{"id":5746,"date":"2026-09-17T16:06:20","date_gmt":"2026-09-17T19:06:20","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5746"},"modified":"2026-09-17T16:06:20","modified_gmt":"2026-09-17T19:06:20","slug":"fracasso-entre-produtividade-e-produto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/fracasso-entre-produtividade-e-produto\/","title":{"rendered":"Fracasso entre produtividade e produto"},"content":{"rendered":"<h5>Diego Cervelin (EBP \/ AMP)<\/h5>\n<p>No momento da inscri\u00e7\u00e3o de um cartel, cada cartelizante apresenta uma quest\u00e3o de trabalho. Ela raramente se apresenta como tal logo nas primeiras reuni\u00f5es e requer que, cada um, se empenhe em encontrar um ponto de interesse singular, algo seu e que resta al\u00e9m da delimita\u00e7\u00e3o do tema. Uma quest\u00e3o, sob essa perspectiva, parece ser importante para orientar n\u00e3o apenas um percurso de leituras, mas tamb\u00e9m aquilo que vai vir como produto do cartelizante \u2013 uma elabora\u00e7\u00e3o que, em vez de se restringir ao saber da resposta, tamb\u00e9m permite ressoar um tanto do vivo de cada um<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Nada impede que, na tentativa de formular uma resposta, algu\u00e9m acabe recorrendo \u00e0s formula\u00e7\u00f5es j\u00e1 conhecidas e se detenha no saber estabelecido por outros. Mas isso \u00e9, de fato, suficiente para tocar aquele interesse singular mobilizado pelo cartelizante? Pelo menos de acordo com os arranjos dos quatro discursos, <em>\u201cproduto\u201d parece ser algo que decorre de um funcionamento<\/em> que implica lugares (agente, outro, verdade, produ\u00e7\u00e3o) e termos (S1, S2, a, $) que se intercambiam dando margem para diferentes modos de fazer frente ao real, atrelando um tanto de saber e um tanto de gozo. Se consideramos que produto, no cartel, tamb\u00e9m \u00e9 algo que decorre de um certo funcionamento ou \u201cdisfuncionamento\u201d, \u00e9 prov\u00e1vel que ele n\u00e3o se confunda com aquela resposta esperada l\u00e1 no in\u00edcio do percurso. Seria isso um fracasso?<\/p>\n<p>Elisa Alvarenga recorda que \u201co fracasso [&#8230;] \u00e9 inerente \u00e0 estrutura mesma do saber anal\u00edtico, na medida em que \u00e9 sua condi\u00e7\u00e3o de possibilidade [&#8230;] a cl\u00ednica psicanal\u00edtica orienta-se pelo real, por aquilo que n\u00e3o funciona, extraindo da\u00ed suas possibilidades\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Me parece que isso pode se aplicar at\u00e9 mesmo aos carteis, uma vez que seus produtos comportam uma elabora\u00e7\u00e3o de saber n\u00e3o necessariamente exaustiva. Em outros termos, isso significa que um produto de cartel aposta em um saber n\u00e3o produtivista, um saber diferente daquele que predomina no discurso universit\u00e1rio e que faz dos sujeitos seus restos. No <em>Semin\u00e1rio 17<\/em>, Lacan fala dos estudantes como \u201castudados\u201d, justamente porque eles meio que se perdem diante de um saber totalizante, um saber que n\u00e3o consegue vibrar nas entranhas de quem se empenhou em produzi-lo<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Na contram\u00e3o disso, no pr\u00f3prio dispositivo do cartel, abre-se um convite para que cada cartelizante tamb\u00e9m aposte em uma elabora\u00e7\u00e3o de saber que talvez j\u00e1 se satisfa\u00e7a ao promover uma reorienta\u00e7\u00e3o de perspectivas, de modos de ler. Ou melhor, na medida em que se trata de tocar uma quest\u00e3o singular, h\u00e1 algo que parece ir al\u00e9m do ganho epist\u00eamico, implicando uma muta\u00e7\u00e3o subjetiva que se opera nas entranhas de cada um. Diante disso e considerando que h\u00e1 gozo at\u00e9 mesmo onde um desejo balan\u00e7a, \u00e9 poss\u00edvel que inclusive as dificuldades experimentadas no cartel possam fazer as vezes de quest\u00e3o, trazendo para cada cartelizante uma nova possibilidade de elabora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Partindo do escrito sobre \u201cA psiquiatria inglesa e a guerra\u201d, os grupos propostos por Bion interessaram Lacan antes mesmo de que ele estabelecesse uma l\u00f3gica de funcionamento para seu dispositivo de cartel: no frenesi do front, pequenos grupos deveriam se organizar a fim de encontrar direcionamentos e eventuais resolu\u00e7\u00f5es para problemas pontuais \u2013 sem precisar recorrer \u00e0s figuras de autoridade. Ou seja, diante de um problema mais ou menos coletivo, cada um dos implicados deveria colaborar colocando algo de si.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Alvarenga, Elisa. O \u201cfracasso\u201d na medicina e na psican\u00e1lise. In: <em>Curinga 34 \u2013 Insist\u00eancia da puls\u00e3o.<\/em> Belo Horizonte: EBP \u2013 MG, jun. 2012, pp. 75-76.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Lacan, Jacques. <em>O Semin\u00e1rio, livro 17 \u2013 o avesso da psican\u00e1lise.<\/em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992, p. 99.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diego Cervelin (EBP \/ AMP) No momento da inscri\u00e7\u00e3o de um cartel, cada cartelizante apresenta uma quest\u00e3o de trabalho. 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