{"id":5343,"date":"2025-04-29T09:05:07","date_gmt":"2025-04-29T12:05:07","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5343"},"modified":"2025-04-29T09:05:07","modified_gmt":"2025-04-29T12:05:07","slug":"a-transferencia-de-trabalho-e-o-panfleto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/a-transferencia-de-trabalho-e-o-panfleto\/","title":{"rendered":"A transfer\u00eancia de trabalho e o panfleto"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em><strong>Paula Nathalie Nocquet<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_5344\" aria-describedby=\"caption-attachment-5344\" style=\"width: 293px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5344\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/modos_de_usa_007_007-293x300.jpg\" alt=\"\" width=\"293\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/modos_de_usa_007_007-293x300.jpg 293w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/modos_de_usa_007_007.jpg 306w\" sizes=\"auto, (max-width: 293px) 100vw, 293px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5344\" class=\"wp-caption-text\">Wassily Kandinsky<\/figcaption><\/figure>\n<p>Um relato de J-A Miller[1], que me pareceu muito interessante para abrir esse tema da experi\u00eancia de Escola, \u00e9 que aos seus vinte anos, Lacan se aproxima com panfletos, eram o <em>Ato de Funda\u00e7\u00e3o<\/em>, e lhe pergunta: \u201c<em>quantos voc\u00ea quer, para seus camaradas?\u201d.<\/em> Esses <em>camaradas<\/em> eram seus colegas da \u00c9cole Normale Sup\u00e9rieur e Miller responde: \u201c<em>uns dez<\/em>\u201d. Desde ent\u00e3o, como ele pr\u00f3prio relata, n\u00e3o deixou de repartir panfletos para seus camaradas. Entregar um panfleto a um jovem de vinte anos pode parecer pouco, mas, na verdade, \u00e9 uma aposta a ser sustentada. De que aposta se trata? A aposta no trabalho por uma causa.<\/p>\n<p>Se falamos do trabalho da transfer\u00eancia como suporte na experiencia anal\u00edtica, \u00e9 f\u00e1cil nos remetermos rapidamente ao Sujeito Suposto Saber e ao amor. Entretanto, a transfer\u00eancia de trabalho, posta como a base na qual se funda a Escola, n\u00e3o se confunde com a transfer\u00eancia na cl\u00ednica.\u00a0 Esta \u00faltima pressup\u00f5e um Sujeito Suposto Saber, um saber que <em>ex-siste<\/em> no inconsciente, uma fala endere\u00e7ada ao Outro, enquanto, na transfer\u00eancia de trabalho, o que est\u00e1 em jogo fundamentalmente \u00e9 o que o Outro n\u00e3o sabe S(A\/), \u201cprecisamente porque o Outro n\u00e3o sabe &#8230;que algo pode ser dito\u201d[2].<\/p>\n<p>Ou seja, h\u00e1 uma abertura diante desse Outro que n\u00e3o sabe, uma certa sensibilidade em termos do S(A\/) na pr\u00f3pria entrada para a Escola. \u00c9 um convite a produ\u00e7\u00e3o de trabalho e a enuncia\u00e7\u00e3o, \u00e9 algo que se relaciona at\u00e9 mesmo com a inibi\u00e7\u00e3o ao saber que se pode padecer.<\/p>\n<p>A Escola de Lacan, muito diferente de outras institui\u00e7\u00f5es de psican\u00e1lise, \u00e9 o lugar onde <em>o que \u00e9 um analista<\/em> \u00e9 sempre uma pergunta a responder. Nesse ponto Lacan inova no funcionamento. Convida a cada um a construir, a inventar o que um analista \u00e9, a cada vez, um a um.<\/p>\n<p>Mas quanto ao amor? Podemos falar de amor na transfer\u00eancia de trabalho? Ainda sem conseguir responder a essa quest\u00e3o, \u00e9 certo que falamos de um la\u00e7o, e que n\u00e3o se sustenta sozinho, implica os outros, o que abre a pensar em qual o lugar desses <em>outros<\/em>?<\/p>\n<p>Tanto Mauricio Tarrab, em seu livro <em>El decir y lo real<\/em>, como Graciela Brodsky em <em>Los psicoanalistas y el deseo de ense\u00f1ar <\/em>evocam a apologia dos tr\u00eas prisioneiros de <em>O tempo l\u00f3gico e asser\u00e7\u00e3o de certeza antecipada<\/em>, para abordar a l\u00f3gica coletiva que atravessa a pol\u00edtica da Escola nessa via de <em>n\u00e3o sem os outros<\/em>. Para citar a Lacan:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c(&#8230;) nessa corrida para a verdade, <em>e\u0301 apenas sozinho<\/em>, n\u00e3o sendo todos, que se atinge o verdadeiro, <em>ningu\u00e9m o atinge<\/em>, no entanto, <em>a n\u00e3o ser atrav\u00e9s dos outros<\/em>.\u201d[3]<\/blockquote>\n<p>Logo, na Escola, estamos <em>sozinhos, <\/em>cada um com sua causa sim, mas, sem <em>n\u00e3o sem os outros<\/em>, como no ap\u00f3logo dos tr\u00eas prisioneiros, j\u00e1 que sem eles, n\u00e3o h\u00e1 como se ter alguma ideia do disco que cada um carrega nas costas. Nessa l\u00f3gica coletiva que n\u00e3o exclui o um a um, o que o outro diz ou faz, deixa de ser apenas do outro e provoca algo em n\u00f3s mesmos. Os outros t\u00eam seus lugares na forma\u00e7\u00e3o e mesmo na autoriza\u00e7\u00e3o que cada um faz de si enquanto analista. Sem eles, n\u00e3o h\u00e1 como fazer reverberar algo da verdade da causa que cada um traz consigo, e inclusive, algo da resposta, que \u00e9 tamb\u00e9m singular, sobre por que a Escola. Portanto, \u201cprisioneiros como somos \u2013 reconhe\u00e7o essa condi\u00e7\u00e3o, o que me faz sem d\u00favidas ser mais suport\u00e1vel para os outros. Porque \u00e9 na borda desse furo que advirto que \u00e9 <em>n\u00e3o sem os outros <\/em>que tenho uma chance l\u00f3gica\u201d[4].<\/p>\n<p>Na Escola, convive-se com uma diversidade de estilos, e de tens\u00f5es que os agrupamentos inevitavelmente provocam. A aposta na transfer\u00eancia de trabalho \u00e9 de que esta poderia propiciar n\u00e3o apenas um tratamento do risco institucional de propagarmos um saber mortificado, mantendo em mente de que algo sempre pode ser dito, S (A\/) bem como de certa maneira, j\u00e1 que n\u00e3o aposta na uniformidade, de um corte nos impulsos identificat\u00f3rios que mobilizam a vida dos pequenos grupos.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de escola implica um lugar onde os analistas se relacionam com os n\u00e3o analistas, os membros com os n\u00e3o-membros, os mais velhos com mais jovens. Compartilha-se o desejo e o trabalho de subjetivar o que cada um encontra em sua an\u00e1lise como causa singular[5]. E, preserva-se um real, sem orientar para a fabrica\u00e7\u00e3o de um Outro que sabe, e se d\u00e1 lugar a uma experi\u00eancia baseada na inven\u00e7\u00e3o e em uma investiga\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n<p>Para retomar o relato inicial feito por Miller em rela\u00e7\u00e3o aos panfletos. Um panfleto pode ser considerado s\u00f3 um panfleto. Por\u00e9m, quando Lacan o entrega a Miller para que o distribua para seus camaradas, temos uma aposta que parece refletir a l\u00f3gica presente na transfer\u00eancia de trabalho. Oferece a possibilidade de enuncia\u00e7\u00e3o, cada um a seu estilo. Talvez a transfer\u00eancia de trabalho esteja ali, nesse panfleto, em que \u00e9 necess\u00e1rio de um lado, oferec\u00ea-lo, e do outro, dar provas. Ainda que Lacan[6] tenha dito \u201cfundo t\u00e3o s\u00f3 como sempre estive na minha rela\u00e7\u00e3o com a causa anal\u00edtica\u201d, e se apresente como um sujeito, sozinho, <em>n\u00e3o \u00e9 sem os outros<\/em>, e os convida a fazerem o mesmo; <em>quantos panfletos voc\u00ea quer?<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">[1] MILLER, J-A. El Nascimiento del Campo Freudiano. 1\u00aa ed. Ciudad Aut\u00f3noma de Buenos Aires: Ed. Paid\u00f3s, 2023, p.263.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">[2] MILLER, J-A. El Banquete de los analistas. Ciudad Aut\u00f3noma de Buenos Aires: Ed. Paid\u00f3s, 2018. p.177.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">[3] LACAN, J. O tempo l\u00f3gico e a asser\u00e7\u00e3o de certeza antecipada (1945). Em: <em>Escritos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Ribeiro, Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1998, p.211.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">[4] TARRAB, M. <em>El decir y lo Real: hacer escuchar lo que est\u00e1 escrito<\/em>. Olivos: Ed. Grama, 2023, p.39.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">[5] BRODSKY, G. Los psicoanalistas y el deseo de ense\u00f1ar. Olivos: Grama Ediciones, 2023, p.127.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">[6] LACAN, J. Ato Funda\u00e7\u00e3o (1971). Em: <em>Outros Escritos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Ribeiro, Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 2003, p. 235.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paula Nathalie Nocquet Um relato de J-A Miller[1], que me pareceu muito interessante para abrir esse tema da experi\u00eancia de Escola, \u00e9 que aos seus vinte anos, Lacan se aproxima com panfletos, eram o Ato de Funda\u00e7\u00e3o, e lhe pergunta: \u201cquantos voc\u00ea quer, para seus camaradas?\u201d. 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