
ESTAMOS GRÁVIDOS!
Bibiana Poggi (EBP/AMP)
Pedro anunciou emocionado: — Estamos grávidos!
A felicidade foi contagiante! Trinta e sete semanas depois, o casal já não tinha tempo para festas e comemorações. O compromisso agora era outro, mais solene: o segundo curso para pais. Lá foram os dois — ou melhor, os três —, aplicados, ouvindo a especialista detalhar o parto ideal, como trocar fraldas, amamentar, entre tantas outras tarefas. Estavam prontos. O plano estava traçado. Agora, era só esperar Paula nascer.
Mas o imprevisto não lê manuais.
Antes do dia marcado, antes de o quarto estar totalmente pronto, Paula decidiu que o mundo a esperava. O relógio acelerou, as contrações vieram, mas o corpo se recusou a seguir o roteiro da dilatação.
Dois dias depois, o silêncio da casa nova foi preenchido pelo choro da menina. Foi nesse instante que o desassossego visitou Pedro. Uma estranheza esquisita, daquelas que apertam o peito sem pedir licença. Angustiado com o que não conseguia explicar, ele buscou alguém que pudesse apenas escutar.
No horário agendado Pedro estava lá, tentando traduzir o susto em palavras: — Está tudo muito confuso. Paula chora a noite inteira. Na hora da mamada, ela dorme no peito, a mãe está exausta…
Pedro olhava para as próprias mãos, e indagava: — E agora? Estamos seguindo todas as orientações. A gente treinou bem direitinho…
Ele interrompeu a fala assustado ao se escutar dizer: — Mas foi numa boneca!
A constatação de Pedro foi um grande susto, pois vive na era dos protocolos, na qual se encontram especialistas para ensinar a dormir, a comer, a correr e, claro, a criar filhos perfeitos, seguros e estimulados. Mas, como já questionava Laurent1, quem realmente sabe, hoje, como criar um filho?
Como foi dito, muitos especialistas propõem inúmeros protocolos de soluções para algo que parece impossível. Laurent2 destaca o sentimento de desassossego e de angustia da instituição escolar, que no lugar de responder o que significa educar e transmitir lamenta “sobre o impossível de ensinar”.
No entanto, o que não pode ser ensinado consiste em um saber sobre “o ponto que é a origem subjetiva da cada um”3.
Ora, se em épocas passadas isso não era questão, agora o é por influência do capitalismo e, igualmente, das propostas de soluções da ciência, as quais desvelam cada vez mais “o caráter de objeto real da criança”4.
Ao nascer, o bebê recebe cuidados necessários para sobreviver, mas, que não são garantia para o ingresso na linguagem. A instituição família estabelece a diferença dos sexos e das gerações, pois se trata de incluir o recém-nascido numa sucessão na linha das gerações e transmitir-lhe um nome, ou seja, põe em jogo “a inscrição simbólica”5.
Pedro decidiu investigar acerca das suas perguntas. Por sorte, encontrou um interlocutor que aceitou ser parceiro dele a partir desta brecha que se abriu diante daquilo que não há resposta possível nos manuais de instrução.
