
HOMEM DE PANO
Késia Ramos EBP/AMP
Inauguro as Crônicas Delirantes escrevendo a minha surpresa ao ler uma matéria de jornal.¹ Fui conferir se era fake — a matéria estava inclusive em jornais internacionais.² É um fato.
Meirivone Rocha Moraes dança forró e mora no interior de Minas Gerais. Veio a pandemia. Foi embora o baile, o par, o suor. Foi então que pediu à mãe um homem de pano. A mãe era costureira — não é detalhe, é destino.
Não é isso o que fazemos? Tentamos, de algum modo, forçar a relação que não há — pedimos que alguém nos costure um outro, como se o amor fosse uma questão de medida certa, de linha firme, de nó bem dado. Sua mãe, que era costureira, entendeu. As mães capturam certas coisas que as palavras não alcançam. Costurou Marcelo que entrou pela porta como quem sempre esteve esperando do lado de fora.
Era pandemia. Havia um silêncio novo no mundo, um silêncio de corpo que não toca outro corpo, de festa que virou tela. E dentro desse silêncio, que não era paz mas ausência, Meirivone casou, dançou e teve filhos com um boneco de pano. Com pano e com entusiasmo. Isso é o que os jornais não souberam dizer: um entusiasmo infinito e delirante.
Lacan nos lembra que todo mundo é louco. Não existe um saber que organize definitivamente o gozo, que ponha ordem naquilo que o corpo quer sem pedir licença. Cada um de nós ergue uma ficção para cobrir o real que nos habita — aquilo que não cede, que não se simboliza, que insiste sem pedir licença. Uma invenção para dar contorno ao que não tem forma, agora que o Nome-do-Pai já não organiza como antes. Uns cobrem com palavras, outros com dinheiro, outros com ideologias, outros com a fé cega num Outro que ainda exista e saiba. Meirivone fabricou com o que o destino providenciou: uma mãe costureira, pano de algodão e dois botões por olhos.
E depois ficou grávida. Duas vezes. Fez teste na farmácia, mostrou o resultado positivo em vídeo nas redes sociais, disse que queria uma menina. A câmera filmou sua alegria — uma alegria que não pedia permissão para existir, que não esperava que o mundo fosse entendê-la. Porque o que ela descobriu — sem saber que descobria, sem usar as palavras certas, sem ter lido uma linha de psicanálise — é que o Outro não existe. Existe o pano. Existe o que se inventa. O amor não é um encontro de dois: é sempre uma construção solitária que, por contingência ou ilusão, às vezes o outro parece confirmar. Meirivone apenas fez a operação às claras.
Há algo, na história de Meirivone, que nos convoca. Não a julgar, não a diagnosticar — mas a escutar esse sujeito: o que faz com aquilo que não tem forma, com o gozo que insiste, com a relação que não há. É essa a pergunta que a VI Jornada propõe:³ o que é o delírio senão a solução que cada um costura para habitar o real? E o que é a interpretação do analista senão uma operação que desloca do sentido ao fora de sentido — sem desfazer o pano, tocando o real, deixando o sujeito amarrar outro nó?
Marcelo não existe — porque não é um sujeito. Não fica suado de dançar, não deseja, não falta, não sofre. O Outro tampouco existe — e o Outro, ao menos, não nos abraça. Entre dois que não existem, Meirivone escolheu o que podia segurar nos braços: casou com ele, deu-lhe um nome, anunciou o quarto filho. Ficou com o pano — e nessa invenção tocou o real: desejar, amar e delirar é sempre singular. É costurar com o que se tem.
No fim, Meirivone contraria a teoria lacaniana fazendo existir a relação sexual. Produziu quatro filhos — de pano, claro! Mas com entusiasmo infinito e delirante. E assim seguiu dançando, sem precisar de nada que nós ainda estamos tentando entender. Nós é que precisamos dela — para lembrar que o delírio não é o problema. É, às vezes, a única solução possível. E que o analista, ao escutá-lo e saber o que fazer com ele, é o que nos convoca ao trabalho.
Enquanto isso, vamos riscando, arriscando, costurando palavras, ideias e crônicas com o que a humanidade e o cotidiano ferozmente nos mostram. Ah, o delírio.
