
Uma mãe encontra sua órfã
Anderson Barbosa de Araújo
A história, como se costuma dizer, viralizou. Uma mulher de 37 anos se passa por uma adolescente de 12 e é adotada por uma família em Santa Catarina. Essa não era a primeira família enganada; na verdade, já passava da quinta. Nesta última, Amanda viveu por mais de um ano. A repercussão na internet foi enorme, pois Amanda recebia as mais diversas regalias, a tal ponto de, em seu aniversário de 13 anos — pasmem —, pedir Mounjaro de presente.
Diante das reações do público e dos diversos memes e comentários que a história gerou, algo me chamou a atenção. O que mais se destacava não era o golpe aplicado por Amanda ou mesmo seu delírio de acreditar ter 12 anos, mas o fato de a família ter acreditado nela. Ora, visivelmente Amanda não tinha 12 anos. Como é possível que tenham acreditado por tanto tempo?
Em entrevista, Renata, a mãe adotiva, dizia-se absolutamente envergonhada. Dormia com a menina, dava-lhe mamadeira e cantava canções de ninar. Renata era verdadeiramente uma mãe. Françoise Dolto[1] aponta que todo filho é adotivo, até mesmo os biológicos. Com isso, demarca que aquilo que vai constituir a filiação parental é alguma coisa de outra ordem que não a biológica, mas, sim, da constituição mesma de um sintoma que a criança vem a representar na dinâmica familiar, como coloca Lacan em Nota sobre a criança[2].
Identificar-se como mãe, é, assim me parece, também uma espécie de delírio. É acreditar que existe um objeto a qualquer que, como mostra Lacan, satura “a modalidade de falta em que se especifica o desejo (da mãe), seja qual for sua estrutura especial: neurótica, perversa ou psicótica” (p. 370). Todo mundo é louco por delirar que existe um meio de preencher o buraco da inexistência da relação sexual. O delírio, nessa seara, é uma interpretação. É um jeito de recobrir, com a espuma do sentido, o osso exposto do real.
Para além do filme A órfã, de 2009, amplamente evocado pelos internautas diante desse caso, o ocorrido me fez lembrar um filme mais recente, Titane, de 2021, dirigido por Julia Ducournau. No filme, acompanhamos Alexia, que, depois de assassinatos em série, incluindo os de seus pais, resolve fugir. No aeroporto, ela se depara com o anúncio de pessoas desaparecidas e resolve se passar por uma delas: um rapaz muito mais jovem. Alexia raspa a cabeça, quebra o próprio nariz e enfaixa os seios para emular a aparência do rapaz e, então, apresenta-se à polícia.
O pai do jovem aceita de prontidão aquele sujeito calado e arredio como sendo seu filho, leva-o para casa, cuida dele e o introduz prontamente em sua vida e em seu trabalho. Todos desconfiam, é claro, até mesmo nós, que assistimos ao filme. Alexia está grávida, sua barriga cresce, seu corpo se transforma, mas absolutamente nada é capaz de abalar a confiança daquele pai de que finalmente encontrara seu filho. É um delírio do qual ele não poderia abrir mão. Sua ex-companheira sabe muito bem disso. Em uma visita à casa, assusta-se com a aparência de Alexia, chama-a ao banheiro e diz algo como: “Não sei quem é você ou o que você quer aqui, mas ele precisa de você.” Talvez Renata também precisasse de Amanda. Uma mãe encontra sua órfã.
