{"id":5540,"date":"2025-08-04T16:10:09","date_gmt":"2025-08-04T19:10:09","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5540"},"modified":"2025-08-04T16:10:09","modified_gmt":"2025-08-04T19:10:09","slug":"a-epoca-e-o-espirito-do-tempo-amor-desejo-e-gozo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/a-epoca-e-o-espirito-do-tempo-amor-desejo-e-gozo\/","title":{"rendered":"A \u00e9poca e o esp\u00edrito do tempo: amor, desejo e gozo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong><span style=\"font-size: 13px;\">Nancy Greca Carneiro (EBP \/ AMP)<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em seu discurso na Universidade de Mil\u00e3o \u2013 maio de 1972 \u2013, Lacan afirma que antes de qualquer significa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, o jogo do significante, o deslizamento do significante \u201c&#8230; \u00e9 isto o que determina o ser para aquele que fala\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. A l\u00edngua, a l\u00edngua materna, a l\u00edngua que se fala e seus usos, os usos da l\u00edngua. O esp\u00edrito do tempo fala e nela se inscreve a subjetividade da \u00e9poca. Nos tempos que correm, o sujeito rom\u00e2ntico se retira, o sujeito da d\u00favida se dilui numa demanda incessante de gozo.<\/p>\n<p>Mas se o sujeito se inscreve na subjetividade de sua \u00e9poca, a psican\u00e1lise o encontra na falta, no furo, em torno de uma perda. E \u00e9 o discurso, no ordenamento do que se pode produzir pela exist\u00eancia da linguagem, que faz papel de liga\u00e7\u00e3o social. Em pleno maio de 1968, Lacan adverte que a aspira\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria sempre termina no discurso do Mestre. E faz notar: \u201c&#8230; \u00e9 claro que nada \u00e9 mais candente do que aquilo que, do discurso faz refer\u00eancia ao gozo\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Oscar localiza em seu texto uma passagem precisa: \u201cem 1970, o inconsciente \u00e9 definido por Lacan como o discurso do mestre, e em 1972, em Mil\u00e3o, Lacan avan\u00e7a no conceito de inconsciente e o homologa ao discurso capitalista\u201d. Destaco de seu texto \u201c&#8230; o discurso capitalista rejeita a castra\u00e7\u00e3o tornando invi\u00e1vel o estabelecimento do la\u00e7o social, deixando de lado as coisas do amor\u201d.<\/p>\n<p>O discurso capitalista \u00e9 apresentado como uma interrup\u00e7\u00e3o, uma pequena invers\u00e3o entre o S<sub>1<\/sub> e o sujeito dividido que interrompe o giro dos discursos e foraclui a castra\u00e7\u00e3o. Se \u201co que faz girar os discursos \u00e9 o amor\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> e o amor faz supl\u00eancia ao imposs\u00edvel, ao furo no real e organiza os discursos, como mediar a falta e fazer circular gozo e saber? Que media\u00e7\u00e3o fazer circular entre sujeito e gozo sem a media\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica?<\/p>\n<p>Em a <em>Er\u00f3tica do tempo<\/em>, Miller<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> se refere ao gozo assediado pelo tempo. Diante do imperativo de gozo, o amor n\u00e3o enla\u00e7a, se esgar\u00e7a a temporalidade do desejo, o tempo da falta, o tempo da espera, o tempo do encontro e se imp\u00f5e a erotiza\u00e7\u00e3o da urg\u00eancia. O tempo da urg\u00eancia se torna um canal para o gozo.<\/p>\n<p>O que oferecer a um sujeito exaurido, desconectado, seduzido pela imagem de si, capturado pela oferta constante de objetos descart\u00e1veis, que exige um gozo direto que prescinde do amor, contorna o desejo e a castra\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Freud se refere a tr\u00eas profiss\u00f5es imposs\u00edveis \u2013 de governar, de educar e de analisar, \u00e0s quais Lacan inclui a de fazer desejar<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Trata-se justo da oferta de Lacan ao propor o discurso anal\u00edtico como um dos quatro discursos: como fazer presente o discurso anal\u00edtico no s\u00e9culo XXI, aquele que deve se encontrar no polo oposto a toda vontade de dominar? \u201cE, como eu dizia na \u00faltima vez, quando deixei Vincennes, talvez seja do discurso do analista, se fizermos esse quarto de giro, que possa surgir um outro estilo de significante mestre\u201d.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>E c\u00e1 estamos em pleno um quarto do s\u00e9culo 21 a nos perguntar: cad\u00ea o gozo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. O discurso capitalista \u2013 Discurso de Jacques Lacan na Universidade de Mil\u00e3o 12 de maio de 1972. Apostilado<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lacan, J.\u00a0 <em>O semin\u00e1rio, livro 17: <\/em><em>o avesso da psican\u00e1lise<\/em> (1969-1970). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor 1992, p. 66<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan, J.\u00a0 <em>O semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda<\/em> (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Miller, J. A. <em>A er\u00f3tica do tempo.<\/em> Semin\u00e1rio proferido durante o X Encontro do Campo Freudiano. Os circuitos do desejo na vida e na an\u00e1lise, abril de 2000, Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Pref\u00e1cio para um livro de August Aichhorn escrito por Freud em 1925.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Lacan, J. \u201cA impot\u00eancia da verdade\u201d. In: ___. <em>O semin\u00e1rio, livro 17: o avesso da psican\u00e1lise<\/em> (1969-1970). Rio de Janeiro: Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992, p. 168.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nancy Greca Carneiro (EBP \/ AMP) Em seu discurso na Universidade de Mil\u00e3o \u2013 maio de 1972 \u2013, Lacan afirma que antes de qualquer significa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, o jogo do significante, o deslizamento do significante \u201c&#8230; \u00e9 isto o que determina o ser para aquele que fala\u201d[1]. 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