{"id":5633,"date":"2025-10-17T15:51:24","date_gmt":"2025-10-17T18:51:24","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5633"},"modified":"2025-10-17T15:51:24","modified_gmt":"2025-10-17T18:51:24","slug":"uma-ancoragem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/uma-ancoragem\/","title":{"rendered":"Uma ancoragem"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em><strong>Luc\u00edola Mac\u00eado (EBP\/AMP)<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p>Convidada pelo Boletim P U L S <em>a<\/em> R a revisitar algo que havia escrito \u00e0 prop\u00f3sito das quest\u00f5es atinentes ao gozo, ao racismo e \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> a partir de uma passagem de Lacan em <em>Televis\u00e3o<\/em>, relan\u00e7o algumas quest\u00f5es que ainda me colocam \u00e0 trabalho, as desdobro um pouco mais, agregando-lhes outras.<\/p>\n<p>Ao ser interrogado de onde viria sua seguran\u00e7a em preconizar uma nova escalada do racismo justo naquele momento (em 1973) em que imperava uma atmosfera de otimismo diante da promessa de integra\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es por meio dos mercados comuns \u2013<\/p>\n<p>Lacan dir\u00e1: \u201cNo desatino do gozo \u2013 s\u00f3 h\u00e1 o Outro para situ\u00e1-lo \u2013 mas na medida em que estamos separados dele\u201d. O problema de deixar esse Outro entregue a seu modo de gozo n\u00e3o se resolve impondo-lhe \u201co nosso\u201d, tomando-o por \u201csubdesenvolvido\u201d. Somando-se a isso \u201ca precariedade de nosso modo, que agora s\u00f3 se situa a partir do mais-de-gozar\u201d <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, prossegue Lacan.<\/p>\n<p>A segrega\u00e7\u00e3o horizontal e \u201cramificada\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, na escala e magnitude que vemos hoje, seria uma deriva\u00e7\u00e3o da \u201csegrega\u00e7\u00e3o estrutural\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, aquela inerente \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o o sujeito e \u00e0 ordem simb\u00f3lica, ou responde a uma l\u00f3gica diferente, quando h\u00e1 somente o mais-de-gozar para situar o gozo? Quais as consequ\u00eancias desse estado de coisas, em larga escala para a civiliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Se a ordem simb\u00f3lica se funda ao deixar algo fora dela, a ser simbolizado no interior, como ausente \u2013 quais seriam as consequ\u00eancias da precariza\u00e7\u00e3o desta opera\u00e7\u00e3o? O que recolhemos na cl\u00ednica e na dire\u00e7\u00e3o do tratamento? Nas entradas em an\u00e1lise e nas an\u00e1lises que se interrompem? Haveria alguma incid\u00eancia verific\u00e1vel nos finais de an\u00e1lise?<\/p>\n<p>Na esteira do discurso capitalista e de sua \u201cmis\u00e9ria\u201d, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o os mercados comuns, mas as redes e o consumo desenfreado junto \u00e0s m\u00eddias sociais e sua avalanche de signos esvaziados de significa\u00e7\u00e3o, suas m\u00faltiplas conex\u00f5es pontuais e instant\u00e2neas, a principal forma de \u201csociabilidade\u201d, no lugar do la\u00e7o social. Fatores que juntam, conectam, e ao mesmo tempo isolam e segregam, n\u00e3o por um Outro, mas por si mesmos. Efeito paradoxal: a coletividade n\u00e3o pode mais ser pensada como o oposto da segrega\u00e7\u00e3o. A segrega\u00e7\u00e3o se ramifica, restando o vest\u00edgio e a cicatriz de uma \u201cevapora\u00e7\u00e3o do pai\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>O que acontece quando o pai se evapora? Ele vir\u00e1 g\u00e1s<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. E quais s\u00e3o as propriedades dos gases? Um g\u00e1s n\u00e3o \u00e9 s\u00f3lido, concreto, palp\u00e1vel, mas est\u00e1 por todos os lados, disseminado, onipresente. N\u00e3o enxergamos os gases, mas eles produzem efeitos. Eles podem ser poluentes. Um g\u00e1s \u00e9 algo que se respira. Como parece ser o que \u00e9 da segrega\u00e7\u00e3o praticada a partir do que se coletiviza do gozo como mais-de-gozar quando o pai se evapora, disseminando-se, sem contornos n\u00edtidos. Quando os contornos episodicamente se formam, j\u00e1 n\u00e3o se trata apenas de classe, ra\u00e7a, religi\u00e3o. Mas de bolhas. Das bolhas de certeza<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, mas tamb\u00e9m de cada um em sua bolha, e de bolhas imag\u00e9ticas em profus\u00e3o infinita: cada um com os seus espectros e suas paisagens-cen\u00e1rio feitas para abrigar as mir\u00edades de microimagens instant\u00e2neas de si. Onde est\u00e1 o imagin\u00e1rio, hoje? Divorciado do simb\u00f3lico? Em bodas infinitas com o real?<\/p>\n<p>Seriam as chamadas comunidades de gozo os produtos do discurso do capitalismo na chamada hipermodernidade e do hiperconsumo? Inv\u00f3lucros ou \u00e0s vezes slogans mais ou menos prec\u00e1rios do individualismo radical, da fragmenta\u00e7\u00e3o ao infinito das categorias, aliados \u00e0 percep\u00e7\u00e3o que cada um tem de si pr\u00f3prio como \u00fanico e senhor da sua m\u00e1xima individualidade? Nesse estado de coisas a segrega\u00e7\u00e3o ramificada e multiplicadora de barreiras seria consubstancial ao modo de sociabilidade das sociedades contempor\u00e2neas?<\/p>\n<p>Eis as perguntas e considera\u00e7\u00f5es que me ocorre partilhar!<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Cf. Mac\u00eado, L. \u201cO analista, o real e a \u00e9poca \u2013 Notas em progresso\u201d. Dispon\u00edvel em: https:\/\/encontrobrasileiroebp2022.com.br\/o-analista-o-real-e-a-epoca-notas-em-progresso-2\/.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lacan, J. Televis\u00e3o.<em> Outros Escritos,<\/em> Rio de Janeiro, JZE, p.533.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan, J. Nota sobre o Pai. In: <em>Op\u00e7\u00e3o lacaniana, <\/em>n.71, dez. 2015, p.7.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Bassols, M. O b\u00e1rbaro. Transtornos de linguagem e segrega\u00e7\u00e3o. In. <em>Op\u00e7\u00e3o lacaniana online nova s\u00e9rie, <\/em>2018, n. 25 e 26.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Lacan, J. Nota sobre o Pai, p.7.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Cf. Mac\u00eado,L. Retrato do pai enquanto vapor. <em>Correio, <\/em>n.94, abril 2025, p.41-49.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Miller, J.-A. Intui\u00e7\u00f5es milanesas II. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie<\/em>, n. 6, nov. 2011.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luc\u00edola Mac\u00eado (EBP\/AMP) Convidada pelo Boletim P U L S a R a revisitar algo que havia escrito \u00e0 prop\u00f3sito das quest\u00f5es atinentes ao gozo, ao racismo e \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o[1] a partir de uma passagem de Lacan em Televis\u00e3o, relan\u00e7o algumas quest\u00f5es que ainda me colocam \u00e0 trabalho, as desdobro um pouco mais, agregando-lhes outras.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-5633","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-vi-jornada","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5633","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5633"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5633\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5634,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5633\/revisions\/5634"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5633"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5633"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5633"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5633"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}