{"id":5694,"date":"2026-04-07T07:32:11","date_gmt":"2026-04-07T10:32:11","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5694"},"modified":"2026-04-07T14:54:32","modified_gmt":"2026-04-07T17:54:32","slug":"a-evaporacao-do-pai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/a-evaporacao-do-pai\/","title":{"rendered":"A evapora\u00e7\u00e3o do pai"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em>Camila Popadiuk (Membro da EBP e da AMP)<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-5683\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/modos_de_usar_008_003.jpeg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"556\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/modos_de_usar_008_003.jpeg 1152w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/modos_de_usar_008_003-216x300.jpeg 216w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/modos_de_usar_008_003-737x1024.jpeg 737w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/modos_de_usar_008_003-768x1067.jpeg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/modos_de_usar_008_003-1106x1536.jpeg 1106w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p>\u201cIsso que n\u00e3o desaparece e continua produzindo efeitos\u201d \u00e9 uma maneira de expressar o que Lacan anunciou em 1968 como \u201ca cicatriz da evapora\u00e7\u00e3o do pai\u201d, algo que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, recebe o nome de segrega\u00e7\u00e3o.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Sabemos que o enfraquecimento da fun\u00e7\u00e3o paterna, caracter\u00edstica da sociedade contempor\u00e2nea, \u00e9 consequ\u00eancia do discurso da ci\u00eancia e de sua alian\u00e7a com o capital. Claramente, Miller indica em seu texto \u201cO pai tornado vapor\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> a rela\u00e7\u00e3o direta entre o decl\u00ednio do pai e a crescente for\u00e7a do capitalismo, ao afirmar que \u201co capitalismo superou o patriarcado, ou que, pelo menos, iniciou seu decl\u00ednio.\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Esse decl\u00ednio consiste na perda da efic\u00e1cia do pai como fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica organizadora do la\u00e7o social. A pot\u00eancia do pai, enquanto fun\u00e7\u00e3o, estruturava a sociedade em torno de uma lei, que, por sua vez, regulava o desejo e interditava o gozo. Hoje, no lugar dessa ancoragem simb\u00f3lica, observa-se, como afirma Miller, \u201cuma grande desordem no real,\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> na qual o objeto-mais-de-gozar \u00e9 o agente discursivo que determina as rela\u00e7\u00f5es dos sujeitos, impondo-lhes um imperativo de gozo.<\/p>\n<p>A decad\u00eancia do pai gera, portanto, uma organiza\u00e7\u00e3o social na qual o gozo prevalece como regulador dos modos de vida, e o surgimento de coletivos e novos agrupamentos sociais passa a se fundar sobre o registro da identifica\u00e7\u00e3o a um determinado modo de gozar. A reivindica\u00e7\u00e3o do direito ao gozo tamb\u00e9m se apresenta em primeiro plano nessas comunidades. Mas, como o gozo \u00e9 algo inassimil\u00e1vel, isso aumenta os processos de segrega\u00e7\u00e3o, na medida em que esse gozo \u00e9, primordialmente, rejeitado. Nesse sentido, o outro passa a encarnar esse gozo desconhecido e se torna um objeto rejeitado, pois ele n\u00e3o goza como eu.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Sabemos que, muitas vezes, s\u00e3o as mulheres que encarnam essa diferen\u00e7a radical pr\u00f3pria ao gozo, ou seja, essa alteridade estrangeira que habita todo ser falante. Elas acabam se tornando objetos de desmedidas hostilidades. Diversas s\u00e3o as express\u00f5es de \u00f3dio contra as mulheres, sendo o feminic\u00eddio sua maior manifesta\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse contexto que o movimento MeToo surge como uma maneira de combater a opress\u00e3o \u00e0s mulheres e tamb\u00e9m como um movimento de luta por seus direitos. As mulheres passaram a tomar a palavra publicamente para denunciar os abusos e viol\u00eancias sofridos, reivindicando justi\u00e7a e repara\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, o MeToo produziu uma importante transforma\u00e7\u00e3o na maneira como a fala e o corpo passaram a se articular nos espa\u00e7os p\u00fablicos. Como diz Miller, ele \u00e9 o \u201cverdadeiro algoritmo do neofeminismo contempor\u00e2neo \u2013 <em>mais uma, mais uma, mais uma<\/em>.\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Embora seja um discurso que fale em nome de todas as mulheres, Miller afirma que ele se inscreve na l\u00f3gica do <em>n\u00e3o-todo<\/em>, pois \u201ctrata-se de um <em>todo<\/em> em forma\u00e7\u00e3o, que se constitui por meio de uma adi\u00e7\u00e3o sequencial e indefinida de elementos.\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Seria ele, assim, uma das formas de manifesta\u00e7\u00e3o dessas \u201cbolhas efervescentes\u201d?<\/p>\n<p>Os efeitos desse vapor que permanecem no ar e recaem sobre a inst\u00e2ncia da m\u00e3e podem ser percebidos, por exemplo, na instaura\u00e7\u00e3o de \u201cum querer ser m\u00e3e generalizado,\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> ocasionado tanto pelos avan\u00e7os da tecnologia, que oferecem diversas pr\u00e1ticas de reprodu\u00e7\u00e3o, quanto pelas novas configura\u00e7\u00f5es familiares juridicamente constitu\u00eddas nos dias de hoje. Inclusive, isso faz com que o termo parentalidade se torne \u201cum significante-mestre de nossa civiliza\u00e7\u00e3o [&#8230;] um equivalente da palavra \u2018fam\u00edlia.\u2019\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Conforme afirma Christiane Alberti, h\u00e1 um aumento consider\u00e1vel de demandas por filhos endere\u00e7adas \u00e0 ci\u00eancia, \u201cimplicando uma maternidade em pe\u00e7as soltas [&#8230;] [assim], a cl\u00e1ssica atribui\u00e7\u00e3o ao pai da fun\u00e7\u00e3o da lei e \u00e0 m\u00e3e da fun\u00e7\u00e3o do cuidado est\u00e1 definitivamente abalada.\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> LACAN, J. Nota sobre o pai. <em>Op\u00e7\u00e3o lacaniana<\/em>, n. 71. S\u00e3o Paulo: Eolia, p. 7, 2015.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> MILLER, J.-A. O pai tornado vapor. <em>Op\u00e7\u00e3o lacaniana<\/em>, n. 88. S\u00e3o Paulo: Eolia, 2024.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> <em>Ibid<\/em>., p. 18.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> MILLER, J.-A. \u201cUm real para o s\u00e9culo XXI\u201d. <em>SCILICET: um real para o s\u00e9culo XXI<\/em>. Belo Horizonte: Scriptum, 2014. p.23.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> LAURENT, E. Racismo 2.0. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/2022\/08\/16\/o-racismo-2-0\/#:~:text=O%20racismo%202.0.%20por%20%C3%89ric%20Laurent.%20Os%20recentes\">O racismo 2.0 \u2013 II Jornada da EBP Se\u00e7\u00e3o Nordeste<\/a>. Acesso em: 25 set. 2024.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> MILLER, J.-A. O pai tornado vapor. <em>Op\u00e7\u00e3o lacaniana<\/em>, n. 88. S\u00e3o Paulo: Eolia, p. 20, 2024.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> <em>Ibid<\/em>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> ALBERTI, C. \u00catre m\u00e8re. Quelle question\u00a0! Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.causefreudienne.org\/archives-jecf\/etre-mere-quelle-quesion\/#:~:text=Quelles%20traces%20laissera-t-elle%20sur%20le%20lien%20m%C3%A8re-enfant%20?\">\u00catre m\u00e8re. Quelle question\u00a0! &#8211; Ecole de la Cause freudienne<\/a>. Acesso em: 26 set. 2024. (Tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> LAURENT, E. Racismo 2.0. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/jornadas\/2022\/2022\/08\/16\/o-racismo-2-0\/#:~:text=O%20racismo%202.0.%20por%20%C3%89ric%20Laurent.%20Os%20recentes\">O racismo 2.0 \u2013 II Jornada da EBP Se\u00e7\u00e3o Nordeste<\/a>. Acesso em: 27 set. 2024.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> ALBERTI, C. \u00catre m\u00e8re. Quelle question\u00a0! Dispon\u00edvel em\u00a0:\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.causefreudienne.org\/archives-jecf\/etre-mere-quelle-quesion\/#:~:text=Quelles%20traces%20laissera-t-elle%20sur%20le%20lien%20m%C3%A8re-enfant%20?\">\u00catre m\u00e8re. Quelle question\u00a0! &#8211; Ecole de la Cause freudienne<\/a>. Acesso em: 26 set. 2024. (Tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Camila Popadiuk (Membro da EBP e da AMP) &nbsp; \u201cIsso que n\u00e3o desaparece e continua produzindo efeitos\u201d \u00e9 uma maneira de expressar o que Lacan anunciou em 1968 como \u201ca cicatriz da evapora\u00e7\u00e3o do pai\u201d, algo que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, recebe o nome de segrega\u00e7\u00e3o.[1] Sabemos que o enfraquecimento da fun\u00e7\u00e3o paterna, caracter\u00edstica da sociedade&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-5694","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-modos-de-usar","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5694","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5694"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5694\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5711,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5694\/revisions\/5711"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5694"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5694"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5694"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5694"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}