{"id":5630,"date":"2025-10-17T15:50:49","date_gmt":"2025-10-17T18:50:49","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5630"},"modified":"2025-10-17T15:50:49","modified_gmt":"2025-10-17T18:50:49","slug":"um-osso-em-torno-do-tempo-e-daquilo-que-ele-permite-localizar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/um-osso-em-torno-do-tempo-e-daquilo-que-ele-permite-localizar\/","title":{"rendered":"Um osso  &#8230;em torno do tempo e daquilo que ele permite localizar"},"content":{"rendered":"<p><em><strong><span style=\"font-size: 13px;\">Diego Cervelin (EBP\/AMP), Val\u00e9ria Beatriz Araujo, Fernanda Baptista e Priscila de S\u00e1 Santos<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p>O boletim P U L S <em>a<\/em> R chega a sua \u00faltima edi\u00e7\u00e3o contemplando um percurso cujo trajeto passa pelos tr\u00eas eixos de investiga\u00e7\u00e3o deste tema candente que nos acompanha nesta jornada: o gozo e a \u00e9poca, o gozo no in\u00edcio das an\u00e1lises e o gozo nas an\u00e1lises que duram. Percurso esse onde o gozo, suas vicissitudes, sua gram\u00e1tica, sua conting\u00eancia, seu poss\u00edvel e seu imposs\u00edvel t\u00eam sido trabalhados pelos respons\u00e1veis de cada eixo e pelos convidados, cujos escritos se decantaram em <em>ancoragens<\/em> e <em>ossos<\/em>, cada um com seu gr\u00e3o de (n\u00e3o) saber.<\/p>\n<p>A partir desta perspectiva, uma quest\u00e3o, entre v\u00e1rias, se apresenta como um divino detalhe: o tempo. O tempo, em uma experi\u00eancia de an\u00e1lise, n\u00e3o segue apenas em uma dire\u00e7\u00e3o. Ele tamb\u00e9m implica uma certa possibilidade de revisitar e, ao mesmo tempo, de ressignificar aquilo que, do passado ou mesmo do futuro imaginado, resta como fio solto. N\u00e3o que todos os sentidos se fechem numa an\u00e1lise. N\u00e3o se trata disso, mas muito mais de algo que se coloca entre constru\u00e7\u00e3o e arranjo, contando com um bom uso, um uso poss\u00edvel da conting\u00eancia. Assim, quando nos perguntamos \u201ccad\u00ea o gozo?\u201d, o tempo tamb\u00e9m se apresenta como um elemento de localiza\u00e7\u00e3o importante.<\/p>\n<p>Vimos algo disso, como uma entrelinha sutil, em cada um dos textos que passou por este boletim P U L S <em>a<\/em> R. H\u00e1 o tempo da pressa pela satisfa\u00e7\u00e3o \u2013 t\u00e3o emblem\u00e1tico em nossa \u00e9poca \u2013, h\u00e1 o tempo das entradas em an\u00e1lise e h\u00e1 o tempo das an\u00e1lises que duram. Muitas vezes, no sabor mais pr\u00f3prio do <em>apr\u00e8s-coup<\/em>, esses tempos se entrechocam e produzem tantos os lampejos de um saber novo quanto os estilha\u00e7os daquela satisfa\u00e7\u00e3o que permanecer\u00e1 apenas como sonho ou virtualidade espectral que esconde, no seu reverso, as declina\u00e7\u00f5es da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. Lacan, ao propor as sess\u00f5es de tempo vari\u00e1vel, n\u00e3o estava abrindo espa\u00e7o justamente para colhermos algo da l\u00f3gica do gozo de cada um, daquele gozo que se repete ou se embara\u00e7a na sucess\u00e3o e na revers\u00e3o dos acontecimentos que perfazem uma vida?<\/p>\n<p>Em <em>A er\u00f3tica do tempo<\/em>, Jacques-Alain Miller assinala que \u201co inconsciente resulta da temporalidade da experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> e vai al\u00e9m ao sustentar que o analista, como sujeito suposto saber, encarna na atualidade aquilo que remete ao passado do analisante, como inscri\u00e7\u00e3o passada da fala: \u201cO tempo do analisante \u00e9 regido pelo <em>ainda n\u00e3o<\/em>, por um <em>ainda n\u00e3o saber<\/em>, enquanto o tempo do analista, o tempo como analista, \u00e9 regido por um <em>j\u00e1 est\u00e1 a\u00ed<\/em>, pelo <em>saber j\u00e1 a\u00ed<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Seria, portanto, em fun\u00e7\u00e3o disso que as interven\u00e7\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es do analista poderiam estabelecer uma conex\u00e3o entre o inconsciente atemporal e o presente de cada um dos analisantes. Trata-se, contudo, de um modo de fazer uso do tempo que n\u00e3o se desfaz dos efeitos de surpresa \u2013 afinal, s\u00e3o eles que tamb\u00e9m permitem que algo ressoe, que um intervalo se interponha entre S<sub>1<\/sub> e S<sub>2<\/sub>, que um sentido pesado demais se suspenda e eventualmente se reabra, que uma nova leitura possa surgir com aux\u00edlio do vazio criado pelo sil\u00eancio do analista.<\/p>\n<p>Por outro lado, para que as surpresas n\u00e3o se diluam em palavr\u00f3rio, Miller tamb\u00e9m destaca que cabe ao analista n\u00e3o passar por cima do tempo que caracteriza as entrevistas preliminares, pois s\u00e3o elas que reinstauram um <em>automaton<\/em>, \u201cum aparelho que permite prever as respostas futuras [&#8230;] \u00e9 necess\u00e1rio que isso dure um certo tempo para que seja poss\u00edvel verificar a regularidade da resposta. \u00c9 a\u00ed que \u00e9 poss\u00edvel de fato se inscrever o imprevisto, imprevisto que de fato constitui acontecimento\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Desse modo, uma an\u00e1lise pode se constituir inclusive enquanto remanejamento das condi\u00e7\u00f5es que existiam antes, possibilitando uma nova aposta. Trabalhar com o tempo em suas dimens\u00f5es atemporal e infinita, trazendo para as sess\u00f5es \u201cum elemento suplementar, equivalente ao ponto no infinito\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, como escreve Miller, a\u00ed est\u00e1 o dia a dia do analista.<\/p>\n<p>Em seus desdobramentos l\u00f3gicos, instante de ver e tempo de compreender acompanham esse acontecimento que \u00e9 uma an\u00e1lise, mas tamb\u00e9m uma jornada de psican\u00e1lise, cujo momento de concluir se abrir\u00e1 para possibilidades de saber-fazer, para um outro modo de viver a puls\u00e3o, circunscrevendo arranjos poss\u00edveis para lidar com a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o entre saber e gozo. Saber fazer com o que muda e com o que n\u00e3o muda, com o gozo do qual se pode falar e com o gozo do qual n\u00e3o se fala, opaco ao sentido, e que se apresenta a partir de um acontecimento de corpo, que chamamos o choque de lal\u00edngua no corpo. Uma aposta que visa manter pulsante o desejo de saber, o qual \u00e9 um farol na forma\u00e7\u00e3o e na vida da Escola.<\/p>\n<p>Seguimos ent\u00e3o, rumo \u00e0 jornada, lugar onde o bom encontro se d\u00e1 no la\u00e7o com o Outro e, nesse encontro em especial, tamb\u00e9m com nossas convidadas, Marina Recalde e Ondina Machado. Seguimos, tamb\u00e9m, com Paulo Leminski, o polaco curitibano:<\/p>\n<p>\u00d3bvio o t\u00edtulo desta legi\u00e3o de enredos.<\/p>\n<p><em>Gozo fabuloso<\/em> s\u00f3 pode ser o del\u00edrio combinat\u00f3rio de extrair do restrito infinito dos entrechos poss\u00edveis uma hist\u00f3ria sem par, del\u00edcia s\u00f3 compar\u00e1vel \u00e0 de cantar uma can\u00e7\u00e3o bonita<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>At\u00e9 breve!<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Miller, Jacques-Alain. <em>A er\u00f3tica do tempo.<\/em> Rio de Janeiro: EBP, 2000, p. 29.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Idem, p. 53.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Idem, p. 56.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Idem, p. 38.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Leminski, Paulo. <em>Gozo fabuloso<\/em>. S\u00e3o Paulo: Todavia, 2025.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diego Cervelin (EBP\/AMP), Val\u00e9ria Beatriz Araujo, Fernanda Baptista e Priscila de S\u00e1 Santos O boletim P U L S a R chega a sua \u00faltima edi\u00e7\u00e3o contemplando um percurso cujo trajeto passa pelos tr\u00eas eixos de investiga\u00e7\u00e3o deste tema candente que nos acompanha nesta jornada: o gozo e a \u00e9poca, o gozo no in\u00edcio das&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-5630","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-vi-jornada","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5630","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5630"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5630\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5632,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5630\/revisions\/5632"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5630"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5630"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5630"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=5630"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}