{"id":5696,"date":"2026-04-07T07:34:06","date_gmt":"2026-04-07T10:34:06","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5696"},"modified":"2026-04-07T14:54:31","modified_gmt":"2026-04-07T17:54:31","slug":"shame-evaporacao-da-vergonha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/shame-evaporacao-da-vergonha\/","title":{"rendered":"<em>SHAME<\/em> \u2013 EVAPORA\u00c7\u00c3O DA VERGONHA?"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"font-size: 13px;\">Niraldo de Oliveira Santos ( Membro da EBP e da AMP)<\/span><\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-5682\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/modos_de_usar_008_002-217x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"553\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/modos_de_usar_008_002-217x300.jpeg 217w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/modos_de_usar_008_002-740x1024.jpeg 740w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/modos_de_usar_008_002-768x1062.jpeg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/modos_de_usar_008_002-1110x1536.jpeg 1110w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/modos_de_usar_008_002.jpeg 1156w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p><strong>O filme<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><em>Shame<\/em> (vergonha) \u00e9 um filme brit\u00e2nico do g\u00eanero drama, lan\u00e7ado em 2012, coescrito e dirigido por Steve McQueen, com Michael Fassbender (Brandon) e Carey Mulligan (Sissy)<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. Brandon \u00e9 um publicit\u00e1rio na faixa dos trinta anos, bem-sucedido profissionalmente, solteir\u00e3o, solit\u00e1rio, bonito, que vive e trabalha em Nova York. Distante de sua irm\u00e3 e aparentemente sem amigos pr\u00f3ximos, Brandon secretamente busca compulsivamente o sexual: seja pelo consumo de pornografia no computador \u2013 pessoal e do trabalho; seja contratando prostitutas ou em encontros pontuais em bares visando o sexo, at\u00e9 terminar por entrar em um <em>dark room<\/em> de um clube gay. Sua irm\u00e3, Sissy, ap\u00f3s muitas tentativas para contact\u00e1-lo via mensagens na caixa postal de seu telefone, aparece de repente em seu apartamento e l\u00e1 se hospeda por alguns dias, o que acaba por perturbar seu ritual compulsivo em rela\u00e7\u00e3o ao sexo, instalando intenso mal-estar e, provavelmente, um dos fatores que o estimula a buscar uma rela\u00e7\u00e3o sentimental com uma colega de trabalho, Marianne (Nicole Beharie). A tentativa fracassa devido a sua total inabilidade em juntar o la\u00e7o social\/afetivo com o sexo.<\/p>\n<p><em>Shame<\/em> \u00e9 um filme que nos interessa por uma certa mostra\u00e7\u00e3o do gozo, que em seus 101 minutos exp\u00f5e poucos di\u00e1logos importantes \u2013 quase poder\u00edamos dizer que se trata de discursos sem palavras. Considero que <em>Shame<\/em> pode ser discutido n\u00e3o s\u00f3 na perspectiva do protagonista, Brandon, mas tamb\u00e9m na de sua irm\u00e3, Sissy. S\u00e3o duas hist\u00f3rias intensas, que explicitam aquilo que Christiane Alberti nomeou, muito apropriadamente, de um \u201cdesencantamento, essa morosidade (que) s\u00e3o as paix\u00f5es tristes de hoje, mas sem a paix\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Brandon n\u00e3o entende por que as pessoas querem se casar e n\u00e3o v\u00ea raz\u00e3o nos relacionamentos: \u201cuma pessoa para o resto da vida?!\u201d, fala espantado. O maior tempo de relacionamento que j\u00e1 testou foi de 4 meses. Experiencia algo da ordem de um excesso que o incita compulsivamente \u00e0 pornografia, \u00e0 masturba\u00e7\u00e3o e aos encontros sexuais fortuitos. Do lado de Sissy, dona de uma beleza e de uma voz singulares, surge uma energia e vivacidade paradoxais, pois seu corpo porta marcas de passagens ao ato\/tentativas de suic\u00eddio em momentos anteriores. Sissy mostra-se uma apaixonada contumaz, demandante de amor e de presen\u00e7a \u2013 tanto para com os homens quanto para com o irm\u00e3o, mas que fracassa em suas investidas amorosas \u2013 talvez por uma esp\u00e9cie de curto-circuito, uma precipita\u00e7\u00e3o ao la\u00e7o amoroso \u2013 um certo se jogar que a leva \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o e \u00e0s passagens ao ato suicidas.<\/p>\n<p>A partir destes pontos destacados, podemos perceber que o filme apresenta matizes, grada\u00e7\u00f5es do que se passa com o gozo em nossa \u00e9poca, favorecendo, como \u00e9 o papel da arte, uma interlocu\u00e7\u00e3o com a cl\u00ednica e a teoria psicanal\u00edticas. Dentre os temas pass\u00edveis de discuss\u00e3o, e que conversam com os temas de trabalho da EBP Se\u00e7\u00e3o Sul e tamb\u00e9m aqueles da EBP e da AMP: \u201cCad\u00ea o gozo?\u201d que, transbordante no filme, abre aqui para as perguntas \u201cCad\u00ea o la\u00e7o social?\u201d e \u201cCad\u00ea o amor?\u201d. O filme tamb\u00e9m nos confronta com a total aus\u00eancia de uma programa\u00e7\u00e3o determinada, j\u00e1 escrita, entre os seres falantes, em torno do que fazer com o sexo e com os encontros amorosos. A n\u00e3o exist\u00eancia da propor\u00e7\u00e3o entre os sexos, a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual est\u00e1 a\u00ed estampada. E \u00e9 por isso que <em>Shame <\/em>nos interessa.<\/p>\n<p>Proponho que fa\u00e7amos um exerc\u00edcio de discutir, de nomear o excesso apresentado nas personagens, principalmente em Brandon, bem como a quest\u00e3o da vergonha, na perspectiva lacaniana do gozo e com as contribui\u00e7\u00f5es de Jacques-Alain Miller para a Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana.<\/p>\n<p><strong>Isolamento<\/strong><\/p>\n<p>Para iniciar, podemos nos perguntar: Por que Steve McQueen nomeia o filme de <em>Shame<\/em>? Onde entra a vergonha no filme? Teria a vergonha evaporado?<\/p>\n<p>Proponho destacar quatro cenas do filme antes de retomarmos a quest\u00e3o da vergonha: <strong>Cena 1<\/strong>: no trabalho, o monitor do computador de Brandon foi levado pelo departamento de inform\u00e1tica; na sequ\u00eancia, o chefe dele diz que o computador estava \u201csujo\u201d, continha todo tipo de material pornogr\u00e1fico. <strong>Cena 2<\/strong>: Sissy abre a porta do banheiro e flagra seu irm\u00e3o se masturbando; Brandon tem uma crise com explos\u00e3o e agressividade. Ela diz: \u201ceu te deixo bravo o tempo inteiro e n\u00e3o sei por qu\u00ea\u201d. Ele diz que ela \u00e9 um fardo, um peso. <strong>Cena 3: <\/strong>ao levar a colega de trabalho para a cama, iniciam contatos er\u00f3ticos e ele n\u00e3o tem ere\u00e7\u00e3o. Paralisado, pede que ela v\u00e1 embora. <strong>Cena 4<\/strong>: Sissy espera avidamente pela liga\u00e7\u00e3o do chefe de Brandon, David, com quem ela tinha tido um \u00fanico encontro sexual, e Brandon conta para ela que David n\u00e3o iria procur\u00e1-la porque ele \u00e9 casado, com filhos etc. Frustrando violentamente as expectativas de Sissy. Podemos nos perguntar, nestas 4 cenas, sobre a presen\u00e7a da vergonha e do lado de quem ela estaria.<\/p>\n<p>Ao compararmos a trajet\u00f3ria da palavra \u201cshame\u201d (no ingl\u00eas e germ\u00e2nico) com a palavra vinda do latim \u201cverecundia\u201d, temos que <em>shame<\/em> nasce de um movimento de oculta\u00e7\u00e3o diante da comunidade; e no latim (e rom\u00e2nicas), a <em>vergonha<\/em> nasce de um freio interior, um \u201crespeito temeroso\u201d que organiza a conduta.<\/p>\n<p>Com esta retomada na etimologia das palavras \u201cshame\u201d e \u201cvergonha\u201d, fico me perguntando se \u201cshame\u201d que nomeia o filme aponta mais fortemente para o isolamento e para a retirada do la\u00e7o social do que o \u201cfreio interior, respeito temeroso que organiza a conduta\u201d, como parece ser a indica\u00e7\u00e3o etimol\u00f3gica latina para a palavra vergonha. De qualquer modo, o mais importante para nossa conversa aqui diz respeito, a meu ver, \u00e9 tentarmos localizar a articula\u00e7\u00e3o entre a vergonha e o Outro. Vejamos.<\/p>\n<p><strong>A vergonha em psican\u00e1lise<\/strong><\/p>\n<p>Jacques-Alain Miller, no texto \u201cNota sobre a vergonha\u201d, retoma dois momentos do ensino de Lacan, aquele do Semin\u00e1rio 7: A \u00e9tica da psican\u00e1lise, e o do Semin\u00e1rio 17: o avesso da psican\u00e1lise. \u00c9 bem conhecido o trecho de Lacan na \u00faltima li\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio 17 \u201cMorrer de vergonha, cabe dizer, \u00e9 um efeito raramente obtido\u201d.<\/p>\n<p>Miller retoma um coment\u00e1rio de \u00c9ric Laurent que questiona se cabe ao psicanalista exagerar nessa vergonha, e se, ao faz\u00ea-lo, ele n\u00e3o se poria no lugar de um moralista. O que fez com que, diz Miller, Laurent introduzisse o tema da culpa: \u201cA vergonha \u00e9 um afeto eminentemente psicanal\u00edtico que faz parte da s\u00e9rie da culpa\u201d. Seguindo esta via, Miller comenta sobre uma disjun\u00e7\u00e3o entre a vergonha e a culpa pois, segundo ele, os dois termos se aproximam e se separam. De qualquer modo, \u00e9 muito interessante observar que os dois termos s\u00e3o discutidos por Lacan (e retomados por Miller) articulados ao discurso anal\u00edtico em sua rela\u00e7\u00e3o com o contexto da civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, ou seja, em suas rela\u00e7\u00f5es com o sujeito e o gozo, inserindo a\u00ed um outro fator, que \u00e9 o capitalismo.<\/p>\n<p>Em um primeiro momento, aquele do Semin\u00e1rio 7, diz Miller, o capitalismo estava ordenado com um certo puritanismo, sendo o sujeito capitalista aquele que reprimia algo do gozo privilegiando a acumula\u00e7\u00e3o. \u201cAcumular em vez de gozar\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. J\u00e1 na segunda retomada do tema do mal-estar da civiliza\u00e7\u00e3o tal como discutido no Semin\u00e1rio 17, constata-se a preval\u00eancia da permissividade \u201ce o que eventualmente causa dificuldade seria: \u00e9 proibido proibir\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, o que culmina no dito do \u00faltimo cap\u00edtulo, \u201cn\u00e3o h\u00e1 mais vergonha\u201d. E Miller questiona, ent\u00e3o, o que acontece com a psican\u00e1lise quando a civiliza\u00e7\u00e3o tende a dissolver a vergonha.<\/p>\n<p>A vergonha, diz Miller, \u00e9 um afeto prim\u00e1rio da rela\u00e7\u00e3o com o Outro. Aqui h\u00e1 uma diferen\u00e7a sutil e importante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 culpa. Na culpa, temos o efeito de um Outro que julga; a vergonha tem rela\u00e7\u00e3o com um Outro anterior ao Outro que julga; tem rela\u00e7\u00e3o com um Outro primordial que v\u00ea ou d\u00e1 a ver. Miller tamb\u00e9m nos fala que a culpa est\u00e1 para o desejo, assim como a vergonha est\u00e1 para o gozo; e tamb\u00e9m cita o Semin\u00e1rio, livro 11, \u201cOs quatro conceitos cruciais da psican\u00e1lise\u201d, em que Lacan retoma o texto de Sartre, \u201cO ser e o nada\u201d (ser visto olhando no buraco da fechadura \/ ser um nada, o <em>fading<\/em> do sujeito) para articular o <strong>olhar<\/strong> e a vergonha.<\/p>\n<p>A respeito mesmo do olhar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vergonha, Miller recupera mais uma vez os coment\u00e1rios de \u00c9ric Laurent, onde este \u00faltimo sublinha a interven\u00e7\u00e3o de Lacan no \u00faltimo cap\u00edtulo do Semin\u00e1rio 17, quando Lacan se dirigia aos estudantes de Vincennes (\u00a0<em> c\u00e8nes<\/em>), representando o sublime, o ardor da contesta\u00e7\u00e3o da \u00e9poca: \u201cOlhem eles gozarem\u201d. Esses \u201colhem eles gozarem\u201d, convoca o olhar que, outrora, era eminentemente a inst\u00e2ncia suscet\u00edvel de provocar vergonha. E Miller acrescenta: \u201cO olhar solicitado hoje, ao se fazer espet\u00e1culo da realidade (&#8230;) \u00e9 um olhar castrado de sua pot\u00eancia de provocar vergonha\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. O espet\u00e1culo televisual, o espet\u00e1culo promovido pelas telas do mundo contempor\u00e2neo faz com que Miller nos diga que \u201ca vergonha est\u00e1 morta\u201d. Em tempo de \u201cSociedade do espet\u00e1culo\u201d (Guy Debord), nosso olhar, longe de provocar vergonha, n\u00e3o passa de um olhar que goza tamb\u00e9m. \u00c9, segundo Miller, um \u201colhem eles gozarem para gozarem disso\u201d. Somos n\u00f3s como sujeito que olhamos, e n\u00e3o o Outro. Esse nosso momento, conta-nos Miller, repercute que o Outro n\u00e3o existe, \u00e9 a \u201cmorte do olhar de Deus\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>H\u00e1 outra conex\u00e3o important\u00edssima feita por Miller entre a vergonha e a <strong>honra<\/strong>. Para ele, a partir do exemplo de outro filme, \u201cVatel\u201d, que acaba por se matar de vergonha, Miller nos diz que \u201co desaparecimento da vergonha instaura o <em>primum vivere<\/em> como valor supremo, a vida ignominiosa, a vida ign\u00f3bil, a vida sem honra\u201d e continua dizendo que \u201co desaparecimento da vergonha quer dizer que o sujeito cessa de ser representado por um significante que valha\u201d. \u201cQuando chegamos ao ponto em que todo mundo rasga seu cart\u00e3o de visita, ao ponto no qual n\u00e3o h\u00e1 mais vergonha, isso p\u00f5e em quest\u00e3o a \u00e9tica da psican\u00e1lise\u201d. \u00c9 isso que Miller destaca no trabalho de Lacan em torno do Semin\u00e1rio 7, a \u00e9tica da psican\u00e1lise, a partir do exemplo de Ant\u00edgona, que veio para mostrar que a opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica sup\u00f5e um mais al\u00e9m do <em>primum vivere<\/em>. Ela sup\u00f5e que o homem, como Lacan se expressava ent\u00e3o, tenha uma rela\u00e7\u00e3o com uma <strong>segunda morte<\/strong>\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. A honra para a psican\u00e1lise decorre do la\u00e7o mantido do sujeito com o significante-mestre, seu cart\u00e3o de visita. Quando Lacan modifica o discurso do mestre para fazer dele o discurso do capitalista, ele apresenta um discurso em que o sujeito n\u00e3o tem mais um significante mestre como referente.<\/p>\n<p>Miller nos diz, ent\u00e3o, que ao final do Semin\u00e1rio 17, Lacan aponta para essa transforma\u00e7\u00e3o da singularidade do S<sub>1<\/sub> em unidades de valor, apagando a singularidade de S<sub>1<\/sub>. Nesta perspectiva, \u201cprovocar vergonha \u00e9 um esfor\u00e7o para restituir o significante-mestre\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Trata-se, ainda de acordo com Jacques-Alain Miller, de um sistema que produz a impud\u00eancia, n\u00e3o a vergonha, ou seja, um sistema que anula a fun\u00e7\u00e3o da vergonha. Nele, s\u00f3 o apreendemos sob as esp\u00e9cies de inseguran\u00e7a, uma inseguran\u00e7a que imputamos ao sujeito que n\u00e3o cai sob a depend\u00eancia de um significante-mestre: \u201cIsso faz com que o momento dessa civiliza\u00e7\u00e3o seja trabalhado pelo retorno autorit\u00e1rio e artificial do significante-mestre, para que cada um trabalhe em seu lugar, caso contr\u00e1rio, se \u00e9 preso\u201d.<\/p>\n<p>Para Miller, o debate fundamental de Lacan (tanto no semin\u00e1rio 7 quanto no 17) sempre foi um debate com a civiliza\u00e7\u00e3o, \u201cuma vez que ela abole a vergonha, um debate com o que est\u00e1 em curso de globaliza\u00e7\u00e3o, com a americaniza\u00e7\u00e3o ou com o utilitarismo. (&#8230;) O que se tenta preservar na sess\u00e3o anal\u00edtica \u00e9 um espa\u00e7o no qual o significante guarde sua dignidade\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>E, o que \u00e9 muito importante mencionar, a tese proposta por Miller neste texto \u00e9 a de uma diferen\u00e7a significativa entre hoje e a \u00e9poca de <em>O avesso da psican\u00e1lise<\/em>: \u201cEstamos no ponto em que o discurso dominante determina que n\u00e3o se tenha mais vergonha de seu gozo. Do resto, sim. De seu desejo, mas n\u00e3o de seu gozo\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>De posse desses t\u00f3picos acerca da vergonha e de sua rela\u00e7\u00e3o com a inexist\u00eancia do Outro em tempos de preval\u00eancia do discurso capitalista, voltemos a outro ponto que destaco a partir do filme \u2013 o gozo ali presente.<\/p>\n<p><strong>Inexist\u00eancia do Outro e a cl\u00ednica contempor\u00e2nea<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Se partimos do fato de que o capitalismo apela ao consumo, apresentando os objetos como dispon\u00edveis na prateleira para todos que possam pagar por ele, poder\u00edamos nos perguntar por que alguns sujeitos estariam mais propensos a se engolfarem no consumo, eclipsando a vertente do la\u00e7o social e do amor.<\/p>\n<p>J\u00e9sus Santiago, no texto \u201cO empuxo-\u00e0s-adic\u00e7\u00f5es e a itera\u00e7\u00e3o do <em>Um <\/em>de gozo\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> mostra-nos que \u201co fen\u00f4meno toxicoman\u00edaco t\u00edpico do s\u00e9culo passado, em que se destacava a depend\u00eancia de certas drogas, n\u00e3o apenas se transforma: massifica-se e d\u00e1 lugar a condutas aditivas diversas sob o modo de objetos de consumo \u2013 como amor, pornografia, smartphones, internet, videogames, fast-food e outros (&#8230;). N\u00e3o se trata mais do apego a um objeto proibido e ilegal, mas da prolifera\u00e7\u00e3o da for\u00e7a compulsiva das adi\u00e7\u00f5es (&#8230;), suscet\u00edveis de se apoderar de todo e qualquer objeto\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>. Al\u00e9m disso, conta-nos J\u00e9sus, trata-se de \u201cuma vontade de gozo irrefre\u00e1vel\u201d que paradoxalmente produz sempre insatisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e9sus retoma Miller em \u201cPerspectivas dos <em>Escritos<\/em> e <em>Outros Escritos<\/em>\u201d para discutir as diferen\u00e7as entre <em>gozo-excesso<\/em>, de um lado, e <em>gozo-satisfa\u00e7\u00e3o<\/em>, de outro. \u201cSe o prazer traduz um estado de homeostase, o <em>gozo-excesso<\/em> se caracteriza pela irrup\u00e7\u00e3o e transbordamento desse equil\u00edbrio, gerando um desequil\u00edbrio que se manifesta no sujeito de modo penoso e dispendioso. (&#8230;) Nesse caso, o gozo conflui para o sofrimento e o sublime se converte no horr\u00edvel. O <em>gozo-satisfa\u00e7\u00e3o<\/em> \u00e9 aquele que instaura uma \u2018homeostase superior\u2019, pois seu funcionamento inclui o excesso sintomatizando-o, uma vez que se mostra perme\u00e1vel aos poderes da fala\u201d. O <em>gozo-excesso<\/em> aponta, ent\u00e3o, segundo J\u00e9sus, para a cl\u00ednica dos novos sintomas que emergem \u00e0s expensas de ideais, de figuras paternas e de toda forma de autoridade do mestre moderno, com as marcas do discurso capitalista que, como bem nos mostrou Lacan, foraclui as coisas do amor e do desejo. Ao assumir a roupagem das adic\u00e7\u00f5es, a toxicomania torna-se o sintoma emblem\u00e1tico dessa forclus\u00e3o generalizada da castra\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que J\u00e9sus nos mostra que essa esp\u00e9cie de adic\u00e7\u00e3o ampla \u00e9 exemplar do chamado <em>novo sintoma<\/em> que se tece no horizonte autista e mort\u00edfero do gozo.<\/p>\n<p>Outra importante caracter\u00edstica que J\u00e9sus nos apresenta \u00e9 que nesses casos observamos o sintoma n\u00e3o como forma\u00e7\u00e3o de compromisso, mas como o que ele chama de <em>forma\u00e7\u00e3o de ruptura<\/em>, eles \u201cse constituem como a fonte das forma\u00e7\u00f5es de ruptura com o registro f\u00e1lico\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Ao retomar a express\u00e3o de Lacan apresentada em \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose\u201d, quando Lacan aponta para as consequ\u00eancias da aus\u00eancia do registro f\u00e1lico, a \u201cdesordem provocada na jun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima do sentimento de vida do sujeito\u201d, J\u00e9sus nos mostra que o empuxo \u00e0s adic\u00e7\u00f5es revela-se como uma tentativa de solu\u00e7\u00e3o para essa desordem, que tem a psicose ordin\u00e1ria como seu paradigma. Al\u00e9m disso, J\u00e9sus tamb\u00e9m nos mostra que \u201co apego de certos sujeitos a essas pr\u00e1ticas adictivas para lidar com o mal-estar (&#8230;) correspondem \u00e0 vontade de separa\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o ao desequil\u00edbrio pr\u00f3prio do <em>gozo-excesso<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a>, uma tentativa de solu\u00e7\u00e3o\/supl\u00eancia.<\/p>\n<p>No rec\u00e9m lan\u00e7ado livro \u201cBleuler, Freud, Lacan e Miller\u201d, R\u00f4mulo Ferreira da Silva, Maria do Carmo Dias Batista e Camila Col\u00e1s retomam o conceito de psicose ordin\u00e1ria e as tr\u00eas externalidades apresentadas por Miller no texto \u201cEfeito de retorno sobre a psicose ordin\u00e1ria\u201d: externalidade social, externalidade corporal, e externalidade subjetiva. Miller faz alus\u00e3o a uma quarta externalidade com a frase: \u201cBusquem uma desordem na uni\u00e3o mais \u00edntima do ato sexual, pois quase sempre existe\u201d.\u00a0 E os autores acrescentam esta quarta externalidade, a sexual. Destaco aqui um trecho do livro: \u201cPodemos nos perguntar como o <em>falasser<\/em> se vira com o Outro que n\u00e3o existe, seja ele localizado no corpo, no social, no pensamento ou na sexualidade? H\u00e1 sempre uma estranheza na busca dessa conex\u00e3o. No entanto, para alguns, essa conex\u00e3o se ordena, se ancora em uma estabilidade vari\u00e1vel, mesmo que n\u00e3o encontre justa medida. Para outros, \u00e9 poss\u00edvel detectar uma desordem, algo que se apresenta fora da ordem, fora de encaixe, sem condi\u00e7\u00e3o de conectar, ligar, articular. A fissura que se revela diz respeito ao \u201cconflito entre o eu e o mundo exterior\u201d e n\u00e3o ao conflito do \u201ceu com o isso\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Para terminar, gostaria de lan\u00e7ar a hip\u00f3tese de que, em <em>Shame<\/em>, tanto Brandon quanto sua irm\u00e3 Sissy sofrem, cada um a seu modo, de um excesso de gozo que n\u00e3o encontra contorno, que insiste em sua face mort\u00edfera, levando \u00e0 desagrega\u00e7\u00e3o e passagens ao ato. Do lado dele, o sexo, a pornografia e a masturba\u00e7\u00e3o compulsivas seriam tentativas de operar uma redu\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia\/excesso? Como isso poderia se dar sem um encontro com um analista?<\/p>\n<p>Do lado de Sissy, a hip\u00f3tese \u00e9 a de que \u00e9 a busca intensa pelo amor do Outro e as frustra\u00e7\u00f5es que a ejetam da cena, fazendo-a recair no lugar de objeto dejeto, esvaindo-se em sangue a cada confronto com a queda do Outro idealizado na via amorosa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a partir das 4 cenas citadas ao in\u00edcio, e depois da retomada te\u00f3rica acerca da evapora\u00e7\u00e3o da vergonha e dos modos de gozo na \u00e9poca do Outro que n\u00e3o existe, podemos destacar os seguintes pontos para nossa discuss\u00e3o: 1) O que predomina no filme n\u00e3o \u00e9 o Outro que v\u00ea e acusa o gozo, provocando vergonha. Trata-se, a meu ver, de uma intrus\u00e3o de um outro que causa perturba\u00e7\u00e3o nos modos de gozo. 2) H\u00e1 a intrus\u00e3o de um outro na programa\u00e7\u00e3o de gozo tanto na vida de Brandon quando na de Sissy \u2013 um acaba por perturbar a defesa do outro, mas os efeitos \u2013 at\u00e9 onde o filme mostra \u2013 foram as passagens ao ato dos dois lados. Ele, se fazendo agredir; ela, com a tentativa de suic\u00eddio. Ou seja, perturbar o programa de gozo fora de um dispositivo de tratamento calcado na transfer\u00eancia leva ao pior. 3) Ao final do filme algo se monta para um novo giro entre Brandon e uma mulher (a ruiva que ele conhece no metr\u00f4) &#8230; poder\u00edamos apostar que algo ali se abriria para o novo? Ou predominaria o gozo-excesso?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Texto apresentado na atividade da Diretoria de Biblioteca da EBP-Se\u00e7\u00e3o Sul, no dia 17\/09\/2025.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Alberti, C. \u201cCorpos aprisionados pelo discurso\u201d. Correio: Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, n. 94, abril de 2025, p. 22.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Miller, J-A. \u201cNota sobre a vergonha\u201d. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise. Nr 38, novembro de 2003, p. 9.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Miller, J-A. Idem, p. 9.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Miller, J-A. Idem, p. 11.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Miller, J-A. Idem, p. 11.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Miller, J-A. Idem, p. 13.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Miller, J-A. Idem, p. 16.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Miller, J-A. Idem, p. 18.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> Miller, J-A. Idem, p. 18.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> Santiago, J. O empuxo-\u00e0s-adic\u00e7\u00f5es e a itera\u00e7\u00e3o do <em>um<\/em> de gozo\u201d. In: O campo uniano. O \u00faltimo ensino de Lacan e suas consequ\u00eancias. Horne, B. &amp; Gurgel, I. (Org). Goi\u00e2nia: Editora Ares, 2022.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> Santiago, J. Idem, p. 294.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> Santiago, J. Idem, p. 298.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><sup>[14]<\/sup><\/a> Santiago, J. Idem, p. 308.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\"><sup>[15]<\/sup><\/a> Da Silva, R.F.; Batista, M.C.D.; Col\u00e1s, C. \u201cBleuler, Freud, Lacan e Miller\u201d. Belo Horizonte: Scriptum, 2025, p. 187.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Niraldo de Oliveira Santos ( Membro da EBP e da AMP) O filme \u00a0Shame (vergonha) \u00e9 um filme brit\u00e2nico do g\u00eanero drama, lan\u00e7ado em 2012, coescrito e dirigido por Steve McQueen, com Michael Fassbender (Brandon) e Carey Mulligan (Sissy)[1]. Brandon \u00e9 um publicit\u00e1rio na faixa dos trinta anos, bem-sucedido profissionalmente, solteir\u00e3o, solit\u00e1rio, bonito, que vive&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-5696","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-modos-de-usar","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5696","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5696"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5696\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5712,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5696\/revisions\/5712"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5696"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5696"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5696"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5696"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}