
Boletim Litorâneo #19 – Dezembro 2025
EDITORIAL

Juliana Ribeiro
Comissão da Diretoria de Biblioteca
“A água cava
sulcos na carne seca da terra
como quem escreve
um nome que não se apaga.”(João Cabral de Melo Neto In: “O Rio”, 1973)
A 5ª Jornada da Seção Nordeste da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) ao trazer o tema Trauma ao centro das discussões, inscreveu-se como um acontecimento clínico e político. Em tempos marcados por rupturas, violências, catástrofes coletivas e impasses subjetivos cada vez mais evidentes, a Jornada convocou analistas, estudantes e interessados a colocar em cena uma questão central: como o trauma se escreve no sujeito e como a psicanálise pode operar sobre o que insiste para além do sentido?
Ao longo da Jornada, os trabalhos clínicos das mesas, as generosas conferências de Marcus André Vieira e os depoimentos dos artistas da terra abriram espaço para uma elaboração rigorosa e viva.
A clínica compareceu como bússola, apresentando seus desafios, situando o trauma não como um acontecimento externo, mas um encontro com o real que excede as possibilidades de simbolização. Aquilo que retorna ao mesmo lugar, fora da cadeia significante, impondo-se como furo, como impacto, como marca. O trauma foi pensado em suas múltiplas articulações: com o corpo, com a insistência da repetição, com o gozo, com a angústia e com os impasses da civilização.
Esta Jornada reafirmou a aposta na palavra, no tempo lógico da análise e na singularidade de cada caso. Também, os discursos contemporâneos foram interrogados; esses mesmos que tendem a universalizar a dor e a transformar o sujeito em vítima, frequentemente apelando à medicalização, à normalização ou à rápida eliminação do sofrimento. Nesse ponto ficou evidente a distinção da psicanálise. Ela não promete apagar o trauma, mas oferece uma via para que o falasser possa fazer algo com o que o atravessou.
Neste Litorâneo recolhemos algumas palavras sobre a experiência de participar, pela primeira vez da Jornada da Seção, seja apresentando trabalhos nas mesas, seja coordenando-as. Também convidamos a falar aqueles que participaram das coordenações das comissões que fizeram acontecer de forma entusiasmada esse rico evento, com seus baques e, também, com muita animação.

Coordenação Geral da Jornada
Bibiana Poggi
O que dizer da função de coordenar a V Jornada da Seção NE da EBP?
Assumir a função de coordenar a V Jornada da Seção NE da EBP, consistiu em uma experiência ímpar de formação, pois foi preciso pensar a Jornada, inserida numa Escola de Psicanálise que sustenta que “um psicanalista nunca está sozinho, ele depende tal como um chiste, de um Outro que o reconheça”.
Desta forma, valeu a pena pensar o Sujeito-Escola, como definiu Miller, ressaltando que o coletivo nomeado Escola é composto por membros, Um a Um com seu sintoma, seus ideais, seu modo de gozo, seu enlace a Causa Psicanalítica.
Assim, entre encontros, desencontros, enlaces, desenlaces, novos enlaces, sempre numa boa “a-tem(s)ção” entre àqueles que assumiram as coordenações de diferentes comissões, a V Jornada foi sendo tramada com os fios do desejo decidido e da transferência pelo trabalho à Psicanálise, alojando é claro a solidão de cada UM.
Coordenação da Comissão Científica
Anamaria Vasconcelos
Uma tecitura, a formação
Estar na coordenação da comissão científica da V Jornada da seção Nordeste, em parceria com Cassandra Dias, foi uma alegre e viva experiência de Escola, de formação. Um desafio, sem dúvida mas uma oportunidade valiosa de vivenciar o coletivo da seção e avançar na trajetória de tornar-se analista. Mas o que é um psicanalista? É um advir, há um analista em cada análise dirigida, um lugar cujas variantes é saber e ignorância.
Efeito de formação que ressoou no corpo, sob encontros e desencontros na medida que estivemos submetido aos efeitos do discurso. Assim, cito Miller, a Escola é uma “unidade dinâmica” cuja fundação é um processo permanente e “a céu aberto”, que precisa ser subjetivado por toda a comunidade, a jornada foi e é parte essencial desse processo. Que o poeta fale : Um galo sozinho não tece uma manhã:/ ele precisará sempre de outros galos…
Cassandra Dias
Compor a comissão científica da V Jornada da Seção Nordeste foi uma oportunidade para se tirar consequências do cartel como máquina de guerra na tentativa de ir a contrapelo do discurso do Mestre. Promover um movimento orgânico ao pensar politicamente em como desalojar posições e provocar a ocupação de novos lugares, foi o princípio que norteou o direcionamento da comissão.
Foi uma aposta na transferência de trabalho e na produção de um saber que levasse em consideração o desejo de cada um que compôs uma comissão científica ampliada a partir da constituição de carteís que desenvolveram os temas dos eixos temáticos, produziram seus argumentos, construíram uma plenária, leram e apreciaram os trabalhos recebidos e coordenaram as discussões nas mesas.
Uma satisfação acompanhar o trabalho de um coletivo de trabalhadores decididos, que foi intenso, ensinante e cujos efeitos de formação ainda esperamos recolher.
Coordenação da Comissão de Referências Bibliográficas
José Carlos Lapenda
A participação nos trabalhos da Comissão de Referências Bibliográficas entusiasmou os que dela participaram e incentivou a presença de cada um na Jornada.
A contribuição dessa Comissão foi central para a boa qualidade dos trabalhos apresentados e dos debates desenvolvidos, no esforço de manter viva a transmissão da psicanálise, o que é o objetivo de cada Jornada e segue o desejo de Lacan. Desejo que ele deixou inscrito ao utilizar a palavra Scilicet para nomear a revista da Escola Freudiana de Paris, no já distante ido de 1968.
Tal resultado deixa os que compuseram a Comissão ainda mais motivados a participar da vida da Escola e persistir em sua formação.
Coordenação da Comissão da Livraria.
Cristina Maia
Assumir a Coordenação da Livraria da V Jornada da Seção Ne foi consentir com um trabalho que se apresentou como convocação. Escutar sugestões da comissão, colocá-las em prática, foi ali onde as enunciações puderam ser alojadas num fazer coletivo. E assim, a Livraria fez-se lugar: de encontro, de circulação do desejo, de livros que operavam menos como objetos e mais como causa. Coordenei trabalhando, trabalhei coordenando. A prioridade foi estar ali. O que sustentou foi o laço: um Affectio Societatis contingente, escrito no fazer junto, no cansaço partilhado, no entusiasmo diante dos livros esgotados. Ali operou um amor — não ideal — movido pelo desejo como causa de trabalho. Saí atravessada e agradecida pela experiência!!!
Coordenação da Comissão de Infraestrutura
Késia Ramos
Infraestrutura como lugar de invenção
Coordenar a infraestrutura da V Jornada da Seção Nordeste foi sustentar um fazer que, para além de acolher e organizar, se deixou orientar pela leitura, interpretação e invenção. Um trabalho tecido no laço com colegas participantes da Seção Nordeste, onde a coletividade, efeito de transferência e de desejo, tornou possível um percurso construído a muitas mãos.
Apostamos em fazer da arte um operador no espaço físico ao longo dos dias da Jornada. Uma citação de Miller e as ecobags marcavam as boas-vindas; no percurso, instalações como o Varal das Palavras, A Tela da Fantasia, O Horizonte das Palavras, o Ponto insTraumagrável, o Café e a Cena da Arte se articularam ao tema Trauma e aos seus três eixos, abrindo experiências que tocavam o corpo, o olhar e a presença. Por fim, a festa de celebração, Abalada do Trauma, selou esse percurso.
Assim, a infraestrutura se constituiu como um espaço de leitura e invenção, em estreito entrelaçamento com as demais coordenações, onde o trabalho se fez na delicadeza dos detalhes e das trocas, imprimindo marcas de um estilo próprio e sustentando-se em consonância com a política da EBP.
Coordenação da Comissão de Mídia
Claudia Formiga
Participar da construção da V Jornada envolveu, para mim, muito trabalho e uma satisfação única. Ao longo de alguns meses, me animou um duplo desafio: encontrar no trabalho com a Comissão, a melhor maneira de comunicar o que em nossa comunidade se vinha produzindo em torno do tema da Jornada e também o de conseguir reger talentos tão variados e singulares estilos na produção de um convite ao trabalho. Para isso, buscamos suporte e inspiração no cinema, na música, na literatura. A arte, como sempre, se revelando uma potente via de elaboração e de transmissão.
Por fim, o humor foi um operador decisivo para a travessia nesse campo onde o trabalho não vai sem encontros com o real. Como nos lembra Freud, é o humor que ao deslocar o supereu, faz barra ao excesso de exigência e ao peso do ideal. Entre o riso, tropeços e invenções, muito aprendi coordenando o trabalho dessa Comissão, que, uma vez mais, me reafirmou a aposta no coletivo Escola.

Gaio saber..
Enquanto praticante da psicanálise, pude experienciar um lugar de acolhimento de trabalho. A experiência de formar uma mesa teve um efeito de formação enorme, o encontro com os trabalhos que iriam ser apresentados, e com a coordenadora da mesa, trouxe à experiência algo de novo, fez a palavra circular entre nós, trabalhar a leitura.
A mesa “Lugar secreto” no esforço de poesia trouxe à jornada, e a mim, o respiro infantil, aquilo que da criança nos enlaça, o novo, a ideia do brincar enquanto não nos damos conta da adultez do fazer, do laborar e do fantasiar, quem sabe o lugar secreto foi esse? Que, adultos, esquecemos, deixamos em algum lugar da infância e nunca mais voltamos, a não ser na fantasia.
Poder, para além de presenciar a transmissão delicada e avassaladora de Marcus André Vieira, como uma chuvarada na planície, pôr à luz meu trabalho de praticante, minha práxis, para que ela pudesse do simbólico, suscitar algo do real presente, fazer as e os colegas, acrescentarem algo do novo, e fazer-nos olhá-lo como crianças, surpresos com o que há de vir.
Por Caio Varela
Essa Jornada foi diferente. Ao menos para mim.
Me coloquei a trabalho nas atividades preparatórias e participando da Comissão de Referências. Apostei numa escrita que situa um caso clínico, mas também em primeira pessoa. Uma escrita que se fez em ato porque experimentei tocar em minha trajetória, juntamente com a de César. O despertar foi de nós dois. Do meu lado, o desejo de avançar como praticante se impôs e já não há outra maneira de sustentar a minha clínica.
Estar numa mesa tão rica em construções, com casos delicados e bem conduzidos, me lançou a algo inédito: o prazer de me sentar entre colegas e dialogar sobre a nossa prática. Abri novas brechas: a formação que escolhi segue mais viva e instigante a cada passo.
Por Liana Feldman
Breve comentário do ato de apresentar um trabalho na V Jornada da Seção NE.
Trabalhar na escrita de um texto para uma jornada da seção vai na direção do que a Escola exige do praticante: uma virada de posição em relação ao que ele opera no consultório. Ali, ele ocupa a função do preguiçoso; é o analisante quem realiza o esforço. A Escola convoca o analista a sair dessa posição e trabalhar para dizer o que faz. É justamente por não saber o que é o analista, mas por querer saber, que ele se coloca a trabalho. Assim, pude me arriscar na escrita e tirar a clínica da solidão, saindo da inibição e fazendo-a circular. Poder dividir o caso com os colegas da mesa e ouvir os comentários e questões da coord. Margarida Assad, produziu em mim um efeito de formação, não no sentido de adquirir um saber pronto, mas o de uma produção singular. Escrever sobre a prática é o oposto de fechar a porta do consultório; é deixar uma brecha para que o outro se coloque e faça furo. É trabalho, mas um trabalho do vivo.
Por Anderson José
Efeito de um trabalho
Foi com satisfação e alegria que aceitei o convite para coordenar a mesa: Peças soltas, na V Jornada da Seção Nordeste. Foi a minha primeira experiência! A princípio, a responsabilidade desse papel produziu apreensão, mas logo fui atravessada por um vivo desejo de trabalho e de sustentar este lugar. Ao participar de eventos similares, eu não fazia ideia do que significava exercer tal tarefa. Exige um compromisso de não ocupar o lugar de saber, mas de criar condições para que a palavra circule, a partir dos trabalhos escritos. Pude verificar que no entrelaçamento dos textos, corpos e vozes, são produzidos efeitos de transmissão, que permitem a circulação dos discursos, saberes, experiências, estilos, que renovam o desejo de saber junto aos pares. O prazer esteve no exercício dessa função e na vivacidade das conversas, trocas, construções, reuniões, junto às pessoas que trabalharam para a Jornada.
Por Rosemarie Fernandes Mooneyhan
A produção de um trabalho para ser apresentado em uma jornada é intensa. As dificuldades que encontrei no percurso mostraram que esse era um caminho que valeria a pena. Ao longo desse trajeto, mudanças são produzidas e os efeitos desse ato, de participar de uma mesa composta por colegas e coordenador, são múltiplos: é possível uma análise dos pontos de interseção entre os trabalhos, bem como dos pontos situados fora desse encontro. Assim, me foi revelado tanto da singularidade do meu trabalho, quanto do que não foi possível de ser percebido ao longo do processo. Como disse mestre Fida “não fiz boca, nem olho (nas esculturas), porque não sei fazer”, do mesmo modo, foi com o meu sintoma e seus limites que me coloquei a trabalho, mas os efeitos dessa participação seguem reverberando, “como se fora brincadeira de roda”.
Por Priscila Carvalho
Minha participação na V Jornada da Seção Nordeste da EBP permitiu o meu encontro com trabalhadores decididos, cada um com o seu não-todo saber, em torno da transmissão dos impasses e desafios da clínica psicanalítica. Recolho das trocas com os colegas e a coordenação da mesa um novo despertar do desejo do analista, podendo, além da análise pessoal, supervisão e do estudo, compartilhar com a comunidade os efeitos da minha prática. Posso dizer que a apresentação do trabalho trouxe ressonâncias para minhas inquietações mais íntimas, colocando-me à serviço da psicanálise, sem melindres imaginários, jogando com meus furos e com o real desse ofício contingente e transformador.
Por Luiza Domingues
Agradeço à Diretoria da Biblioteca pela oportunidade de compartilhar as ressonâncias e os efeitos de formação produzidos pela V Jornada da EBP – Seção Nordeste, intitulada Trauma. A partir da mesa que coordenei, Errâncias, senti-me convocada a elucubrar sobre a formação do analista: um percurso que não segue um único caminho, que é múltiplo e singular, guiado pela lógica do Um, mas não sem os pares. Compartilhar essa mesa com colegas transferencialmente enlaçados à Escola, bem como com apresentações ricas e teoricamente consistentes, colocou-me a trabalho: leituras, questões, encontros e trocas. O vivo da Jornada revelou-se na partilha do saber-fazer diante dos impasses da clínica, na reafirmação da transferência de trabalho com a Escola, na abertura aos pares, no manejo da solidão da clínica e nas questões que ressoaram, ainda ressoam e convidam a novos questionamentos — finalizada ao som de “Abalada”, com gostinho de quero mais. Que venha a próxima Jornada!
Por Ísis Maurício
Participar da mesa na V Jornada Seção Nordeste produziu efeitos de formação importantes. Três casos distintos se encontraram em torno de um mesmo ponto de furo, fazendo aparecer o caráter subjetivo ineliminável do trauma. A escolha dos trabalhos favoreceu uma conversação viva, sustentada pela leitura delicada do coordenador da mesa, cujas questões abriram novas vias de leitura. O questionamento do título do meu trabalho — o que me olha é sem sentido / o que eu vejo toma forma — deixou explícito o real sem lei e a montagem da fantasia como tentativa de lhe dar contorno, com efeitos diretos na condução clínica a posteriori. A mesa permitiu, ainda, reinscrever a dimensão política da violência do trauma, lembrando que o sujeito do inconsciente não está fora da experiência social.
Por Luma de Oliveira


Litorâneo – Boletim Eletrônico da EBP Seção Nordeste
Coordenadora da Comissão de Boletim: Sandra Conrado – Diretora de Biblioteca
Comissão de Boletim: Juliana Ribeiro, Nelson Matheus Silva (NPJ), Roberta Gusmão, Tatiana Schefer e Wilson Lima
Designer: Bruno Senna – sennabruno@gmail.com
