Psicanálise na aldeia
José Augusto Rocha
Como pensar nossa prática para além do refúgio de uma “extraterritorialidade imaginária”, do analista longe da cidade e de seus impasses? Como recolher os efeitos psicanalíticos instalados em espaços, por vezes, às avessas de uma anuência com o estabelecimento do lugar analítico? Recupero essas questões tendo no horizonte minha atuação na Saúde Indígena. Uma instituição que tem por objetivo garantir o acesso à saúde dos povos indígenas. Uma instituição tomada por diversos discursos, desde o discurso médico até o discurso ancestral, ou seja, formas nas quais o saber mantém relação com o semblante, mas também, por sua vez, com o social e a cultura, modalidade imprescindível para existência de grupos e comunidades inteiras de indígenas. Durante nossas discussões no cartel, uma questão toca diretamente o ponto que procurarei articular aqui. Por que oferecer a comunidades indígenas, a esses agrupamentos e coletivos, por vezes tão heterogêneos entre si, a psicanálise?
Retomo uma conhecida passagem de Claude Lévi-Strauss. Nela, o antropólogo comparava o xamã ao psicanalista. A comparação sempre me inquietou por algumas razões. Em primeiro plano, reduzia o psicanalista ao xamã pelo imaginário transferencial. Neste entre mundos, entre o universo indígena e o não indígena, resumia a própria psicanálise a uma experiência de enquadramento exclusivo do analista em seu consultório. Nestes termos, em suma, seria impossível uma psicanálise na aldeia.
Instalar um lugar analítico
Os efeitos da psicanálise, contudo, não dependem de sua localização nem da clientela; dependem da implementação de coordenadas simbólicas. Coordenadas simbólicas que considerem menos a primazia do simbólico e mais o real em jogo do sintoma. A psicanálise, Miller nos chama atenção, é “uma instalação portátil, suscetível de deslocar-se para novos contextos” e o psicanalista é um “objeto nômade”. Portanto, nem a psicanálise nem o psicanalista se limitariam ao horizonte de uma extraterritorialidade, desconectados do mundo. Se a instalação de um lugar analítico independe de cartografias territoriais prévias ou ideais, não se deve confundi-lo com um lugar de escuta na qual não se implique a responsabilidade naquilo que se diz. Dito de outro modo, um lugar analítico busca estabelecer uma relação entre a fala de quem sofre e o que se encontra fixado no gozo, favorecendo a via de um saber inconsciente no qual haja flexibilização em relação à posição do sujeito e de seus S1.
Caberia ao analista, enquanto objeto nômade, conectar o analisante a seu inconsciente. E este é um ponto de interrogação, pois como pensar o lugar do analista e de sua função se as particularidades envolvidas diferem do que tomamos habitualmente como suposição de saber? É aqui que podemos tomar, com Lacan, a interpretação como aquilo que cria a transferência. Ou seja, não se trataria da transferência condicionar a interpretação. Criar a transferência a partir da interpretação nos permite tomar o inconsciente não como um ser, e sim “um saber suposto, ou seja, na esperança, à espera”. Não se trata, portanto, de um inconsciente prévio. Pois se o inconsciente é uma ética, ele “é fundamentalmente e sempre a advir”.
Algumas questões a respeito da interpretação
Cada vez mais em nossa época, somos interpelados pela desarticulação entre o sintoma e o inconsciente. Em tempos da inexistência do Outro, no qual os sujeitos apresentam-se a partir de suas modalidades de gozo, não caberia a interpretação uma infiltração do inconsciente no sintoma? E quando tomamos os desabonados do inconsciente, qual o lugar da interpretação?
Retomemos o ponto no qual o discurso analítico, nos espaços institucionais, não se confundiria com os outros discursos. Não seria a interpretação o que permitiria ao discurso analítico “produzir uma brecha”, no discurso da época, tal qual nos indica Fernando Otoni, no relatório da RPA, Falar o que urge – Tratamentos psicanalíticos breves, e “inserir o grau de diferença absoluta que não se deixa normativizar”? Em suma, não seria essa via a atingir o ponto de diferença absoluta?
Duas situações clínicas
Rapidamente, comentarei duas situações clínicas. A primeira envolveria uma demanda de escuta solicitada pela equipe de saúde no território indígena no período pandêmico. Uma mulher grávida queixava-se de “carregar um vazio”. Os profissionais temiam que ela não levasse a gestação adiante. Decidiram encaminhá-la para um psiquiatra. Ela, no entanto, queria alguém que pudesse ouvi-la, pois desejava falar. “Carregar um vazio” já era uma nomeação produzida a respeito de seu corpo. A escuta favoreceu um lugar no qual pudesse falar de qualquer coisa, suspendendo a obrigatoriedade de ter que levar aquela gestação adiante. Queixava-se de muitas coisas, dos lugares das mulheres na aldeia, que implicava serem apenas mães, até a parceria amorosa. A primeira nomeação dialetizou-se. Primeiro, veio em um sonho. Depois, ao afirmar que conhecia muitos chás caso quisesse interromper a gestação, o que não era o seu caso. Nas muitas voltas nas quais foi instada a falar, lembro-me de uma intervenção, perguntei-lhe se havia escolhido um nome. Quando me respondeu que não, disse-lhe “para nascer precisa ter um nome”. Abrir-se à fala permitiu que se surpreendesse consigo mesma: o parto se arrastou por muitas horas, sem sucesso, e ela achou que não conseguiria. Foi neste momento em que ela me disse que havia se lembrado de algo: para nascer precisa ter um nome. “Dei um nome – e meu filho nasceu”. Ao parir um S 1, sob transferência, o sujeito pode finalmente emergir.
Em outra aldeia, a equipe me procura a fim de que fizéssemos algo, pois havia uma mulher louca que delirava que estava grávida sem estar. Com um histórico de algumas internações psiquiátricas, temiam não saber como lidar com aquele desvario. Impedido por outras demandas institucionais, disse-lhes: “dar um lugar à loucura dela já é fazer algo”. Diante de uma precariedade simbólica, conferir a um sujeito um lugar no qual possa inscrever seu delírio é uma construção ainda que provisória.
Um convite e uma solução
Quando pensamos na relação entre o saber e a interpretação, convidamos o analisante a assumir uma outra posição com uma mediação inesperada, pois, neste caso, o analisante é convidado a dar “o que não tem – um saber do qual não é nem o mestre nem o proprietário, um saber situado e escondido nas suas falas. Esta é a regra analítica, ela consiste em convidar o analisante a dar algo que não tem. Portanto, é um convite a amar”. E é advertida disto que a psicanálise pode avançar em diferentes contextos, seja na aldeia, seja na cidade, considerando as particularidades envolvidas e os artefatos que dispõe cada um, pois avança em direção ao que “não é nem a doença nem a cura, apenas uma solução”.
