Jornada de Cartéis e Intercâmbio da Seção Nordeste EBP-NE
Data: 04 de outubro de 2025
Entre o múltiplo e o Um: o cartel na Escola
Convidado: Bernardo Carneiro (EBP/AMP)
- Data de envio de trabalhos: até o dia 17 de setembro de 2025
Enviar o texto para o email: diretoria de diretoriacarteisnordeste@gmail.com - Normas de envio do trabalho:
- O trabalho deve ser fruto da experiência do cartel. Recomendamos ter sido lido no cartel e discutido antes do envio, e revisado. Caso o cartel seja clínico, privilegiar o uso de vinheta, ao invés de caso clínico.
- O arquivo deve possuir no máximo 4500 caracteres com espaço. Fonte Times New Roman, espaçamento de linha 1,5.
- Colocar no campo do assunto do email: Jornada de Cartéis da Seção Nordeste
- Incluir no corpo do email:
Tema do cartel, nome dos cartelizantes e do +1
No arquivo do texto: título e autor
Diretoria de cartéis e intercâmbio
Grupo de trabalho: Karynna Nóbrega (EBP/AMP), Ana Ocileide, Ísis Maurício, Marina Fragoso (NPJ) e José Augusto Rocha (NPJ)

ARGUMENTO
Entre o múltiplo e o UM: o cartel na Escola
Cláudia Formiga
Foi com alegria que aceitei o convite de Karynna Nóbrega para escrever o Argumento desta III Jornada de Cartéis da Seção Nordeste. Para mim, uma oportunidade preciosa de aprender com a tarefa que me foi confiada, de pensar o cartel em sua articulação ao Um e o múltiplo, um tema que toca diretamente à formação do analista e ao conceito de Escola.
Com o convite, veio também o cartaz da Jornada. Nele, me encantou a imagem da toalha de mesa com seus fios, as cores vivas… A trama delicada do filé — um artesanato muito apreciado aqui no Nordeste, em que cada fio se enlaça a outros, sem que se perca de vista o seu matiz original — me pareceu uma feliz escolha para ilustrar o trabalho em cartel, que também se faz de singularidades entretecidas.
“Para a execução do trabalho, adotaremos o princípio de uma elaboração apoiada no pequeno grupo. Cada um deles (…) se comporá de no mínimo três pessoas e no máximo cinco (…). Mais-um encarregado da discussão, da seleção e do destino a ser reservado ao trabalho de cada um”.[i]
No conceito de Escola está incluída a causa do desejo de saber, que constitui o desejo do analista como tal. É no cartel que o desejo de saber e a elaboração singular adquirem valor de uma transferência de trabalho, a partir do enlaçamento com outros. O cartel abriga, assim, a tensão entre o um e o múltiplo, na medida em que acolhe a singularidade e promove a sua ressonância no laço coletivo.
O Um de que se trata não é o da identidade ou da totalidade, mas Um do gozo, sempre êxtimo, Um sozinho que se encontra na experiência de análise e que insiste como marca singular. O múltiplo, referido aqui à Escola, se constitui não como “instituição”, saber acumulado do qual se espera um ensino, mas como um conjunto aberto, onde as singularidades podem vir a se enlaçar, sem se fundir. A Escola de Lacan coletiviza, não identifica, não produz “iguais”.
O saber, na Escola de Lacan, se produz pela extração de um real. E desde o seu “Ato de fundação”, Lacan colocou em sua base o cartel. Entre os princípios fundadores, com que deu partida a essa sua “invenção totalmente nova”, o cartel foi a resposta de Lacan, em termos coletivos, aos modos como real se apresenta em sua Escola. São esses princípios que, retomados por Miller em sua tese da Escola como sujeito (e como tal, interpretável analiticamente), que o farão designar a comunidade dos analistas como uma reunião de “uns-sozinhos”:
“uma reunião de solidões, ou melhor, uma série de exceções, de solidões incomparáveis umas às outras, todas são solidões estruturadas como solidões, quero dizer como sujeitos barrados, fixados a significantes mestres e habitados por uma extimidade de um mais-de-gozar particular de cada um.”[ii]
Uma formulação que nos permite situar como causa a relação de cada analista com a Escola. No centro, o real da formação como um ponto de impossível, em torno do qual se articulam as análises, as supervisões e a produção de saber, sempre atravessadas pela transferência, tanto na sua dimensão individual quanto coletiva. O cartel, enquanto “célula mínima” da Escola, é um lugar onde o Um do sintoma encontra o múltiplo da transferência de trabalho. Nesse dispositivo, é entre o Um e o múltiplo que se estabelece de modo privilegiado a relação da Escola com o real que a determina, em uma experiência de formação que embora no espaço do coletivo, é atravessada pela elaboração singular e pelo furo no saber.
Como fazer laço sem fundar um universal? O cartel como pilar da formação, seria esse lugar onde a Escola se reconhece em sua condição de sujeito? De que modo, no cartel, se atualiza o conceito de Escola? Que essas e outras questões sejam convocação ao trabalho! Que os fios que compõem a toalha de filé, cuja imagem ilustra o nosso cartaz sejam inspiração para a tessitura de trabalhos, elaborações singulares, produtos de cartel endereçados a nossa III Jornada.
Provocados pela aposta desta Jornada, chamamos cada um ao trabalho, para que possamos extrair dela os efeitos sempre atuais de pensar e praticar o cartel como núcleo vivo da Escola.
[i]LACAN, J. – “Ato de fundação”.
[ii]MILLER, J-A. “Teoria de Turim”. Disponível In: http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_21/teoria_de_turim.pdf