{"id":5346,"date":"2025-04-29T09:06:30","date_gmt":"2025-04-29T12:06:30","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5346"},"modified":"2025-04-29T09:06:30","modified_gmt":"2025-04-29T12:06:30","slug":"uma-experiencia-com-a-escola-e-a-npj-notas-de-rodape","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/uma-experiencia-com-a-escola-e-a-npj-notas-de-rodape\/","title":{"rendered":"Uma experi\u00eancia com a Escola e a NPJ: notas de rodap\u00e9"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em><strong>Mariana Dias<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-5347\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/modos_de_usa_007_006-300x203.jpg\" alt=\"Wassily Kandinsky\" width=\"300\" height=\"203\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/modos_de_usa_007_006-300x203.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/modos_de_usa_007_006.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Para que algo de uma experi\u00eancia possa se escrever, \u00e9 preciso n\u00e3o estar em queda de bra\u00e7o com o encontro contingente. \u00c9 preciso n\u00e3o estar travando uma queda de bra\u00e7o com o real. Enquanto se usarem as m\u00e3os para isso, definir quem \u00e9 mais forte, a escrita trava. N\u00e3o vai sobrar m\u00e3o, e sabemos quem triunfa no final.<\/p>\n<p>Essa m\u00e3o canhestra que aponta para o sem sentido d\u00e1 o tom da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. \u00c9 num lugar que nomeia em <em>A inst\u00e2ncia da letra<\/em> como um lugar terceiro &#8211; nem o de sua fala nem seu interlocutor, mas o lugar da <em>Proposi\u00e7\u00e3o <\/em>&#8211; onde Lacan afirmar\u00e1 que existe um real em jogo na pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o do psicanalista e que as sociedades existentes fundam-se nesse real\u00b9.<\/p>\n<p>O que gostaria de propor como fio condutor para algo poder dizer, <strong>n\u00e3o apesar <\/strong>da m\u00e3o canhestra, <strong>mas orientada por<\/strong> ela, \u00e9 que deste real em jogo na forma\u00e7\u00e3o do psicanalista, s\u00f3 da\u00ed poderia advir uma m\u00e1xima como \u201cn\u00e3o h\u00e1 forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, s\u00f3 h\u00e1 forma\u00e7\u00f5es do inconsciente\u201d\u00b2. Isto \u00e9, somente da pena de um Lacan t\u00e3o her\u00e9tico quanto excomungado.<\/p>\n<p>Isto me faz pensar na parec\u00eancia do real com uma representa\u00e7\u00e3o social que nos tem sido muito familiar atrav\u00e9s dos tempos: o diabo, um solit\u00e1rio com quem quase ningu\u00e9m quer papo. No mal-entendido constitutivo das l\u00ednguas, o diabo foi um dos sorteados para ficar como culpado pelos azares na vida dos outros.<\/p>\n<p>O real marca o estilo de Lacan e, portanto, a funda\u00e7\u00e3o de sua Escola. Digo que marca, no tempo presente do verbo, porque uma vez que marcou, est\u00e1 marcado. A marca para a psican\u00e1lise justamente vem do verbo que atravessou o corpo e ficou aprisionado no presente. Se n\u00e3o d\u00e1 para definir o real, d\u00e1 para inferir seu tempo: est\u00e1 sempre no presente. Com isso fica patente a pergunta: Escola, que lugar \u00e9 esse?<\/p>\n<p>Bem, parece que nunca pararemos de nos fazer essa pergunta. Decerto este \u00e9 o pulo do gato. Seria a pr\u00f3pria Escola uma esp\u00e9cie de forma\u00e7\u00e3o do inconsciente? Porque quando participamos de um cartel, dizemos que o inscrevemos na Escola. Quer dizer, a Escola \u00e9 onde se inscreve algo. Outra quest\u00e3o: ser\u00e1 que a Escola se representa no inconsciente?<\/p>\n<p>Ap\u00f3s mandar minha carta de inten\u00e7\u00e3o, convocada que me senti pela Escola e pela Nova Pol\u00edtica da Juventude, recebo uma carta de mim mesma. Por uma sorte de extravio, o SMS que escrevia para meu pai depois que ele sa\u00edra do \u00f4nibus, fui eu quem recebi, pois era um sonho. Despertei com o vibrar da notifica\u00e7\u00e3o: \u201cn\u00e3o quero passar o dia inteiro na Universidade\u201d.<\/p>\n<p>Acho que isso marca minha experi\u00eancia com a Escola. Que n\u00e3o \u00e9 o universal e muito menos o discurso hegem\u00f4nico: o que me interessa s\u00e3o os desvios. Ent\u00e3o talvez a pergunta n\u00e3o seja exatamente <em>se<\/em> a Escola se representa no inconsciente, mas <u>como<\/u> se representa.<\/p>\n<p>Para mim, a Escola se representou no inconsciente como a pr\u00f3pria escola, um lugar onde o que me chamava a aten\u00e7\u00e3o era: quem cola e quem n\u00e3o cola, o que a colega artista desenha na carteira, o colega cal\u00edgrafo que fica enfeitando as letras e esquece de copiar a mat\u00e9ria, aquele menino que mexe no cabelo da menina sentada na frente para provocar. Ou seja, o que cada um inventa para se desviar pouco que seja do discurso do mestre.<\/p>\n<p>Neste lugar, eu procurava minha turma, que eu identificaria por estarem vestindo uma camisa igual \u00e0 minha. Ando, ando; mas n\u00e3o acho. Ent\u00e3o resolvo perguntar a uma pessoa ali se havia visto algu\u00e9m com a mesma camisa que a minha e esta pessoa me responde que n\u00e3o, que \u201cna verdade, l\u00e1 eles d\u00e3o sempre essa\u201d. E aponta para a que est\u00e1 usando.<\/p>\n<p>O que esse sonho me ensina \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 o significante do analista. Que a Escola de Lacan est\u00e1 fundada na n\u00e3o identidade do psicanalista, porque sua carteira de identidade se perdeu. Portanto, nunca se formar\u00e1 o conjunto dos analistas. O que se forma \u00e9 uma s\u00e9rie aberta e sem lei que a defina, como um conjunto de Russel.<\/p>\n<p>Desde que Iordan Gurgel nos falou sobre o cartel como m\u00e1quina de guerra, fiquei bastante curiosa. Ele remeteu o cartel &#8211; que est\u00e1 no princ\u00edpio da Escola &#8211; \u00e0 estrutura transindividual do inconsciente. Isso me fez ficar pensando no \u201co sonho \u00e9 o guardi\u00e3o do sono\u201d de Freud. Se o sonho \u00e9 o guardi\u00e3o do sono, o Mais-Um \u00e9 o guardi\u00e3o do cartel. E a Escola \u00e9 a guardi\u00e3 do discurso anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Mas se tem uma coisa que Freud nos ensina, \u00e9 que o diabo do real mora nos detalhes, nos desvios. \u00c0s vezes pode morar na nota de rodap\u00e9, por exemplo. Depois de concluir que n\u00e3o haveria ningu\u00e9m com uma camisa igual \u00e0 minha, vejo que ali pelo menos tem sobremesa e resolvo pegar uma gelatina. V\u00ea-se que algo de meu apetite n\u00e3o se negativizou. Enquanto como a gelatina, que achava ser de morango, percebo que na verdade era uma gelatina de tr\u00eas cores.<\/p>\n<p>Quando se fala em experi\u00eancia, toca-se em algo que \u00e9 da ordem do comer. Porque a experi\u00eancia \u00e9 uma coisa que se experimenta. Na via contr\u00e1ria de tentar dar consist\u00eancia a uma identifica\u00e7\u00e3o, esse comer pode ser o saborear de uma gelatina inconsistente. Como diria Lacan: \u201cCome teu Dasein\u201d\u00b3. Mas com a condi\u00e7\u00e3o de <em>decivorar <\/em>a letra lacaniana n\u00e3o sem os outros. Nesse banquete s\u00f3 tem restos, ent\u00e3o a conversa tem que ser muito boa\u2026<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Notas<br \/>\n<\/strong>\u00b9 LACAN, J. (2003[1965]). \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola\u201d. In:<em> Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, p. 249.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">\u00b2 Idem. (1973). \u201cIntervention \u00e0 l\u2019EFP, le 3 novembre 1973\u201d. In: Lettres de l\u2019\u00c9cole Freudienne de Paris, n\u00ba 15.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">\u00b3 Idem. (1998[1949]). \u201cO semin\u00e1rio sobre \u2018A carta roubada\u2019\u201d. In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, p. 45.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mariana Dias Para que algo de uma experi\u00eancia possa se escrever, \u00e9 preciso n\u00e3o estar em queda de bra\u00e7o com o encontro contingente. \u00c9 preciso n\u00e3o estar travando uma queda de bra\u00e7o com o real. Enquanto se usarem as m\u00e3os para isso, definir quem \u00e9 mais forte, a escrita trava. 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