{"id":5588,"date":"2025-09-19T09:44:19","date_gmt":"2025-09-19T12:44:19","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5588"},"modified":"2025-10-17T15:50:39","modified_gmt":"2025-10-17T18:50:39","slug":"no-principio-era-o-gozo-a-contingencia-o-real-a-transferencia-uma-primeira-passagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/no-principio-era-o-gozo-a-contingencia-o-real-a-transferencia-uma-primeira-passagem\/","title":{"rendered":"No princ\u00edpio era o gozo: a conting\u00eancia, o real, a transfer\u00eancia&#8230; uma primeira passagem"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em><strong>Adriana Rodrigues (EBP\/AMP)<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p>De maneira geral, a busca por uma an\u00e1lise acontece quando um encontro contingente irrompe e perturba a homeostase de um arranjo sintom\u00e1tico que, at\u00e9 ent\u00e3o, vigorava de forma minimamente exitosa. Podemos dizer que a movimenta\u00e7\u00e3o entre o gozo, a conting\u00eancia, o real e a transfer\u00eancia, operam como os desencadeadores do in\u00edcio de uma an\u00e1lise. O mal-estar que se produz aparece na narrativa e nas primeiras queixas do analisante. Miller, no texto <em>Como come\u00e7am as an\u00e1lises<\/em>, afirma que, \u201cpara ir ao analista, \u00e9 preciso j\u00e1 ter interpretado o pr\u00f3prio sintoma, dando a ele um significado inconsciente, ou seja, &#8220;n\u00e3o sei ler isso sozinho&#8221;\u201d.<\/p>\n<p>Se o analisante chega com a constata\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o sabe ler seu texto inconsciente sozinho e precisa do analista, quais as coordenadas que podem orientar a escuta, ou a leitura, dos ind\u00edcios do real e do gozo nas entrelinhas da teia significante que vai se armando nos primeiros encontros com um praticante da psican\u00e1lise? \u00c9 a pergunta que nos faz C\u00e9lia Winter, no texto do argumento do eixo II, <em>O gozo desde o in\u00edcio da an\u00e1lise<\/em>, da nossa 6\u00aa Jornada. \u00c9 um convite a pensar de que maneira podemos cernir algo do gozo j\u00e1 nas primeiras entrevistas, de modo a diferenciar a escuta anal\u00edtica de qualquer outra, abrindo caminhos para o in\u00edcio de uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio de Mattos, no texto <em>A boa sorte de analisar-se<\/em>, destaca que o praticante da psican\u00e1lise precisa estar atento ao que na fala do analisante emerge trazendo uma dimens\u00e3o libidinal, ou seja:<\/p>\n<blockquote>[&#8230;] uma palavra carregada de afeto, uma cena enigm\u00e1tica, uma conex\u00e3o nova que causa satisfa\u00e7\u00e3o, uma articula\u00e7\u00e3o onde se mostre um padr\u00e3o repetitivo. \u00cdndices que podem emergir das primeiras lembran\u00e7as infantis, de narrativas de traumas, de momentos de ruptura na vida quando tudo toma um outro caminho, de sonhos que n\u00e3o se esquecem, de outros frequentemente repetidos<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>No manejo transferencial desse conte\u00fado, como afirma C\u00e9lia, o praticante da psican\u00e1lise precisa estar numa posi\u00e7\u00e3o de subvers\u00e3o no enquadre do enredo que tenta se repetir na transfer\u00eancia, considerando-a como \u201cuma modalidade l\u00f3gica que se op\u00f5e \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, para que um amor in\u00e9dito seja poss\u00edvel. Nas entrevistas preliminares, \u00e9 num instante \u2013 mesmo que evanescente, que alguma coisa irrompe na via de um \u201cpara al\u00e9m do sentido\u201d, trazendo um elemento novo, enigm\u00e1tico, que faz vacilar, ou at\u00e9 cair, algo do gozo fixado como estatuto de verdade para o sujeito, demarcando a conclus\u00e3o de um primeiro tempo, uma passagem. Ou nas palavras de C\u00e9lia: \u201cA entrada em an\u00e1lise, ponto crucial na <em>pr\u00e1xis<\/em> lacaniana, marca uma transforma\u00e7\u00e3o significativa, um limiar que distingue um antes e um depois, na experi\u00eancia do sujeito\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Trata-se, penso eu, de uma passagem que traduz um rearranjo nos elementos que j\u00e1 estavam ali desde os primeiros encontros com o praticante da psican\u00e1lise: o gozo, a conting\u00eancia, o real, a transfer\u00eancia \u2013 mesmo que ainda em suas primeiras nuances.<\/p>\n<p>Partindo destas ideias preliminares, me interessa saber mais sobre os tempos numa an\u00e1lise. Quando pensamos em \u201cfinais de an\u00e1lise\u201d e sobretudo, no dispositivo do \u201cpasse\u201d, fica evidente um momento de passagem e de novos arranjos com o gozo. Mas, considerando que uma an\u00e1lise se faz na perspectiva da opera\u00e7\u00e3o de redu\u00e7\u00e3o do sentido, processo em que, do texto do inconsciente se destaca um significante que marca uma redistribui\u00e7\u00e3o de gozo e um \u201cantes e um depois\u201d naquele recorte de tempo<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, seria poss\u00edvel pensar em momentos de \u201cpassagem\u201d ao longo de um processo de an\u00e1lise? Nesta hip\u00f3tese, quais os elementos poderiam dar ind\u00edcios dessa passagem?<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o que n\u00e3o foi poss\u00edvel desenvolver aqui, mas que me convoca muito, \u00e9 o convite que C\u00e9lia faz para pensar como esse processo se d\u00e1 nas institui\u00e7\u00f5es. Encontros com a psican\u00e1lise que muitas vezes acontecem nas condi\u00e7\u00f5es mais inusitadas, mas que podem marcar um \u201cantes e um depois\u201d e abrir portas para que novas possibilidades se produzam a partir da\u00ed.<\/p>\n<p>Ao fim, reconduzo a pergunta-convite que me foi feita: quais s\u00e3o as suas quest\u00f5es sobre o gozo no in\u00edcio de uma an\u00e1lise? A 6\u00aa Jornada \u201cCad\u00ea o gozo: o que diz a \u00e9poca e a cl\u00ednica\u201d, abre espa\u00e7o para ouvi-las.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Mattos, S\u00e9rgio. A boa sorte de analisar-se. In: <em>Revista Correio<\/em>, n. 92. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, abr. 2024, p. 37.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ibidem, p. 39.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Winter, C\u00e9lia. <em>Eixo II: O gozo desde o in\u00edcio da an\u00e1lise.<\/em> 6\u00aa<strong> Jornada da Se\u00e7\u00e3o Sul. \u201cCad\u00ea o gozo? O que diz a \u00e9poca e a cl\u00ednica\u201d.<\/strong> Dispon\u00edvel em: https:\/\/ebp.org.br\/sul\/eventos\/jornadas\/6a-jornada-da-ebp-secao-sul-cade-o-gozo-o-que-diz-a-epoca-e-a-clinica\/6a-jornada-da-ebp-secao-sul-cade-o-gozo-o-que-diz-a-epoca-e-a-clinica-eixo-2-o-gozo-desde-o-inicio-da-analise\/<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Miller, Jacques Alain. <em>Como come\u00e7am as an\u00e1lises.<\/em> Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/enapol.com\/xi\/portfolio-items\/como-comienzan-los-analisis\/\">https:\/\/enapol.com\/xi\/portfolio-items\/como-comienzan-los-analisis\/<\/a>. Acesso em set\/2025.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adriana Rodrigues (EBP\/AMP) De maneira geral, a busca por uma an\u00e1lise acontece quando um encontro contingente irrompe e perturba a homeostase de um arranjo sintom\u00e1tico que, at\u00e9 ent\u00e3o, vigorava de forma minimamente exitosa. 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