
O sonho/delírio de conquistar o mundo
Susane Zanotti (EBP/AMP)
A menos de um mês da copa do mundo, as situações cotidianas escancaram que “não há nada mais desbaratado que a realidade humana”1. O frenesi de compra e troca de figurinhas, na torcida para conseguir as raras, tão disputadas e completar o álbum mais rápido; a convocação dos jogadores e toda a polêmica em torno do camisa 10 da seleção brasileira são assuntos nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp, no trabalho, em casa.
Após sair para comprar figurinhas para o álbum da Copa do Mundo 2026, Bella volta correndo aos berros e profere em alto e bom som: “Mãe, a IA vai dominar o mundo?“. De repente, um silêncio ensurdecedor se instala. Nesse instante, que parece uma eternidade, sua mãe a interroga: “de onde você tirou isso, menina?”, buscando investigar o efeito de interpretação. Angustiada, Bella diz bem rápido, juntando as palavras e fazendo delas um thriller: “a IA vai falar para o policial matar uma pessoa e ele vai matar.” Ao pedir para dizer como seria isso, a filha já responde com menos sobressalto e incluindo pausas entre uma palavra e outra: “Meu amigo falou que a IA vai dominar o mundo, que ela vai falar para o policial quando alguém fizer uma coisa errada e o policial vai matar essa pessoa, mesmo que ela não tenha feito isso”. Ao final, imprimindo urgência ao seu questionamento, a criança interroga: é verdade?
Para além das questões sobre a manipulação de sistemas de inteligência artificial e como cada um interpreta os supostos comportamentos autônomos das tecnologias, penso no desenho animado dos anos 90, ‘Pink e o cérebro’ e o sonho/delírio compartilhado de conquistar o mundo. “Cérebro, o que faremos amanhã à noite?”. “A mesma coisa que fazemos todas as noites, Pinky… Tentar conquistar o mundo!”. Tirada da abertura e do encerramento de cada episódio, que indica o loop infinito de um novo plano mirabolante e a impossibilidade estrutural de completude.
Voltando à IA, os delírios cotidianos das trends do futebol brasileiro chamam nossa atenção. Os torcedores criando imagens e vídeos hiper-realistas para simular serem flagrados pelas câmeras de transmissão nos estádios. A trend em que as pessoas simulam a própria “convocação” para a Seleção, o que inclui até mesmo vestir os pets com as cores da bandeira verde e amarelas. E uma outra forma de delírio, a da dança dos jogadores. Nos últimos dias, viralizou a dancinha de duas irmãs, @arayfer_hernandez criada a partir do Official Visualizer2 de Brasil com S, agitando os corpos e multiplicando a reprodução da coreografia. No vídeo, é citado e repetido cada nome dos jogadores do Brasil – Vini Júnior! (Vini Júnior!). Rafinha! (Rafinha!). Alisson! (Alisson!). Casemiro! (Casemiro!) etc. – adicionado ao modo singular como Um sozinho comemora os gols.
O apito do vigilante na rua me lembra que é preciso concluir esse texto. Que comece a nossa partida. Uma reflexão sobre a questão da verdade, das ficções, do gozo e suas implicações clínicas: ‘Delírio e Interpretação’, tal como indicado no Argumento da VI Jornada da Seção Nordeste.
Como situar delírio e interpretação, se considerarmos com Lacan que ambos integram o discurso de todo falasser? A força desses exemplos se sustenta na interpretação de uma criança e no sonho de dominar o mundo; seja no futebol ou na IA.
