
Evidências da Mentira
Margarida Assad (EBP/AMP)
A notícia que me provocou escrever essa Crônica foi a seguinte:
O ex-pastor e ex-presidente da organização cristã Exodus International, Alan Chambers, de 54 anos, foi preso no estado da Flórida, nos Estados Unidos, acusado de tentativa de aliciamento de menor para fins sexuais. A prisão aconteceu após uma operação conduzida pelo Escritório do Xerife do Condado de Orange, que utilizou agentes infiltrados em redes sociais e aplicativos de mensagens.[1]
Quem é Alan Chambers?
”Desde 1976, a igreja norte-americana Exodus liderada por Alan Chambers defendeu a luta contra os homossexuais atuando a favor da criminalização do relacionamento entre pessoas do mesmo sexo e aplicando métodos de “cura gay”. Entretanto, na última quarta-feira (19) o presidente da instituição religiosa publicou no site da organização uma carta assumindo que é gay; pedindo desculpas para a comunidade homossexual por toda a dor e sofrimento que causou; e declarando publicamente o fechamento da igreja.” [2].(notícia publicada em 2013)
Esse fato traz à tona uma questão que pode ser muito bem lida pelo discurso Psicanalítico. Freud inventou um nome para esse mecanismo: Formação reativa. Mecanismo muito presente na cultura atual. Trata-se do desenvolvimento de atitudes diametralmente opostas ao desejo do sujeito. E quanto mais aferrado a tais atitudes mais se evidencia que há, naquele que defende padrões morais, uma forte tendência a praticar aquilo mesmo que rejeita. Tal desvio nem sempre se desmascara tão claramente como ocorreu nesse caso do pastor que defendia a cura-gay. Podemos lembrar de algumas obras de arte como o belo filme Beleza Americana, película de 1999: enredo repleto de sentimentos contraditórios nos seus personagens, onde o ódio prevalece e o amor permanece envolto em paradoxais narrativas.
O que assistimos em muitas ocasiões, principalmente nos movimentos políticos, são indivíduos que pretendem conquistar a população provocando nelas atitudes moralistas frente a fatos contemporâneos, geralmente relacionados à sexualidade, valendo-se do fato, – esse sim verdadeiro – das formações reativas na subjetividade contemporânea. O que é perverso é que utilizam desse mecanismo presente na alma humana, com interesses pessoais de ambição de poder, levando as massas a crer que eles são defensores da moral e dos bons costumes . Quem ainda lembra da TFP ( tradição, família e propriedade) nos anos 60 a 80? – Ainda hoje, leio pela IA que ela ainda resiste de forma discreta.
A formação reativa presente na atual cultura reacionária serve aos interesses daqueles que pretendem evitar mudanças que possam pôr em risco sua própria tradição, sua família e sua propriedade. O pastor Alan Chambers, embora tivesse abandonado sua defesa da cura gay, permaneceu preso a sua defesa moral levando seu desejo sexual ao pior: aliciar menores. Quem sabe poderia dar ao seu desejo um final mais satisfatório se soubesse , com Lacan, que “o sexo não define relação alguma no ser falante”. [3]
