{"id":5722,"date":"2026-06-24T18:34:07","date_gmt":"2026-06-24T21:34:07","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5722"},"modified":"2026-06-24T18:34:07","modified_gmt":"2026-06-24T21:34:07","slug":"consideracoes-sobre-o-cartel-e-seus-possiveis-efeitos-de-formacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/consideracoes-sobre-o-cartel-e-seus-possiveis-efeitos-de-formacao\/","title":{"rendered":"Considera\u00e7\u00f5es sobre o cartel e seus poss\u00edveis efeitos de forma\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h5><strong>Val\u00e9ria Beatriz Araujo<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h5>\n<p>\u201cAssim, de supet\u00e3o, qualquer rec\u00e9m-chegado pode fazer avan\u00e7ar a psican\u00e1lise? Sim, \u00e9 essa a aposta inicial da Escola, quando n\u00e3o se define como uma \u2018escola de psicanalistas e candidatos\u2019, mas de trabalhadores.\u201d <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p><em>Trabalhadores,<\/em> a que se refere este termo? \u00c9 o que pede Lacan em 1964, no <strong><em>Ato de Funda\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/em><\/strong> de sua Escola: \u201cN\u00e3o necessito uma lista numerosa, mas de trabalhadores decididos\u201d. Ele est\u00e1 apontando a\u00ed, n\u00e3o ao amor ao saber, mas ao desejo de saber. Trabalhadores, na perspectiva de que v\u00e3o contra a ignor\u00e2ncia, no sentido da repress\u00e3o, do horror ao saber. Ali\u00e1s, n\u00e3o h\u00e1 analista, a n\u00e3o ser que este desejo de saber surja, como nos lembra Miller<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> em <em>El banquete de los analistas<\/em>.\u00a0\u00a0 Portanto, a posi\u00e7\u00e3o de trabalhadores n\u00e3o \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o sacrificial, mas, sim, um lugar de satisfa\u00e7\u00e3o. Uma experi\u00eancia de Escola.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>\u00c9 tamb\u00e9m neste mesmo texto de refer\u00eancia para n\u00f3s, o<strong><em> Ato de Funda\u00e7\u00e3o <\/em><\/strong>da Escola, que Lacan apresenta o cartel e define os seus princ\u00edpios. Ali, j\u00e1 vemos o cartel ocupando um lugar central na forma\u00e7\u00e3o do psicanalista:<\/p>\n<p>Para a execu\u00e7\u00e3o do trabalho, adotaremos o princ\u00edpio da elabora\u00e7\u00e3o apoiada num pequeno grupo. Cada um deles se compor\u00e1 de no m\u00ednimo tr\u00eas pessoas e no m\u00e1ximo cinco, sendo quatro a justa medida.\u00a0 MAIS UM, encarregado da sele\u00e7\u00e3o, da discuss\u00e3o e do destino a ser reservado ao trabalho de cada um. Ap\u00f3s um certo tempo de funcionamento, os componentes de um grupo ver\u00e3o ser-lhes proposta a permuta para outro. (&#8230;) todo trabalho a ser empreendido ser\u00e1 submetido \u00e0 Escola.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>J\u00e1 em 1980, o cartel \u00e9 nomeado por Lacan como o \u00f3rg\u00e3o de base da Escola em outro texto de refer\u00eancia, <strong><em>D\u2019Ecolage<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/em><\/strong>, cuja tradu\u00e7\u00e3o permeia algo entre <em>decolar e descolar<\/em>, texto onde ele destacar\u00e1 a dissolu\u00e7\u00e3o e a permuta\u00e7\u00e3o como tempos fundamentais do cartel, e cujas linhas principais s\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Quatro se escolhem para prosseguirem num trabalho que deve ter um produto. Eu preciso [diz ele]: um produto pr\u00f3prio a cada um, e n\u00e3o coletivo.<\/p>\n<p>&#8211; A conjun\u00e7\u00e3o dos quatro se faz em torno de um Mais-um, que deve zelar pelos efeitos internos e provocar a elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Nenhum progresso deve ser esperado, a n\u00e3o ser uma exposi\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica dos resultados, como as crises de trabalho.<\/p>\n<p>&#8211; Para prevenir o efeito de cola, deve-se fazer permuta\u00e7\u00e3o, sendo o t\u00e9rmino fixado no final de um ano, m\u00e1ximo dois.<\/p>\n<p>Qualquer pessoa pode participar de um cartel, sendo o que permite uma aproxima\u00e7\u00e3o com a Escola. \u00c9 um dispositivo o qual chamamos <em>\u00f3rg\u00e3o de base da Escola, <\/em>\u201cou seja, que aquilo que se elabora num cartel possa estar atravessado, nas melhores condi\u00e7\u00f5es, por essa tens\u00e3o entre o Um e o M\u00faltiplo da Escola\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.\u00a0 O cartel permite fazer circular o desejo de saber, havendo um saber in\u00e9dito que a\u00ed aparece, fruto da enuncia\u00e7\u00e3o de cada um. De cada um, mas n\u00e3o sem os outros.<\/p>\n<p>Todos os participantes do cartel est\u00e3o em posi\u00e7\u00e3o cartelizante, reunidos em torno de um tema comum, para estudar, fazer leituras de textos, trabalhar casos cl\u00ednicos, ter interlocu\u00e7\u00e3o com outros saberes, promover interc\u00e2mbios e extrair da\u00ed quest\u00f5es e elabora\u00e7\u00f5es, tendo, cada um, sua pr\u00f3pria quest\u00e3o dentro do cartel. \u00c9 um coletivo de trabalho, <em>n\u00e3o <\/em>pautado pela autoridade de um chefe\/mestre, ou seja, o Mais-um \u00e9 um membro do cartel e tamb\u00e9m se encontra em posi\u00e7\u00e3o cartelizante, em rela\u00e7\u00e3o aos outros e ao saber. \u201cN\u00e3o se trata de uma hierarquia do avesso, mas de uma organiza\u00e7\u00e3o circular, marcada por um igualitarismo evidente. No sistema de cart\u00e9is, todos t\u00eam o mesmo valor.\u201d <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Sabemos que a forma\u00e7\u00e3o do analista \u00e9 permanente e se constitui num trip\u00e9: an\u00e1lise pessoal, supervis\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. O cartel encontra-se particularmente ligado \u00e0 forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, mas em conex\u00e3o com os outros dois pontos, produzindo <em>seus poss\u00edveis efeitos de forma\u00e7\u00e3o<\/em>. Numa rela\u00e7\u00e3o articulada com a <em>experi\u00eancia de Escola<\/em>. Uma experi\u00eancia in\u00e9dita, sempre a cada vez, uma experi\u00eancia de leitura e investiga\u00e7\u00e3o, que considera que o saber que se constr\u00f3i num cartel \u00e9 a partir de um n\u00e3o saber, n\u00e3o est\u00e1 posto <em>a priori<\/em> e nem se fecha de forma conclusiva, mas, ao contr\u00e1rio, abre-se para novas quest\u00f5es e perspectivas, a partir da elabora\u00e7\u00e3o que cada um produziu durante o tempo de dura\u00e7\u00e3o do cartel. Uma elabora\u00e7\u00e3o que \u00e9 sempre uma elabora\u00e7\u00e3o em curso, que segue em seus efeitos de forma\u00e7\u00e3o, causando o desejo de saber, no encontro com um pr\u00f3ximo cartel.<\/p>\n<p>Os interessados podem localizar pessoas com temas afins e reunirem-se, delimitarem suas quest\u00f5es para iniciar o trabalho, conversarem sobre quem poderiam convidar para ser o Mais-um do grupo, o qual, tal como Lacan colocou nos textos fundamentais que comentamos acima, n\u00e3o \u00e9 um <em>expert<\/em>, mas algu\u00e9m tamb\u00e9m interessado em trabalhar o tema e provocar a elabora\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 um l\u00edder, mas um l\u00edder modesto, (&#8230;) podemos fazer dele uma fun\u00e7\u00e3o, e, mais ainda, permutativa. (&#8230;) De fato, (&#8230;) o cartel \u00e9 uma <em>m\u00e1quina de guerra<\/em> (como o diz Lacan) contra o <em>didata e sua cambada\u201d.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><strong>[7]<\/strong><\/a> (<\/em>Uma m\u00e1quina de guerra contra o totalitarismo, podemos acrescentar.<\/p>\n<p>Para concluir, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escolha do tema, esta n\u00e3o se d\u00e1 pela l\u00f3gica das identidades (do tipo \u201ctodos queremos estudar a mesma coisa\u201d). O importante s\u00e3o alguns pontos em comum, uma intersec\u00e7\u00e3o, tal qual na l\u00f3gica dos conjuntos. A quest\u00e3o de cada um, como tal, muitas vezes s\u00f3 se saber\u00e1, de fato, quando o cartel termina, quando h\u00e1 um percurso em rela\u00e7\u00e3o ao tema que inicialmente nos levou a um cartel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> BASSOLS, Miquel. A porta do cartel. In: BROWN, N. (org.). Cartel, novas leituras. S\u00e3o Paulo, Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. 2021, p.49<em>.<\/em>\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LACAN, J. &#8220;Ato de Funda\u00e7\u00e3o&#8221;. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> MILLER, Jacques-Alain. El Banquete de los Analistas. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2000, p. 175<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, J. D\u2019Ecolage, in: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> MANDIL, Ram. O cartel repercute a l\u00f3gica da Escola. In: Revista Correio, n 95. Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2026.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> MILLER, Jacques-Alain. O cartel no centro de uma Escola de psican\u00e1lise. In: BROWN, N. (org.). Cartel, novas leituras. S\u00e3o Paulo, Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2021, p. 24<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> MILLER, Jacques-Alain, op. cit., p. 20-22-23.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Val\u00e9ria Beatriz Araujo\u00a0 \u201cAssim, de supet\u00e3o, qualquer rec\u00e9m-chegado pode fazer avan\u00e7ar a psican\u00e1lise? 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