
ARGUMENTO
Eliane Baptista e Karynna Nóbrega
(Coordenação da comissão científica)
O produto do cartel: sua escrita, um estilo – tema da jornada de cartéis da Seção Nordeste – problematiza o efeito de cartel em seus participantes, um a um, provocados pelo trabalho de pesquisa, escrita e tessitura de um estilo.
Órgão de base da escola, o cartel promove a organização e o funcionamento voltados para a transferência de trabalho a partir do desejo de cada um. Tem como princípio o discurso do analista, a dimensão do real e o saber não todo, para que possa precipitar algo novo no entorno das questões. Brown,[1] retomando Lacan e Miller, esclarece que, além da própria análise e supervisão, o cartel tem efeito de formação, e é condição de pertencimento à Escola.
Partindo desses marcadores, o produto do cartel deve ser singular, atrelado que está à forma como cada falasser trata os próprios impasses na experiência analítica e corresponde ao efeito do não-saber naquele que escreve. O saber que se depura de um processo analítico tem como efeito o que Lacan chamou de estilo. O trabalho em torno do objeto faltante, o objeto a.
Lacan abre a coletânea dos seus Escritos com o conhecido enunciado de Buffon: “O estilo é o próprio homem”,[2] para dele tomar distância ao dizer que, a partir da descoberta do inconsciente, o homem não é mais uma referência segura. À fórmula inicial de Buffon, Lacan acrescenta, para tratar de estilo, a dimensão do endereçamento, incluindo nessa problemática o interlocutor, e o objeto, para sair da dualidade entre o sujeito e o Outro. O objeto é causa e o estilo é seu efeito, ou seja, é a relação de cada um com o objeto o que define um estilo.
Se o estilo é o objeto, ou melhor, a queda desse objeto, “o estilo seria o impronunciável que atravessa o texto, a causa que desliza entre linhas, o indecifrável que corre entre as palavras”.[3]
Assim, os cartéis seriam a forma privilegiada para fazer a transmissão desse estilo, pois sua estrutura está montada sobre o conceito de falta. Os cartéis podem ser um dispositivo que leva seus participantes a tirar consequências de que eles precisam colocar algo de si no seu produto.
A Jornada de Cartéis aposta na oferta de uma tessitura da escrita, para que cada cartelizante possa dizer sobre o percurso e a experiência singular dos efeitos de cartel: a formação, a escrita e a transmissão de um estilo, um saber sobre a falta. Com isso, abre a possibilidade para que cada um dê o testemunho, enuncie e ensine aquilo que não se ensina- um estilo.[4]
[1] BROWN, Noemi. O lugar do cartel na formação do analista. Correio Express, Revista online da EBP, n. 5, set. 2018.
[2] LACAN, Jacques. Abertura desta coletânea. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1981. p. 9.
[3] MILLER, Jacques-Alain; JIMENEZ, Stella. O cartel. In: O cartel: conceito e funcionamento na Escola de Lacan. Rio de Janeiro: Campus, 1994. p. 29.
[4] BRODSKY, G. Los psicanalistas y el deseo de enseñar 1ª ed. Olivos: Gama Ediciones, 2024. Libro digital, EPUB. (Tradução nossa).
PROGRAMA
Manhã
9:00 às 9:30 – Recepção dos participantes
9h30m-10h – Abertura
Convidada:
- Marilsa Basso (EBP/AMP-Diretora de cartéis e intercâmbio da EBP)
- Coord: Liège Uchôa (Diretora de Cartéis e Intercâmbio da Seção NE)
10:00 -10:40 – Mesa 1: Psicanálise e Autismos
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- Coord: Anamaria Vasconcelos
- Cartelizantes: Jeannine Narciso- A presença do Outro no mundo do autista
- Maria Verônica-Qual o uso do corpo do analista no manejo da transferência com autistas?
- Regina Cheli- A constituição do falasser autista: um esforço de mostração
10:40 -11:20 – Mesa 2: A infância, o pai, os novos sintomas
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- Coord: Sandra Conrado
- Cartelizantes: José Ronaldo de Paulo-Quanto menos tempo o tempo menos tem? Infâncias
- Antônio Júlio Garcia -A quem serve o pai?
- Raisa Trajano -O gozo e os novos sintomas: o caso clínico de Demítria
11:20 – 11:30 – Intervalo
11:30 – 12:10 – Mesa 3: Psicanálise na Instituição
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- Coord: Vania Ferreira
- Cartelizantes: Karynna Nóbrega – Entre a agulha e a linha a tessitura de um lugar para o falasser na instituição
- Samuel Nantes- Existe psicanálise na instituição?
- Pauleska- Nóbrega Com que escrita se escreve um testemunho?
12:10 – 12:50 – Mesa 4: Psicose ordinária, arte e clínica na atualidade
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- Coord: Késia Ramos
- Carlange de Castro- O olhar na arte fotográfica
- Sarah Ruth- Reflexões sobre a psicose ordinária: da clínica
- descontinuísta à clínica dos nós
- Liège Uchôa – A psicose ordinária: seu estudo em um cartel
12:50 – 14:30 – Almoço
Tarde
14:30 15:00
Convidada:
- Cassandra Dias (EBP/AMP-Diretora Geral da Seção NE)
- Coord: Érick Leonardo
15:00 – 15:40 – Mesa 1: Psicanálise, amor e direção do tratamento
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- Coord: Eliane Dias Batista
- Cartelizantes: Marina Luna- Uma questão para Levi: existe amor em São Paulo?
- Socorro Soares -O feminino infamiliar e os destinos do amor
- Marina Fragoso- Histeria Masculina? Considerações sobre a direção do tratamento
15:40 – 16:20 – Mesa 2: Alienação e separação: A transferência
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- Coord: Lídia Pessoa
- Cartelizantes: Deise Mélo- O significante da transferência é um ponto de
- partida para a construção do sintoma analítico?
- Tatianne Torres-Mais que dois um: transferência e interpretação no Banquete
- Anícia Ewerton- Entre o vel e o véu da alienação
16:30 – 17:10 – Mesa 3: Os conceitos fundamentais da Psicanálise
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- Coord: Karynna Nóbrega
- Cartelizantes: Rosemarie Mooneyhan – Os conceitos fundamentais da psicanálise e a formação do analista
- Thailla Franco – Repetição, angústia e desejo
- Neide Medeiros – O inconsciente e a repetição à luz de Freud e Lacan
17:10 – 17:50 – Mesa 4: A Escola e a escrita do real
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- Coord: Cleide Monteiro
- Cartelizantes: Nelson Matheus – Os jovens e o saber: uma porta
- Cláudia Formiga – Real, Grupo e Escola
- José Augusto Rocha – Os abonados do inconsciente e seus grampos
18:00 Encerramento:
Liège Uchôa
