Mais vermelho-taça, mais rubor no corpo, mais arranjos nas vozes.

A experiência de ler um texto e se haver com ele se assemelha ao trabalho do analista, ainda que haja uma distância óbvia entre as duas práticas. A literatura que toca o corpo com a palavra lida e que mesmo assim não serve para nada é a que nos aproxima – não há uma função, uma serventia de ordem prática, uma lição a ser tomada. Como na psicanálise, uma vez que o discurso analítico não está capturado por scores e resultados do imperativo do gozo, não há um tratamento meramente comportamental para a extinção de um sintoma nem um padrão-ouro normativo às condutas. Para nós, praticantes e leitores daquilo que nos falam, o que está em jogo é tentar manejar com os restos. Do que sobra em meio a todo esse delírio ficcional, vemos o sujeito.

Assim, as histórias que chegam aos nossos consultórios podem se fazer livro. Em parceria com o analisante poeta, lemos as tantas sutilezas desse texto sob transferência. O falasser constrói a sua ficção na tentativa de organizar e velar o real que foi descoberto pelo traumatismo. A ficção faz um tecido de palavras, uma manta confortável e protetiva, necessária em tantos tempos de uma análise. Uma construção próxima ao pensamento, do lado do simbólico, como nos ensina Miller.

Mas, em outros tempos, a necessidade é inversa: despertar, incitar o sujeito a se levantar à vida, fazer a manta virar uma peça leve de linho, tramada, permeável, que encubra a pele com delicadeza, sem sufocar. É preciso que a ficção de cada análise seja um alento, uma sustentação, e não uma barreira. O analista-trauma deve saber operar com essas sutilezas, sem destituir o delírio, mas indo além dele, destacando o escrito na fala delirante presente em seus espaços, de modo singular, no caso a caso, e sempre em laço com a língua.

 


Referências
MILLER, Jacques-Alain. Uma psicanálise tem estrutura de ficção. Aposta no passe: seguido de 15 testemunhos de Analistas da Escola, membros da Escola Brasileira de Psicanálise. Organização e tradução de Ana Lydia Santiago. Rio de janeiro: Contra Capa, 2018. (Coleção Opção Lacaniana, n. 14).
TIMERMAN, Natália. O copo vazio. São Paulo: Todavia, 2021.
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