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O ilimitado delirante

 Cassandra Dias (EBP/AMP) 

A leitura do livro Paixão simples da escritora Annie Ernaux – Prêmio Nobel de Literatura 2022 – deixou-me uma profunda impressão acerca da capacidade da autora em transmitir a disponibilidade de uma mulher em relação ao amor. Em que medida essa entrega possui afinidade com o delírio?

A escrita de Annie tenta dar conta da radicalidade da experiência do apaixonamento para uma mulher, por meio da inscrição da presença ou ausência do objeto amado.

“Pensava que era muito estreito o limiar entre essa reconstituição e uma alucinação, entre a memória e a loucura”. [1]

Nessa vivência que Annie tenta capturar em palavras, um novo signo se introduz: “(…) eu me aproximei do limite que me separa do outro, a ponto de às vezes imaginar que iria chegar do outro lado”.[2]

Encontro no relato cortante que Annie faz da sua relação com o parceiro, os elementos que Lacan isola ao falar sobre a inexistência da relação sexual a partir de dois modos de gozo tão distintos, em especial, o feminino, “(…) louco, enigmático.”[3]

“Assim o universal do que elas desejam é loucura: todas as mulheres são loucas, como se diz (…) não loucas-de-todo, antes conciliadoras: a tal ponto que não há limite para as concessões que cada uma faz para um homem: de seu corpo, de sua alma, de seus bens”. [4]

Annie nos entrega, através da sua escrita, os pormenores, as minúcias, os divinos detalhes que traduzem sua entrega incondicional.

“É claro, eu só me lavava no dia seguinte para poder guardar dentro de mim o esperma dele”.[5]

“Ler no jornal os artigos sobre o seu país (ele era estrangeiro), escolher a roupa e a maquiagem, escrever cartas para ele, trocar o lençol da cama e colocar flores no quarto, anotar o que não podia esquecer de lhe dizer, no próximo encontro, que pudesse ser do interesse dele…”[6]

“Ele bebia demais, conforme os costumes dos países do Leste (…), mas não me desagradava. Mesmo quando ele cambaleava ou arrotava ao me beijar. Pelo contrário, ficava feliz de estar perto dele num momento que beirava o abjeto”.[7]

“Só de uma coisa eu poderia ter certeza: do seu desejo ou da falta de desejo. A única verdade incontestável estava visível em seu sexo”.[8]

“Não quero explicar minha paixão, só quero explicar o que ela é.”[9]

Se essa espécie de enlouquecimento que acomete as mulheres em relação ao amor é universal, como esse delírio manifesta-se na cultura hoje?

O algoritmo trouxe para a playlist do meu treino diário de musculação, algumas canções que me remeteram – ao avesso – à escrita de Annie Ernaux sobre a entrega de uma mulher.  Nessa nova roupagem, as letras dizem de uma mulher que se disponibiliza como objeto altamente sexualizado à fantasia masculina. Tratada por significantes pejorativos e exaltada pelo vigor com que se dispõe ao desejo do homem, a batida do funk reverbera o enlouquecimento para cavar um lugar no desejo. A indústria do entretenimento fatura milhões explorando esse nicho do mercado, onde também não há limites.

À diferença da literatura e sua inclinação ao amor, temos na pornografia[10] uma expressão da época na tentativa delirante de consistir A mulher?

 


[1] ERNAUX, A. – Paixão simples – São Paulo: Fósforo, 2023.
[2] Idem
[3] LACAN, J. O Seminário: Livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985,  p 197
[4] LACAN, J. – Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993, p 70
[5] ERNAUX, A. – p 15
[6] Id ibid – p 10
[7] Id ibid – p 25
[8] Id ibid – p 26
[9] Id ibid –  p 24
[10] MILLER, J. A. – “Essa clínica da pornografia é a do século XXI” . O inconsciente é o corpo falante IN: Scilict O corpo falante – sobre o inconsciente no século XXI. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise , 2026. p 21.
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