{"id":5349,"date":"2025-04-29T09:07:29","date_gmt":"2025-04-29T12:07:29","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5349"},"modified":"2025-04-29T09:07:29","modified_gmt":"2025-04-29T12:07:29","slug":"entre-panfletos-e-gelatinas-a-escuta-do-real-na-nova-politica-da-juventude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/entre-panfletos-e-gelatinas-a-escuta-do-real-na-nova-politica-da-juventude\/","title":{"rendered":"Entre Panfletos e Gelatinas: A Escuta do Real na Nova Pol\u00edtica da Juventude"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em><strong>C\u00e9lia Ferreira Carta Winter (EBP\/AMP)<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_5350\" aria-describedby=\"caption-attachment-5350\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5350\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/modos_de_usa_007_005-300x217.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"217\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/modos_de_usa_007_005-300x217.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/modos_de_usa_007_005.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5350\" class=\"wp-caption-text\">Wassily Kandinsky<\/figcaption><\/figure>\n<p>Essa Diretoria, que encerra seu mandato em abril de 2025, teve a satisfa\u00e7\u00e3o de acolher os participantes da NPJ durante os 2 anos de gest\u00e3o.<\/p>\n<p>No primeiro encontro de boas-vindas, ainda no instante de ver, nem eles, nem n\u00f3s (a diretoria) sab\u00edamos o que esperar, o que propor e se t\u00ednhamos que propor. Eles que deveriam ir atr\u00e1s de se incluir? Enfim, quest\u00f5es que apareceram nas perguntas: Membros? Membros sob condi\u00e7\u00e3o? Participantes?<\/p>\n<p>Isso nos colocou a trabalho e, mais orientados, propusemos a atividade \u201cExperi\u00eancia de Escola: Conversa com o NPJ\u201d. O convite que recebi de Teresa Pavone para esse Boletim foi para comentar dois textos: um de Paula Nocquet e outro de Mariana Dias &#8211; os restos, os ecos desse trabalho.\u00a0H\u00e1 gestos que carregam em si o germe de um futuro. Lacan, ao entregar panfletos a Miller, faz um ato.\u00a0 Paula Nocquet e Mariana Dias, em seus textos para a Nova Pol\u00edtica da Juventude (NPJ), seguem essa trilha: uma com a solidez de quem aposta na causa anal\u00edtica, outra com a leveza de quem sonha gelatinas tricolores.<\/p>\n<p>Como come\u00e7ar, ent\u00e3o, sen\u00e3o com um paradoxo? A psican\u00e1lise s\u00f3 se transmite quando falha. \u00c9 nessa falha, entre o que se diz e o que insiste, que a NPJ encontra seu solo.<\/p>\n<p>Paula nos lembra que a Escola \u00e9 feita de panfletos que se distribuem, na expectativa de encontrar um leitor, gestos m\u00ednimos que ecoam a pergunta: o que \u00e9 um analista?<\/p>\n<p>Mariana, por sua vez, sonha com camisas que nunca existiram e gelatinas que mudam de cor, lembrando-nos que o real n\u00e3o se veste de uniforme.<\/p>\n<p>Ambos os textos s\u00e3o cartografias do furo: mapas que s\u00f3 se completam no ato de se perder.\u00a0Paula fala de transfer\u00eancia de trabalho; Mariana, de sonhos que rabiscam carteiras. O que une esses fios? A no\u00e7\u00e3o de que a forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica \u00e9 um banquete de restos, onde se come o <em>Dasein<\/em> com colher de poesia.<\/p>\n<p>Se Lacan fundou uma Escola, foi para que ningu\u00e9m nela dormisse em paz. E \u00e9 isso que esses textos testemunham: o desassossego de quem aceitou o panfleto sem saber que trazia \u201c a peste\u201d.\u00a0Mariana Dias come\u00e7a seu texto com uma imagem que \u00e9 um golpe de mestre: &#8220;para que algo de uma experi\u00eancia possa se escrever, \u00e9 preciso n\u00e3o estar em queda de bra\u00e7o com o encontro contingente&#8221;. A\u00ed est\u00e1 o cerne da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana \u2014 n\u00e3o domesticar o real, mas deixar-se atravessar por ele. Seu texto, repleto de sonhos, gelatinas e camisas inexistentes, \u00e9 um cart\u00e3o de visita. Como ela mesma diz, &#8220;o diabo do real mora nos detalhes&#8221;, e esses detalhes s\u00e3o as notas de rodap\u00e9 que a psican\u00e1lise inscreve no corpo do mundo. A experi\u00eancia da NPJ, para Mariana, \u00e9 essa gelatina: algo que se experimenta, mas n\u00e3o se domina. A imers\u00e3o na Escola n\u00e3o \u00e9 um mergulho em \u00e1guas claras, mas uma navega\u00e7\u00e3o em mar revolto, onde o real surge inesperado, desestabilizador.<\/p>\n<p>Mariana Dias nos deixa uma pista: a Escola \u00e9 o lugar onde os sonhos (os nossos, os de Lacan, os dos jovens) n\u00e3o s\u00e3o interpretados, mas vividos.\u00a0 Seu texto, como um caderno de anota\u00e7\u00f5es, cheio de rabiscos, gelatinas e camisas fantasmas, \u00e9 um testemunho de que a NPJ n\u00e3o \u00e9 uma pol\u00edtica de integra\u00e7\u00e3o, mas de inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Paula Nocquet inicia seu texto com um gesto fundador: Lacan entrega panfletos a Miller. Nele, est\u00e1 cifrada a aposta lacaniana: a transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise n\u00e3o se d\u00e1 por doutrina, mas por estilo, um estilo que se inscreve na transfer\u00eancia de trabalho. Miller, ao receber os panfletos do Ato de Funda\u00e7\u00e3o, n\u00e3o recebe um manual, mas um convite ao vazio, onde a causa anal\u00edtica germina. A pergunta de Lacan: &#8220;quantos voc\u00ea quer para seus camaradas?&#8221; \u00e9 um chamado \u00e0 responsabilidade. A Escola s\u00f3 existe se houver algu\u00e9m para passar al\u00e9m o fogo do real.<\/p>\n<p>A NPJ, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 um grupo de jovens \u00e0 procura de mestres, mas sujeitos que carregam discos coloridos, suas quest\u00f5es singulares. O panfleto distribu\u00eddo por Miller \u00e9 um sinal: cada jovem deve atestar seu interesse, n\u00e3o por obedi\u00eancia, mas pela inven\u00e7\u00e3o de um trajeto \u00fanico. O texto de Paula culmina numa ideia crucial: o panfleto s\u00f3 \u00e9 panfleto se circula. Lacan, ao entreg\u00e1-lo a Miller, n\u00e3o o fez para arquiv\u00e1-lo, mas para ativ\u00e1-lo na rede do Campo Freudiano.\u00a0 A NPJ repete esse gesto: n\u00e3o integra jovens \u00e0 Escola, mas os convida a rasg\u00e1-la, a perfurar seu tecido com novas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>A causa anal\u00edtica, aqui, n\u00e3o \u00e9 um ideal, mas um resto, o que persiste quando todas as respostas falham. O panfleto \u00e9 a materialidade desse resto: um objeto m\u00ednimo que, como o objeto <em>a<\/em>, s\u00f3 ganha valor no circuito do desejo. Distribu\u00ed-lo \u00e9 apostar que algu\u00e9m, em algum lugar, dir\u00e1: &#8220;isso me concerne&#8221;. Talvez a esperan\u00e7a de Lacan, depositada nos jovens, seja esta: que eles continuem rabiscando, comendo gelatinas e fazendo perguntas que nem mesmo o diabo saberia responder.<\/p>\n<p>Boa leitura!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e9lia Ferreira Carta Winter (EBP\/AMP) Essa Diretoria, que encerra seu mandato em abril de 2025, teve a satisfa\u00e7\u00e3o de acolher os participantes da NPJ durante os 2 anos de gest\u00e3o. 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