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MEME, PARA QUE TE QUERO?

Erick Leonardo

Navegar pela internet já foi como desbravar um oceano desconhecido, mas hoje está mais para andar na chuva. A gente avança entre as gotas, meio singing in the rain, tentando não encharcar a alma na torrente de informações. E, dentre as gotas, o meme brilha com uma preciosidade única. Ele não é bem um chiste clássico, daquele tipo que demanda um trabalho singular do inconsciente; o meme é uma produção prêt-à-porter. Já vem pronto para vestir, é intencional para quem o emite e evoca o efeito imediato do riso para quem partilha do código. Na era da hiperconexão, fala-se muito, para nada dizer. Mas o meme, berro!

Na comunidade LGBTQIAPN+, por exemplo, essas imagens e bordões são o puro oxigênio. Funcionam como o avesso do desamparo, a ferramenta exata para subverter e superar a lógica heteronormativa de cada dia. É o recurso que permite lavar a cara com água e sabão, recolher os pedaços e let it go! O meme faz borda e transborda. No entanto, como diria o jargão da própria rede, the life is not a strawberry. O tempo na internet evapora mais rápido que o éter, e os memes estão cada vez mais efêmeros: GAG, GAG de la GAG, Acrílico… Bem, este último não!

O curioso é o fenômeno da arqueologia digital: as novas gerações agora resgatam frases e cenas que viralizaram há anos, na velha televisão analógica, dando uma sobrevida mística a relíquias do passado. Assim estava eu, outro dia, todo trabalhado na dúvida metafísica — Estou bonito ou estou engraçado? —, a caminho de ganhar o pão de cada dia no consultório. Acordando cedo, é claro; afinal de contas, não se dorme na Europa! No coração vivo do divã, aquele espaço que é o caldeirão do mundo, a internet insiste em pedir passagem…

Um deles, deitando-se, solta a pérola: “A Lady Gaga, a mother monster, lançou um clipe babado, aí o pessoal da internet pegou e acabou com a música, misturando com ‘Cilada’ do grupo Molejo…”. O trágico e o pop dançando juntos. Diante daquilo, brinco com uma pontuação, dessas que tentam pescar o sujeito: “Bem, quem sabe alguém precisou inventar algo para tratar uma desilusão amorosa”. Assim retoma a sua questão. O meme cai, o inconsciente emerge. O Molejo vira mola para o que realmente importa.

Em outra sessão, a resistência se faz presente com a mesma roupagem moderna. Diante de um tema espinhoso, daqueles que tocam o osso do sintoma, a analisante empaca, sorri de canto e solta o clássico bordão das redes: “Para a gravação!”. Mas ali quem opera é a transferência, não o algoritmo. O analista, então, intervém na hiância do silêncio: “Não, Stefany. Continue…”. Rimos e a sessão continua.

No fim das contas, o meme é a nossa tentativa de fazer alguma coisa com aquilo que falha, que falta e que claudica, transformada em uma boa figurinha de WhatsApp. Enquanto o mundo lá fora chia feito panela de pressão ou desaba em tempestade, a gente segue aqui dentro, em um delírio a dois?

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