{"id":5718,"date":"2026-06-24T18:32:12","date_gmt":"2026-06-24T21:32:12","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5718"},"modified":"2026-06-24T18:34:40","modified_gmt":"2026-06-24T21:34:40","slug":"empenhar-a-propria-pele","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/empenhar-a-propria-pele\/","title":{"rendered":"Empenhar a pr\u00f3pria pele"},"content":{"rendered":"<h5>Paula Nathalie Nocquet<\/h5>\n<p>Queria compartilhar hoje algumas considera\u00e7\u00f5es em torno do saber na experi\u00eancia do cartel. E primeiramente ressoa j\u00e1 h\u00e1 algum tempo para mim uma frase de Jacques Lacan<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, ao dizer que: \u201co saber \u00e9 custoso ou gustoso, pelo que \u00e9 preciso, para t\u00ea-lo, empenhar a pr\u00f3pria pele\u201d. \u00a0O que quer dizer que o saber implica empenhar a pr\u00f3pria pele?<\/p>\n<p>Para continuar a tentar responder isso, me apoio num texto de Mauricio Tarrab, cujo t\u00edtulo \u00e9 bastante curioso: <em>No cartel se pode obter um camelo<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em>. Ali, retoma uma hist\u00f3ria do livro <em>O homem que calculava<\/em>, de Malba Tahan.<\/p>\n<p>Nessa hist\u00f3ria, tr\u00eas irm\u00e3os precisam repartir a heran\u00e7a do pai: 35 camelos. O testamento determinava que a metade corresponderia ao irm\u00e3o mais velho, um ter\u00e7o para o segundo irm\u00e3o e um nono para o mais novo. Mas havia um problema: as contas n\u00e3o fechavam. A metade de 35 \u00e9 17,5, um ter\u00e7o disso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um n\u00famero inteiro, e o terceiro irm\u00e3o teria que receber algo pr\u00f3ximo de quase 4 camelos. Evidentemente, n\u00e3o era poss\u00edvel cortar um camelo ao meio. Eles estavam presos a um c\u00e1lculo imposs\u00edvel. At\u00e9 que o homem que calculava prop\u00f5e uma solu\u00e7\u00e3o inesperada: acrescenta \u00e0 conta o \u00fanico camelo que ele e seu companheiro tinham, para que o total ficasse par. N\u00e3o foi f\u00e1cil de convencer o colega, j\u00e1 que era o \u00fanico camelo que tinham para seguir pelo deserto.<\/p>\n<p>Agora s\u00e3o 36 camelos. Como resultado, o mais velho recebe 18; o segundo irm\u00e3o recebe 12; o terceiro recebe 4. Todos recebem um pouco mais do que estava previsto! E depois da divis\u00e3o, ainda sobram dois camelos: um \u00e9 devolvido ao comerciante que o havia cedido anteriormente e o outro fica como um <em>ganho<\/em> para o homem que calculava de modo que, finalmente cada um pode seguir o caminho pelo deserto com um camelo.<\/p>\n<p>O que essa pequena hist\u00f3ria ensina? Que, \u00e0s vezes \u00e9 preciso colocar algo em jogo para que uma solu\u00e7\u00e3o possa aparecer, arriscar algo.<\/p>\n<p>No caso do companheiro, aquele era o \u00fanico camelo que eles dispunham para continuar a viagem, e ainda assim foi esse empenho que abriu a possibilidade de um ganho com um camelo que antes n\u00e3o tinham. Talvez seja isso que Lacan indica quando diz que o saber implica empenhar a pr\u00f3pria pele. Ou, dito de outro modo, que \u00e9 preciso ceder algo de si \u2014 uma esp\u00e9cie de libra de carne \u2014 para que algo de um saber in\u00e9dito possa surgir.<\/p>\n<p>Obter um camelo num cartel. N\u00e3o seria isso que est\u00e1 em jogo quando algu\u00e9m se prop\u00f5e a fazer parte de um cartel? Que do trabalho do cartel sobre algo possa surgir um pequeno achado, uma inven\u00e7\u00e3o que n\u00e3o estava prevista de antem\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso pode aparecer justamente quando algo do saber j\u00e1 constitu\u00eddo falha, quando trope\u00e7amos num ponto. Escrever n\u00e3o \u00e9 simplesmente relatar o que j\u00e1 se sabe, Miller<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> assinala que um escrito com automatismo, podemos dizer que caminha sozinho, mas um escrito que n\u00e3o \u00e9 com automatismo, trope\u00e7a.<\/p>\n<p>Talvez seja justamente isso que acontece num cartel. Trope\u00e7amos. Trope\u00e7amos com um ponto de n\u00e3o-saber, algo que nos surpreende, que aparece como um encontro contingente, que nos tira do autom\u00e1tico e nos provoca. \u00c9 nesse ponto que surge uma pergunta, aquilo que chamamos de quest\u00e3o de cartel. Uma pergunta que fura o saber que j\u00e1 temos e que nos causa a trabalhar.<\/p>\n<p>Escrever, muitas vezes, come\u00e7a justamente por um trope\u00e7o. N\u00e3o se trata de chegar a um saber completo, trata-se, talvez, de produzir um pequeno achado, algo que represente uma novidade para aquele sujeito. Claro que contamos com o saber pr\u00e9vio: as refer\u00eancias, as cita\u00e7\u00f5es, os textos que de certa forma orientam. Mas se ficamos apenas nisso, \u00e9 um saber que se sustenta no id\u00eantico, um saber que, como disse Miller, anda sozinho. Talvez o cartel funcione justamente como um dispositivo para interromper esse automatismo,<\/p>\n<p>Talvez o cartel funcione justamente como um dispositivo para interromper esse automatismo. E \u00e9 por isso que toca a forma\u00e7\u00e3o do analista, considerando que n\u00e3o se trata simplesmente de uma aquisi\u00e7\u00e3o de saberes, mas tamb\u00e9m da possibilidade de uma elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, \u201cuma transforma\u00e7\u00e3o no ser do sujeito\u201d.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>O saber que a psican\u00e1lise produz n\u00e3o est\u00e1 pronto, como diz Tarrab. H\u00e1 um ponto em que ele n\u00e3o se descobre, ele se inventa. E essa inven\u00e7\u00e3o tem lugar numa experi\u00eancia. Uma experi\u00eancia que se faz entre a elabora\u00e7\u00e3o coletiva e a enuncia\u00e7\u00e3o singular de cada um.<\/p>\n<p>Talvez possamos dizer ent\u00e3o que, em um cartel, tamb\u00e9m se aposta a isso: colocar algo pr\u00f3prio em jogo, arriscar a uma pergunta pr\u00f3pria, permitir-se trope\u00e7ar com o n\u00e3o saber. Ceder algo de si para que algo novo possa aparecer \u2014 ao empenhar um pouco da pr\u00f3pria pele \u2014 que seja poss\u00edvel extrair dessa experi\u00eancia algo que antes n\u00e3o estava ali previsto. Quem sabe\u2026at\u00e9 um camelo.<\/p>\n<p>Que isto sirva tamb\u00e9m de convite para quem estiver procurando um cartel: permitir-se trope\u00e7ar, e colocar algo pr\u00f3prio em jogo para ver o que pode surgir da\u00ed.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio livro 20: mais, ainda<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., p.130<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Tarrab, M. <em>En el cartel se puede obtener un camello<\/em>. Cuatrom\u00e1suno, EOL.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Miller, J-A. <em>El ultimissimo Lacan<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2014, p.23<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Miller, J-A. \u201cDe la formaci\u00f3n a la transformaci\u00f3n\u201d. Em: <em>C\u00f3mo terminan los an\u00e1lisis<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2023, p.355.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paula Nathalie Nocquet Queria compartilhar hoje algumas considera\u00e7\u00f5es em torno do saber na experi\u00eancia do cartel. E primeiramente ressoa j\u00e1 h\u00e1 algum tempo para mim uma frase de Jacques Lacan[1], ao dizer que: \u201co saber \u00e9 custoso ou gustoso, pelo que \u00e9 preciso, para t\u00ea-lo, empenhar a pr\u00f3pria pele\u201d. \u00a0O que quer dizer que o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-5718","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-procura-se-cartel","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5718","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5718"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5718\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5719,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5718\/revisions\/5719"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5718"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5718"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5718"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5718"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}