{"id":5337,"date":"2025-04-29T09:01:01","date_gmt":"2025-04-29T12:01:01","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=5337"},"modified":"2025-04-29T09:01:01","modified_gmt":"2025-04-29T12:01:01","slug":"os-mortos-vivos-e-a-psicanalise-dos-zumbis-aos-arrebatados-pela-imagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/os-mortos-vivos-e-a-psicanalise-dos-zumbis-aos-arrebatados-pela-imagem\/","title":{"rendered":"OS MORTOS-VIVOS E A PSICAN\u00c1LISE: DOS ZUMBIS AOS ARREBATADOS PELA IMAGEM"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\"><em><strong>Val\u00e9ria Beatriz Araujo<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_5338\" aria-describedby=\"caption-attachment-5338\" style=\"width: 235px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5338\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/modos_de_usa_007_009-235x300.jpg\" alt=\"\" width=\"235\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/modos_de_usa_007_009-235x300.jpg 235w, https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/modos_de_usa_007_009.jpg 323w\" sizes=\"auto, (max-width: 235px) 100vw, 235px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-5338\" class=\"wp-caption-text\">Wassily Kandinsky<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>O Livro de Henri Kaufmanner<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, apresentado na atividade de Noite de Biblioteca da Se\u00e7\u00e3o Sul, \u00e9 uma obra que toca de perto o mal estar contempor\u00e2neo. Destaco dois pontos que me atravessaram nessa leitura: O estatuto da morte em nosso tempo e o arrebatamento.<\/p>\n<blockquote><p><strong>I-O estatuto da morte em nosso tempo<\/strong>: O autor coloca como quest\u00e3o: \u201cEstar\u00edamos diante de uma mudan\u00e7a no estatuto da morte em nosso tempo e, como consequ\u00eancia, sua presen\u00e7a mais evidente nos corpos?\u201d <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Seu argumento traz os craqueiros tomados como mortos-vivos que se fazem vis\u00edveis:<\/p>\n<p>\u201cPor que essa mostra\u00e7\u00e3o do mort\u00edfero de sua adi\u00e7\u00e3o?\u201d Ele se pergunta.<\/p>\n<p>\u201cA mostra\u00e7\u00e3o de uma err\u00e2ncia entre vida e morte, numa rela\u00e7\u00e3o de continuidade, n\u00e3o de ruptura?\u201d <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Sua presen\u00e7a, segundo o autor, reflete uma mudan\u00e7a no estatuto da morte na atualidade, onde morrer, para um morto-vivo, n\u00e3o seria apenas um destino, e sim \u201cuma presen\u00e7a que se faz perceber no corpo, expressa sua redu\u00e7\u00e3o a um mais- al\u00e9m, a um resto de cultura, uma encarna\u00e7\u00e3o da morte em vida\u201d.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Extraindo consequ\u00eancias, podemos pensar a presen\u00e7a de novas formas de viol\u00eancia, tanto nos acontecimentos sociais como na pr\u00e1tica cl\u00ednica. Vemos, conforme aponta Henri, o esvaziamento das solu\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas coletivizantes, e os novos agrupamentos passando a se dar pelas semelhan\u00e7as nos modos de gozo.<\/p>\n<p>A partir deste novo estatuto, os craqueiros, os mortos-vivos, os zumbis, s\u00e3o \u201ca mitologia contempor\u00e2nea que d\u00e1 nome a essas novas afeta\u00e7\u00f5es dos corpos. E a novas formas de enfrentamento e defesa diante da persist\u00eancia inelimin\u00e1vel do olhar.\u201d <a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>A esta quest\u00e3o, sobre a mostra\u00e7\u00e3o do mort\u00edfero de sua adi\u00e7\u00e3o, Henri nos esclarece: \u201cOs craqueiros necessitam de um lugar que os proteja da a\u00e7\u00e3o policial truculenta. O fluxo da Cracol\u00e2ndia move-se como um organismo, e sua apar\u00eancia a de mortos-vivos.\u201d <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. Um agrupamento que os proteja do Outro, poder\u00edamos dizer. Do olhar do Outro. Ao mesmo tempo se d\u00e1 a presen\u00e7a de \u201cum la\u00e7o identificat\u00f3rio que se sustenta n\u00e3o s\u00f3 pelo uso da subst\u00e2ncia, mas tamb\u00e9m pela mostra\u00e7\u00e3o dos corpos. Na den\u00fancia do estrago dos restos, a partir da l\u00f3gica do consumo.\u201d <a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>A leitura de Henri em rela\u00e7\u00e3o a este tema complexo vai al\u00e9m, no sentido de elencar fen\u00f4menos contempor\u00e2neos que atualizam a experi\u00eancia dos mortos-vivos no cotidiano da cultura, numa aus\u00eancia de singularidade que os mant\u00eam reduzidos ao consumo e ao seu gozo: os bols\u00f5es de mis\u00e9ria, o isolamento dos condom\u00ednios, entre outros.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a no estatuto da morte aponta para a alian\u00e7a da ci\u00eancia com o capitalismo, resultando, neste caso, numa \u201csepultura a c\u00e9u aberto\u201d.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Vidas prec\u00e1rias, como aponta Henri citando Judith Butler, que n\u00e3o s\u00e3o pass\u00edveis de luto. A necropol\u00edtica, citando Mbembe, ou seja, a redu\u00e7\u00e3o do corpo a seu valor de uso, deixando-o morrer.<\/p>\n<p><strong>II- O arrebatamento<\/strong>: Neste ponto, a tese de Henri \u00e9 de que, em nosso tempo, h\u00e1 um efeito sobre os corpos que toca a todos. Somos todos arrebatados pelas imagens, deixando-nos mais alijados, mais afastados de uma representa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e, assim, meio mortos-vivos.<\/p>\n<p>\u201cArrebatamento &#8211; essa palavra constitui para n\u00f3s um enigma. Ser\u00e1 objetiva ou subjetiva naquilo que Lol V. Stein a determina?\u201d <a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>, nos instiga Lacan a refletir.<\/p>\n<p>Um encontro com um morto-vivo coloca em jogo uma experi\u00eancia com o Olhar e com a Imagem. Coloca em jogo a distin\u00e7\u00e3o entre olho e olhar. Podemos pensar a\u00ed a tens\u00e3o que pode se estabelecer entre os sujeitos tomados como craqueiros e o Outro, como seres olhados?<\/p>\n<p>Se pensamos com Lacan sobre quem seria o arrebatador e quem seria o arrebatado: \u201c(&#8230;) ser\u00e1 que um de n\u00f3s passou atrav\u00e9s do outro, e quem dela [a criatura] ou de n\u00f3s se deixou atravessar?\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Para Henri, \u201ca inten\u00e7\u00e3o neste trabalho \u00e9 buscar o que estaria por debaixo de toda representa\u00e7\u00e3o\u201d <a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>, numa sociedade \u201cque jamais fecha os olhos, no imperativo da visibilidade, dando a todos o direito a ver\u201d <a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Passamos do est\u00e1gio do ver e ser visto para o de ser integralmente vis\u00edvel, de onde se destacam dois pontos:<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup>[13]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>&#8211; A sociedade da transpar\u00eancia se deve ao decl\u00ednio dos semblantes.<\/p>\n<p>&#8211; A presen\u00e7a de videovigil\u00e2ncia n\u00e3o diminui a delinqu\u00eancia.<\/p>\n<p>Henri postula que tal constata\u00e7\u00e3o se deve \u00e0 aus\u00eancia do olhar. A cren\u00e7a no todo da imagem recha\u00e7a a divis\u00e3o decorrente do olhar. <a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup>[14]<\/sup><\/a> E, n\u00e3o sendo vistos, prevalece o imperativo de gozo.<\/p>\n<p>O olhar \u00e9 o que nos inclui, como seres olhados, no espet\u00e1culo do mundo.<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup>[15]<\/sup><\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup><span style=\"font-size: 13px;\">[1]<\/span><\/sup><\/a><span style=\"font-size: 13px;\"> Kaufmanner, Henri. <em>Os mortos-vivos e a psican\u00e1lise<\/em>: dos zumbis aos arrebatados pela imagem. Belo Horizonte: Scriptum, 2024.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Op. Cit., p. 18.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Op. Cit., p. 41.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Op. Cit., p. 23.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Op. Cit., p. 24.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Op. Cit., p. 35.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Op. Cit., p. 36.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Op. Cit., 34.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> Lacan, Jacques. Homenagem a Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. Stein. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 198.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> Lacan, Jacques. Op. Cit..<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> Kaufmanner, Henri. Op. Cit., p. 85.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> Op. Cit., p. 87.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup>[13]<\/sup><\/a> Op. Cit., p. 91.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><sup>[14]<\/sup><\/a> Op. Cit., 94.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\"><sup>[15]<\/sup><\/a> Op. Cit., p. 134.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Val\u00e9ria Beatriz Araujo \u00a0O Livro de Henri Kaufmanner[1], apresentado na atividade de Noite de Biblioteca da Se\u00e7\u00e3o Sul, \u00e9 uma obra que toca de perto o mal estar contempor\u00e2neo. 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