Skip to content

DELÍRIOS COTIDIANOS

Karynna Nóbrega (EBP/AMP)

Durante a infância, meu primogênito era acometido por vários e diferentes sintomas respiratórios: otite, sinusite, rinite dentre outras ites próprias da tenra idade, de alérgicos que residem em cidades de clima frio.

Era quase rotina mensal, quando adoecia, lá íamos para mais uma consulta com o otorrino da família – Dr. Bandeira. Ele próprio já sabia quando ia adoecer e me pedia: – Mamãe, me leva para Dr. Bandeira. Eu quase que, imediatamente o fazia. Enquanto isso, dentre idas e vindas ao otorrino, eu esperava meu segundo filho, agora uma menina.

A barriga já começava a aparecer. Mas, meu filho com quatro anos, não esboçava nenhuma curiosidade sobre o assunto. Dado que comecei a ficar preocupada. Já sem aguentar a falta de curiosidade dele, resolvi perguntar. Me dirigi carinhosamente a ele: – Meu filho, sabe como essa bebê veio parar aqui, dentro da minha barriga? Ele sem hesitar me olhou com desdém e respondeu. – Mãe, claro que foi o Dr. Bandeira. Sorri aliviada… As crianças sempre nos surpreendem, e assim como os adultos inventam respostas para os próprios enigmas.

Esse fragmento de um delírio cotidiano, nos presta a recordar que todo falasser delira, mas sabemos que, há delírios cotidianos entorno do qual fazemos laço e outros delírios, que apresentam mais dificuldade em fazer laço social, uma vez que nesses casos não há uma verdade compartilhada.

A clínica e o cotidiano nos ensina que cada falasser inventa uma solução para lidar com a foraclusão generalizada da não existência da relação sexual, no caso da neurose e para tanto se serve da fantasia. Já no caso da psicose há dois tipos da foraclusão: a localizada do significante fálico, e a foraclusão referente a não existência da relação sexual, então, há diante desse furo a construção delirante, como resposta e invenção.

Simone Souto[1] (2011) em O delírio e o sintoma: a loucura de cada um  retoma  o aforismo de Lacan: “ a  relação sexual não existe ” e desenvolve os efeitos dessa inexistência, a saber: todo falasser em certa medida delira, logo o delírio como sendo consequência da inexistência da relação sexual.

Escreve Simone: “A impossibilidade de inscrever a relação sexual na linguagem e consequentemente de fazê-la existir como uma relação que seria completa entre os sexos, é o que podemos designar com Lacan de uma foraclusão generalizada, isto é, a presença de um furo, de um vazio, da falta de um gozo que afeta a vida de todo ser falante de forma generalizada e que torna evidente um real impossível de ser atingido pela palavra. Por causa desse furo na linguagem, a palavra não consegue jamais representar totalmente a coisa que ela pretende significar. Então, na tentativa de dar algum sentido a esse vazio, a palavra articula-se a outra criando os discursos, cuja existência é construída em torno da referência vazia relativa à inexistência da relação sexual. Portanto, é esse furo na linguagem que torna possível a criação dos discursos.” (SOUTO, 2011, pág.176)

Se por um lado a neurose cria uma ficção para abordar a realidade por meio do mito individual da fantasia, sendo a metáfora paterna aquilo que permite uma localização do gozo no corpo, por outro lado na psicose o sujeito se serve do delírio para se defender da invasão do gozo no corpo, uma vez que há a foraclusão localizada do significante.

Dessa forma, a psicanálise nos ensina que o discurso do inconsciente apresenta a dimensão do sem sentido e do gozo, cada um goza à sua maneira, da língua e do corpo, a lalíngua como sendo esse parasita falador que nos faz mover, falar, gozar e delirar.


[1] GLAZE, A; BRISSET, F.O.B; A saúde para todos, não sem a loucura de cada um: perspectivas da psicanálise. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011.
Back To Top